segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Zumbis em Porto Alegre 1

Zumbis em Porto Alegre

Apresentação e explicações:
Zumbis, zumbis e mais zumbis. Não é de hoje que temos muito material sendo lançado sobre este tema. Contos, filmes, cenários de jogo e games. Por isso mesmo que tive a ideia de lançar este pequeno projeto. No ano passado tive o prazer de ler um material muito bom do blog Lote do Betão chamado “Diário de um Sobrevivente”. Nele um sobrevivente de um holocausto zumbi escreve suas experiências tentando manter-se vivo. Gostei muito, tanto que tive a idéia de produzir o que apresentarei a seguir. Claro que conversei com o autor do blog e esclareci minha vontade para não parecer que estava me aproveitando da criatividade alheia.


Anotação 1
Parece mentira. Até quarta-feira eu tinha apenas duas certezas – de que éramos os únicos vivos no mundo e que aquele rádio de merda não serviria nem como peso de papel. Ledo engano. Nas duas. Depois de meses mantendo-me vivo em Porto Alegre, neste caos em que o mundo se transformou, acordei hoje com um gosto diferente na boca.

Regularmente eu dava uma ligada num aparelho velho de radioamadorismo que ficou de herança de meu avô, embora soubesse apenas o mínimo para seu funcionamento. Nem sei bem por que eu o separei quando selecionava o que seria útil quando estava procurando um esconderijo para mim. Mas de qualquer forma eu o ligava, graças à uma gambiarra com baterias de carro, por cerca de meia hora por dia em horários diferentes. Quando comecei a fazer isto, um mês depois que este inferno começou, ainda consegui me comunicar com um casal em Buenos Aires e mais meia dúzia de pessoas espalhadas pelo Brasil. Mas dia à dia os contatos iam escasseando, até que poucas semanas depois não recebi mais nenhuma resposta. Depois disto era só estática.

Mas dois dias atrás, como por milagre, ou acaso, o que preferirem, recebi uma resposta. O Renan tomou um susto tão grande que chegou a engasgar um pedaço de uma barrinha de cereal que ele estava economizando à horas. A Juliana entrou em um choro convulsivo que levamos mais de hora para acalmar. Contudo era verdade. Haviam outros. E quem sabe mais quantos sem rádio espalhados por aí? O certo é que uma nova esperança brotou naquela terra arrasada que eram nossas mentes.

A resposta veio de Curitiba. Um grupo pequeno de sobreviventes – eram em quatro - ainda estava vivo na capital do estado do Paraná. Teríamos conversado por horas se nosso bom senso não tivesse nos refrescado a memória sobre o detalhe de não termos mais energia elétrica livremente, pelo menos por aqui, onde estávamos escondidos. Mas trocamos informações, acho que o bem mais precisos hoje em dia, depois de munição, gasolina e água, é claro. Marcamos de nos falar regularmente, de forma breve, pelo menos para mantermos a esperança acesa.

Ontem, em nosso segundo contato, eles contaram um pouco de sua história e de como sobreviveram nos primeiros dias. Era impressionante, surreal e ao mesmo tempo parecida com a nossa história. O certo é que ninguém, nem eles nem nós, sabemos como tudo começou. Para hoje ficou a nossa vez de contar um pouco sobre nós.

Isso parece um passado incrivelmente distante. Passei mão num caderno que estava jogado num canto do quarto. Tinha dúvida se ainda saberia escrever algo. Nesses meses nos valemos apenas de alguns rabiscos quando preparávamos alguma ação para entrar em um prédio e deixarmos tudo esquematizado. Queria escrever, e tinha um motivo agora. Haviam outros e queria não perder nada, ou pelo menos, se não sobrevivesse até encontrar com os outros, que houvesse alguma coisa minha para servir nem que fosse para passarem o tempo.

Era final de uma tarde de um dia típico de inverno por aqui, o que quer dizer frio, escuro e úmido. O frio era muito intenso, não passava de oito graus, e os dedos doíam para realizar o movimento da caneta. Estou parado ao lado da janela, olhando para a rua e procurando algum raio de sol. Lá embaixo volta e meia passava um grupo de zumbis para lá ou para cá bem na calçada ao lado do Carrefour. Um desavisado iria achar que eram transeuntes no seu movimento diário para as compras diárias. Eu poderia acerta-los facilmente do terceiro andar, mas não era prudente ficar gastando munição. Além de que era menos prudente ainda denunciar nossa posição fazendo um estardalhaço. O barulho era um chamariz de zumbis tão eficiente quanto o movimento.

Estou tentando recordar o início de tudo para colocar neste caderno. Se um dia nos encontrássemos com o pessoal de Curitiba seria engraçada eu lhes entregar isso, além de que isso me ajudaria quando eu fosse contar a eles, pelo rádio, de nossa luta. Tudo começou a vir à mente. Era um turbilhão que nem eu mesmo sabia ser possível me recordar.

4 comentários:

Valberto disse...

Zumbis são um tema recorrente, mas muito bacana.

João Brasil disse...

Valeu cara... pelo comentário e pela inspiração!

John Bogéa disse...

Muito bacana João, gostei bastante. Estou copiando este post para o Blog do Terra Devastada, com os devidos créditos, é claro.

Valeu pela força.

Rivelino Di disse...

Lembro quando li pela primeira vez essa história e não conseguia parar de ler, pois é muito boa e vc ta de parabéns. Espero ansioso pela continuação hein.