domingo, 7 de março de 2010

Zumbis em Porto Alegre 4

Zumbis em Porto Alegre

Anotação 4

Vou continuar as minhas recordações daquele início fatídico do inferno. Me desculpe se, embora sendo um professor, não tenho o dom da escrita de forma apurada. Mas o que me interesse é que tudo isso não se perca no tempo.

Mal eu abri a porta da caminhonete e a Juliana já estava se jogando em meus braços. Foi uma sensação tranqüilizadora. Algo de que eu precisava naquele momento.

Ela me contou que ia ficar na minha casa, mas resolveu na última hora voltar aqui e deixar algumas coisas preparadas e comprar mais comida. Até pensou em voltar para minha casa, mas a loucura deste transito a fez me esperar.

Realmente a rua ao nosso redor estava uma loucura. Aqui, ao lado do Carrefour, o transito estava muito diferente daquele que eu havia percorrido até chegar em minha casa. Muitas pessoas queriam ter uma reserva de suprimentos e o caminho deste hipermercado era algo natural. Havia um grande engarrafamento na entrada do Carrefour.

Eu a tranqüilizei após longo beijo. Pedi que guardasse a caminhonete no pátio do seu prédio e fosse colocando suas coisas dentro. Enquanto isso eu iria até o Carrefour para tentar trazer algo de comida e qualquer coisa que precisássemos.

Os carros tentando entrar no supermercado estava parados tamanha a quantidade. Eles não andavam nem para frente nem para trás. Alguns haviam sido inclusive abandonados por seus donos desesperados.

Eu coloquei nas costas uma grande mochila de acampar que já havia trazido providencialmente para qualquer necessidade. Tive de subir em mais de um carro para conseguir alcançar o outro lado da rua. As pessoas corriam para todos os lados. Muitos vinham do hipermercado trazendo sacolas e mercadorias nas mãos. Muito mais gente tentava entrar do que sair de lá.

Poucos policiais tentavam acalmar a multidão enquanto seus próprios rostos se faziam apavorados. Quando alcancei a entrada do portão para rua pude vislumbrar o enorme estacionamento abarrotados de carros espalhados de forma irregular. Muitos acidentes. Entre eles uma multidão.

Por sorte, eu acho, consegui me espremer por um canto onde o fluxo de entrada pelo portão fluiu mais rapidamente. Tão logo cheguei ao pátio tentei correr como um louco para dentro. As pessoas estavam transtornadas. Muitos dos que saiam com compras eram atacados e roubados já na porta por outros desesperados.

Os seguranças, na entrada, quase não conseguiam segurar aquela turba. Todos armados, davam disparos de aviso para o alto, de quando em quando. Nem todos podiam entrar. Eles só deixavam entrar quem fosse pagar com dinheiro vivo. Isso revoltou muitos dos que estavam espremidos nas portas de vidro da entrada. Eu tentei aproveitar a confusão e passei por dois deles gritando que tinha dinheiro.

As coisas estavam completamente fora de controle.

Lá dentro tudo estava muito mais confuso. A ordem já estava perdida à algum tempo. Todos queriam passar ao mesmo tempo pelos caixas. Muitos seguranças controlavam os pagamentos. Realmente não tenho idéia de como havia gente que com toda aquela calamidade ainda tinha tempo para pensar em dinheiro. Isso sem contar naquele que ainda tinham a idéia de levar aparelhos eletrônicos. O ser humano, quando não é louco, é maluco.

Corri na direção dos corredores de alimentos. Com toda a certeza tinha muito mais gente do que a estrutura comportava normalmente. Brigas eclodiam aqui e ali, disparos eram escutados à toda hora, a correria com os carrinhos era geral.

Passei mão num carrinho esquecido num canto. E comecei a pegar o que eu conseguia. Tudo tinha um valor inestimável de agora em diante, e não sabia quando conseguiria comida novamente. Enlatados e comida desidratada eram meus alvos. Sabia que a validade deles era muito mais longa. Mas mesmo assim, eu acabava pegando o que encontrasse.

Nessas horas de desespero coisas básicas são esquecidas. Pilhas, baterias, fósforos, remédios, antisépticos. Coisas que não damos muita importância no dia a dia, que provavelmente passariam a ser úteis. Água já não tinha mais. Foi a primeira coisa que acabou nas prateleiras. Acabei levando alguns sucos, nem que fossem para se beber em um ou dois dias. No momento do desespero, por mais que sejamos, ou tentemos ser frios, acabamos sendo influenciados pela correria e irracionalidade dos outros.

Quando estava começando a me direcionar para o caixa o pior aconteceu. De algum lugar do interior do hipermercado começaram gritos que destoavam do alvoroço que havia. Um momento de silêncio calou muitos que estavam ali. Logo em seguida, num segundo grito, veio a confirmação – “Zumbiiiissss!”. Isso foi o suficiente para criar uma espécie de estouro da boiada. Agora todos queriam sair de uma só vez. Se atropelavam. Se pisoteavam. Se agrediam.

Eu estava perto dos últimos caixas, logo ao lado do corredor dos refrigerantes. Ali o fluxo de carrinhos era um pouco menor e tive tempo de pensar. Com aquela confusão eu tinha de ser prático. Para o inferno pagar qualquer coisa. Tinha de sair dali e iria fazer isso de qualquer forma.

Com a confusão armada os seguranças correram para o meio dos corredores deixando a frente de caixa quase que livre. Haviam somente os seguranças nas portas de entrada mas, estranhamente, de onde eu estava percebia que mesmo o número de pessoas do lado de fora havia diminuído muito.

Respirei fundo e corri com o carrinho, seguido de um ou outro que perceberam o que eu ia tentar. No caminho de minha corrida ainda tive tempo de ver alguma coisa subindo num caixa e pulando sobre uma das atendentes sob o olhar pasmado de todos os que estavam em volta.

Eu literalmente atropelei os seguranças jogando os dois que estavam em meu caminho para os lados. Com a distração muitas pessoas correram para dentro atropelando o resto. Era tudo o que eu precisava. Atrás de mim mais alguns desesperados vinham com seus carrinhos abarrotados. Estranhamente havia menos pessoas na porta do que antes e eu não entendi naquele momento. De qualquer forma aproveitei para correr para fora e subir a rampa que dava acesso à rua Albion.

Somente quando eu cheguei à metade da rampa foi que me dei conta que aquela multidão havia se dispersado. Olhei para trás e tive a surpresa. O pátio de estacionamento do Carrefour tem o feitio de enorme panela. Tanto ele quanto o prédio do hipermercado ficam abaixo do nível da rua na frente e dos lados. A extremidade oposta da rampa em que estava subindo haviam pelo menos umas três dezenas de zumbis descendo pelas escadas em direção ao estacionamento. Mais à frente, próximo a primeira porta do Carrefour já haviam alguns zumbis se esbaldando com uns pobres coitados. Esse era o motivo da dispersão.

Não sei como eles chegaram até ali. Para isso eles teriam de ter vindo do lado oposto aos bloqueios e passando pela minha casa. Nunca fiquei sabendo ao certo como eles vieram daquele lado. O certo era que eu tinha tido uma grande sorte de estar na rampa oposta à eles.

Me concentrei no que tinha de fazer e parti para o prédio da Juliana com o carrinho abarrotado. Agora um novo problema – entre eu e o prédio haviam muitos carros abandonados, fora o corre-corre daqueles que tentava fugir desesperada. Minha única opção foi costear os carros tendo de fazer quase o triplo da distância para conseguir chegar ao meu destino.

Comecei a descer a rua, em direção à Ipiranga, até achar um vão entre a tropa de carros uns cem metros do prédio. Foi mais fácil do que eu imaginara naquele dia. Mas tão logo eu contornei os carros e comecei meu caminho ao meu destino vi a Juliana gritando algo que eu não escutava naquela balburdia e apontando para trás de mim. Eram alguns zumbis vindo pelas minhas costas.

A minha sorte é que eles, pelo menos uma grande maioria, são relativamente lentos. Mesmo assim, naqueles primeiros dias eu ainda não sabia desse detalhe. Corri o máximo que pude, aos trancos e barrancos, perdendo alguns produtos no trepidar do carrinho. Mas, de qualquer forma, cheguei à casa da Juliana sem muito problema. Eu até tive a falsa idéia de que aquilo não seria tão complicado assim combater e sobreviver aos zumbis. Se eu imaginasse...

Pouco depois que eu entrei e que o portão se fechou atrás de mim os zumbis passaram por nós. Eles passaram reto pelo portão focando as pessoas que ainda estavam próximas, na rua. Essa foi outra caracterísitica que aos poucos fomos aprendendo – eles focalizam naquilo que está mais fácil para eles atingirem. A correria só aumentava e o desespero também. Em alguns instantes a frente do prédio estava praticamente vazia com a população tentando escapar dos monstros correndo em direção à avenida Bento Gonçalves. Alguns policiais disparavam suas armas, mas o efeito era pouco efetivo.

Em frente àquele quadro decidimos que o melhor seria continuar aqui mesmo, no prédio, até as coisas acalmarem. Mas antes disso eu teria de voltar à minha casa para pegar o que eu havia deixado por lá. Principalmente minhas pistolas que até hoje não imagino por que as deixei por lá quando saí.

Um comentário:

Fernando disse...

Gostei muito e vc está de parabéns! Só tem um probleminha: continua postando!