sábado, 20 de março de 2010

Zumbis em Porto Alegre 5

Zumbis em Porto Alegre

Anotação 5

Não sei se perceberam, mas tudo o que contei até agora aconteceu no espaço de algumas horas. Foram momentos intensos. Vamos continuar.

Depois que decidimos permanecer por um tempo no apartamento da Juliana, pelo menos os primeiros dias, eu só tinha uma coisa para fazer – ir buscar o máximo de coisas que pudesse em minha casa. A decisão de ficar ali foi a mais acertada, embora naquele momento tivesse sido tomada mais no impulso do que de forma raciocinada. Minha casa seria muito fácil de ser invadida numa situação crítica, enquanto o prédio da Juliana contava com um alto muro de concreto que havia sido construído meses atrás depois de um grande assalto. Além disso haviam mais pessoas ali e o ser humano sempre tem a noção de segurança quando em grupo.

O prédio contava com quatro andares tendo dois apartamentos por andar. Nada muito luxuoso: dois quartos, sala, cozinha, banheiro, escritório e sacada. Com todas as moradias ocupadas haviam quase trinta pessoas residindo nele. Mas desde os acontecimentos sinistros e com boa parte da população fugindo, haviam somente quatro apartamentos ocupados. O bom é que todos se conheciam e seria muito melhor conviver assim – até mesmo para a sanidade.

Ainda ficamos um bom tempo observando apavorados aquele corre-corre e aqueles monstros fazendo cada vez mais vítimas. Foi uma visão que ainda tento me esquecer.

“- Tem certeza de que tens de voltar lá?” – ela me pergunto me tirando daquela espécie de transe criado pelo pavor. Só aí me dei conta de que tempo era uma preciosidade de que não dispúnhamos.

Respondi afirmativamente com a cabeça para ela e já comecei a esvaziar a caminhonete. Colocamos tudo no saguão do edifício, junto com as provisões que eu trouxera do Carrefour. Tivemos a ajuda de dois rapazes que moravam com os pais no primeiro andar – Jonas e Michel – adolescentes, mas que estavam sabendo lidar de forma razoável com aquela situação mantendo a calma. Seus pais estavam na praia e o último contato que tiveram era de que estariam voltando naquela manhã. Era um momento de todos se ajudarem.

Com tudo pronto queria sair o mais rápido possível para aproveitar que a confusão havia atraído os zumbis mais para a avenida Bento Gonçalves e para dentro do pátio do hipermercado. Não sabia o quanto eles ficariam longe e não poderia perder tempo.

Confirmei que a Juliana estava com um dos celulares via rádio e combinei com ela que tentaria voltar o mais rápido possível. Não desejava perder mais do que uma hora nessa ida e vinda. Ela insistiu para ir junto, mas o perigo seria grande e nem eu sabia muito bem o que fazer.

Eles abriram o portão de forma rápida e eu saí de ré acertando de leve um carro abandonado próximo. Não havia espaço nem tempo para manobras cuidadosas. Girei a direção e peguei a rua nos fundos do Carrefour, exatamente o mesmo caminho que eu havia feito para chegar até aqui. Ela estava com menos carros abandonados, o que possibilitava ainda uma certa facilidade para circular. Cruzei por dois motoristas desesperados que vinham na direção contrária, mas sem problemas.

Como na vinda, tudo estava estranhamente calmo. Mas era apenas impressão, principalmente depois do que eu passei no Carrefour. Embora as ruas estivessem aparentemente vazias logo na primeira esquina o som do motor chamou a atenção de um daqueles monstros que saindo não sei de onde se jogou sobro o capo como se pudesse me pegar pelo para-brisa. Com o susto quase joguei o carro contra um muro. Tentei travar bruscamente para derruba-lo, mas ele estava muito bem agarrado ao capô. Seu corpo tapava quase toda a minha visão. Eu acabaria batendo o carro se não tomasse alguma providência. Com o pouco de visão que ainda tinha fiz a curva no final da rua na maior velocidade possível. E deu certo. O monstro saiu derrapando pela rua de paralelepípedos e acertando um poste em cheio, fazendo seu corpo espatifar em dois ou três pedaços.

Acelerei ainda mais, agora que conseguia ver a frente, e cheguei em dois minutos à minha casa. Aquela era uma rua calma e de pouco fluxo. Era uma zona muito boa. As casas, todas grandes e de dois pisos, ocupavam amplos terrenos fechando-os de ponta a ponta. Isso, pelo menos, protegia os fundos. As frentes eram protegidas por grades que davam uma falsa noção de proteção. Ali, um pouco mais afastado do Carrefour, que antes estava sem nenhum daqueles monstros, essas coisas surgiam agora de todo o lugar indo de um lado para o outro.

Quando me aproximei da casa já fui acionando o dispositivo para abrir o portão. Entrei de uma só vez e fechando o portão rapidamente. A rua não estava mais deserta. Pessoas se aventuravam tentando fugir à pé ou de carro. Cada um era um alvo em potencial para aquelas coisas. Escutavam-se gritos, tiros e explosões. Uns perto, outros longe.

Saí do portão e corri para dentro. Deixei o porta-malas aberto para facilitar. É estranho como elegemos prioridades completamente desnecessárias quando em situações desesperadoras. Entrei na casa com uma lista feita mentalmente. Eu me lembro hoje e ainda me pergunto como eu pude achar que tantos livros seriam necessários. Bom, pelo menos para a fogueira foram...

Tudo o que eu pega tentava colocar no carro de forma que coubesse o máximo, mas o tempo era curto. Além dos desnecessários livros peguei tudo o que tinha de comida, roupas, pilhas e baterias. Desta vez não esqueci minhas duas pistolas. Eu não conhecia quase nada de armas. Depois de um assalto que quase me custou a vida o Raul insistiu em que eu comprasse a aprendesse a usar. Hoje agradeço à ele por isso. Não tinha muita munição, mas seria o suficiente para o início. Peguei alguns medicamentos básicos que eu tinha em casa, como todo mundo. Quando estava passando pelo escritório vi o rádio do meu avô, jogado num canto. Não sei explicar, mas resolvi o levar por instinto. Foi a melhor coisa que fiz. Por causa dele é que temos alguma esperança hoje.

Peguei também algum equipamento de camping que tinha. Quando dava eu e a Juliana gostávamos de acampar. Eu imaginava que seria uma possibilidade, senão uma necessidade, fugirmos para o interior ou para algum lugar mais escondido. Quando vi o porta-malas da caminhonete estava repleto. Não haviam se passado mais do que vinte minutos. Era perfeito.

Dei uma olhada para a rua. Pelo menos naquele momento as coisas haviam se acalmado. Conforme as pessoas tentavam fugir aquelas coisas iam insistentemente em sua direção até que alguma outra coisa chamasse sua atenção. Alguma coisa deve ter chamado a atenção daquelas coisas para algum lugar. Eu tinha de aproveitar. Entrei no carro e quando ia dar a partida, depois de ter fechado muito bem todas as entradas da casa, ouvi um som familiar, mas que me pareceu estranho.

Um miado.

Eu tinha um gato e nem me lembrava do infeliz. Ele estava parado na janela me olhando. Eu devo ter entrado na casa, passado por ele várias vezes, e nem ter notado sua presença. A consciência me fez pular do carro como um louco. Não ia deixar o bichano lá, sozinho. Entrei correndo e passei a mão nele e na sua caixa de transporte que sempre deixava perto da porta.

Corri de novo para o carro e arranjei um lugar para ele no banco do passageiro. Quando ia dar a partida novamente me lembrei - “a merda da ração de gato”. Ele não poderia ficar às minguas. Pulei novamente praguejando em silêncio e, depois de abrir novamente a porta da frente, corri para a cozinha onde deixava o saco da ração dela. Por sorte havia comprado um saco nem sei de quantos quilos para durar por um bom tempo.

De volta ao carro estava pronto para partir. Na minha cabeça ainda achava graça de toda aquela correria por causa de um gato numa situação como aquelas. Mas acho que isso é que nos torna diferentes daqueles monstros.

Abri o portão que lentamente foi se elevando. Eram segundos que levavam uma eternidade. Acelerei o carro para fora e travei para verificar se o portão se fecharia sem problemas. Conforme ele foi fechando, eu olhei pelo retrovisor e dessa vez as coisas haviam mudado muito. Cerca de uns cem metros atrás de mim haviam pelo menos uns vinte ou trinta daquelas coisas. O som do motor atraiu sua atenção como abelha e mel. Eles começaram à se mover para minha direção. Deixei o carro engatado e no que o portão tocou o chão disparei na direção oposta à eles.

O caminho seria o mesmo. Dobrar à direita contornando a praça, andar cinco quadras, direita, esquerda, mais duas quadras passando por trás do Carrefour e pronto. Estava tudo na minha cabeça sendo repassado insistentemente. Mas já havia passado o tempo em que tudo funcionava como planejávamos. Eu sabia que mais sedo ou mais tarde isso iria acontecer. Quando eu me aproximei da esquina, para dobrar à direita, notei um carro parado com as portas escancaradas e um grupo de zumbis sobre ele. Seus passageiros já deviam estar mortos ou coisa pior. O importante era que o carro estava bloqueando minha passagem.

Eu teria de achar outro caminho.

2 comentários:

RENAN BECKER disse...

Cara, só descobri agora essa maravilhosa saga zumbi, meus parabéns! Me mudei a pouco para fora de porto e é muito legal ver a nossa cidade sob esta visão, ótimo trabalho!

BuffaloHead disse...

Sempre vi a saga, mas só agora estou tendo tempo de lê-la. Tá muito dahora.
Não conheço nada de POA, mas isso não é problema para rpgistas, certo? hehe
E que porra esse gato hein? hahau, falei, "fudeu!" XD
É isso ae, cara. Parabéns! (Continuando.)