terça-feira, 2 de março de 2010

Zumbis em Porto Alegre 3

Zumbis em Porto Alegre

ANOTAÇÃO 3

Vamos continuar as lembranças. Quero aproveitar que não terei de sair nos próximos dias. Estamos com a dispensa cheia e esses dias frios de inverno não me dão a idéia de colocar o nariz para fora.

Quando chegamos à Faculdade Porto Alegrense notamos uma grande movimentação militar. Eles estavam preparando uma barricada com alguns tanques e um considerável número de soldados. Nada exagerado, mas poderia resistir de forma adequada, eu achava.

Alguns soldados nos informaram que as zonas críticas eram o centro da capital seguindo até a zona norte, como já havíamos constatado, a zona sul entre o bairro Cristal até próximo do Guarujá e algumas parcelas do bairro Partenon. Segundo eles muitas barreiras estavam sendo feitas para tentar frear aquelas coisas enquanto esperavam novas ordens e reforços. Disseram teríamos uma certa tranqüilidade dali até o bairro Intercap, nosso destino. As orientações era para que todos tentassem permanecer em suas casas se protegendo como desse. A evacuação tinha sido um fracasso e mais gente nas ruas seria um prato feito para os zumbis.

Segui rápido pela avenida Manoel Elias até a Protásio, e dali até a avenida Antônio de Carvalho. Realmente não havia muito problema de trânsito. Para falar a verdade o movimento era de carros militares enquanto carros civis estavam espalhados aqui e ali. Mas nem tudo eram flores. Enquanto fui descendo em alta velocidade a Antônio, em direção à Intercap, o Raul mostrou algumas daquelas coisas saindo de uma esquina perseguindo dois jovens que logo foram capturados. A cena foi hedionda, mas não podíamos para naquele momento. O que tinha certeza era que nem o exército sabia a amplitude daquilo tudo e que eles estavam enganados se achavam que as coisas estavam restritas à zonas específicas.

Acelerei mais ainda e entrei na contra-mão da Ipiranga para chegar mais rápido onde desejava. Quanto mais perto chegava mais ansioso estava. As coisas pareciam calmas por ali. Todas as casas fechadas, algumas famílias claramente preparando seus carros para fugirem, mas nada de zumbis em lugar algum. Era um alívio.

Quando cheguei à frente da casa tive o primeiro susto. Tudo estava fechado. Tinha a esperança de que minha namorada estaria ali, protegida e me esperando. Mas estava enganado. Tão logo entramos pelo portão eletrônico e saltamos do carro com todo o cuidado e entramos na casa percebemos que estava vazia.

Paulo correu para tentar falar com sua casa, mas a linha estava cortada. Raul ainda estava preocupado com as notícias que os soldados haviam dito sobre os problemas na zona sul. Ambos estavam ansiosos para irem para casa. Tentei acalma-los ao máximo enquanto não consegui manter eu mesmo a calma. Onde ela estaria?

Disse para eles pegarem meu outro carro, um Palio e irem para a zona sul. Era o máximo que eu poderia fazer por eles naquele momento. Enquanto Eles iam passando suas coisas da caminhonete para o carro e corri pela casa para ver se estava tudo bem e se havia algum sinal de minha namorada. Por sorte ela havia deixado um bilhete na geladeira – “Vou ficar em casa. Te espero lá. Deixei o outro celular na escrivaninha. Bjs.”

Isso me aliviou. Pelo menos eu sabia onde procurar. Além disso, ela havia sido muito esperta. Além de nossos celulares normais, tínhamos também aquele tipo de celular que possibilitava uma comunicação tipo rádio. Corri para a escrivaninha e achei o aparelho.

Beeep – “Alô Ju.... Está aí?”

A resposta demorou um pouco mas veio.

Beeep – “Siimmm.... Que bom te ouvir. Está em casa?”

Beeep – “Sim.... Está no apartamento?”

Beeep – “Sim, está tudo bem contigo?” [choro] “Quer que eu vá para aí?”

Beeep – “Claro que não, eu te busco. Como estão as coisas por aí?”

Beeep – “Tudo calmo por enquanto, vem logo!”

Beeep – “Estou indo. Arruma tuas coisas da melhor maneira possível. Pega tudo o que tiver de comida e o que for necessário. Te amo!”

Beeep – “Também!”

Desliguei o aparelho no mesmo momento que Paulo e Raul voltaram. Já haviam terminado de arrumar o carro e já iam sair. Disse o que iria fazer e se eles não queriam ficar ali conosco, mas eles estavam ansiosos para encontrar seus parentes.

Aproveitei que eles iriam sair e combinamos de sairmos juntos. A casa dela era num edifício pequeno bem ao lado do Carrefour, menos de três minutos de carro. No mesmo caminho que eles teriam de pegar para ir para a zona sul. Dali eles iriam sozinhos.

Não ficamos mais do que vinte minutos na minha casa e, quando saímos, as coisas já estavam diferentes. Aquele silêncio todo já estava sendo incomodado por sons de tiros vindo de locais indistinguíveis. Já havia mais gente na rua, de curiosos à pessoas apavoradas tentando fugir. Mas pelo manos ainda não haviam aquelas coisas.

Trocamos um longo abraço e desejos de sucesso à todos nós. Deixei claro para eles onde me encontrar se precisassem. Tiramos os carros, fechando o portão eletrônico logo atrás de nós.

Partimos com cuidado por dentro do bairro Intercap à caminho do Carrefour. O caminho foi rápido e quase sem problemas – fora dois ou três motoristas desesperados que quase nos atingiram.

Chegamos ao Carrefour e passamos pela rua detrás, chegando à frente do prédio da Juliana. Ela já estava postada na frente do edifício, pelo lado de dentro das enormes grades de proteção. Vê-la bem foi um alento naquele momento.

Travei o carro e o Raul e Paulo passaram por mim buzinando. A jornada deles seria muito mais longa e perigosa.

2 comentários:

Baltazar, Mago Aventureiro disse...

Muito bom Jon...esperando a continuação!

João Brasil disse...

Pode deixar... Quero ver se consigo manter dois ou três posts novos por semana....

Abração!!