terça-feira, 23 de março de 2010

Zumbis em Porto Alegre 6

Zumbis em Porto Alegre

Anotações 6
Conforme eu vou escrevendo também vou me lembrando melhor das coisas que aconteceram. Já faz seis dias que comecei a escrever essas ‘memórias’, se é que dá para chamarmos assim. Graças à Deus que nesses dias tudo tem andado calmo. Tanto aqui dentro quanto lá fora. Parece até que o frio deu uma acalmada naqueles monstros. Mas vamos voltar ao que interessa.

Quando vi que o caminho que eu havia traçado para voltar estava obstruído tive de pensar rápido. Com aquelas coisas vindo por detrás eu não podia perder muito tempo. De uma leve freada no carro. O suficiente para quase parar.

Eu tinha duas opções. Fazer um retorno e pegar a avenida Ipiranga pela contramão. Mas esse caminho era muito mais longo, além de que quando eu e meus dois amigos viemos para cá, da primeira vez, já havia percebido um grande número de carros abandonados. Não poderia me arriscar a ficar preso ali.

A outra opção seria seguir em frente por mais uma quadra e entrar na avenida Bento Gonçalves á direita e seguir direto até o Carrefour, contornado-o. Era muito mais rápido, embora eu desconfiasse que ali teria muito mais zumbis para enfrentar. E eu não tinha idéia se realmente eu conseguiria.

Tive uma fração de segundo para pensar enquanto via pelo menos uma dúzia de zumbis estraçalhando o infeliz dono do carro que obstruía a rua.

Passei reto e decidi pelo caminho mais rápido. Avancei direto para a avenida Bento. Era uma quadra curta, mas conforme eu fui me aproximando da esquina percebi algumas daquelas coisas andando de um lado para o outro. E o som do carro logo atraiu sua atenção.

Jogue o carro sobre eles sem dó. Por sorte eram poucos senão teria sido impossível. Virei a direção rapidamente à direita e avancei pelo canteiro central. Alguns carros estavam abandonados e dificultavam o tráfego normal. Haviam alguns poucos veículos circulando por ali ainda. Eles estavam indo em direção à cidade de Viamão na tentativa de fugir daquele inferno. Tive de desviar em cima de dois carros, logo depois que dobrei. Seria irônico morrer num acidente de carro em meio à uma desgraça dessas.

De qualquer forma eu tinha três problemas: os zumbis avançado em qualquer coisa que chamasse sua atenção, e não eram poucos; os desesperados ainda tentando fugir à todo custo vindo na contra mão; e a pilha de carros abandonados.

Para conseguir percorrer aquele percurso tive que ziguezaguear indo de calçada à calçada. Sempre que possível eu atingia algum monstro – não queria perder a viajem. A visão do que a cidade havia se tornado eram inexplicável. Muito sangue e pedaços de pessoas espalhados pelo chão da avenida. Malas e mochilas espalhadas pelo chão. Pequenos incêndios. Pequenos grupos de zumbis estavam aqui e ali debruçados sobre restos daqueles que não conseguiram escapar. Naquele momento ainda não tinha total dimensão nem noção do que estava acontecendo. Ou melhor, a minha noção estava sendo recriada à todo momento. Eu estava vivenciando o fim de tudo o que entendia por mundo.

Cerca de trezentos metros de percurso e nem sei como, nem de onde, um carro surgiu rapidamente, cruzando meu caminho, bem na esquina da escola professor Schneider. Tentei desviar, mas foi inútil. O atingi de frente bem em sua traseira. Seu Corsa sofreu a maior parte do impacto girando umas duas vezes e atingindo um poste. Tão logo atingiu poste e já tinham duas ou três coisas daquelas sobre o carro. O sujeito não se movia e logo foi arrancado de dentro.

A grade frontal de proteção da caminhonete fez um belo trabalho. Embora amassada tinha deixado o carro intacto. Eu havia parado bem no meio da rua, mas ainda estava inteiro. Com a pressa não havia colocado o cinto de segurança e por sorte o impacto contra o volante não fora pior. Um belo galo e um corte foram tudo o que ganhei com aquele acidente. As buzinas dos carros que passavam fugindo por mim, conseguindo ou não escapar dos zumbis, foi que me trouxe à consciência novamente.

Acordei já com um daqueles zumbis quase alcançando minha janela. Apenas tive tempo que ligar o carro e acelerar sem nem olhar para onde eu estava indo. Dali eram apenas mais duas quadras e entrar à direita para contornar o Carrefour. Infelizmente, por causa do corredor de ônibus, de um lado, e das árvores na calçada, de outro, o espaço era reduzido para dirigir e manobrar. Mas, por sorte, não tive muito problema dali em diante para chegar ao edifício.

Logo que dobrei a rua e vi a Juliana empuleirada no muro à minha espera. Conforme fui chegando perto eles abriram o portão eletrônico para entrar com a caminhonete. Atravessei o portão e estacionei bem no fundo. Desci do carro e logo fui contando à ela e ao Jonas sobre como tinha sido a ida e vinda e do horror que eu encontrei pelo caminho. Os outros poucos moradores que não haviam fugido estavam saindo para ver como eu estava quando o Michel grito:

“- Estamos com problemas!” – ele disse apontando para o portão.

Ele ainda estava aberto. Ao lado, o Michel, de controle remoto na mão, apertava os botões e o portão fazia alguns sons, mas não saia do lugar. Todos ficamos mudos. Eu estava mais apavorado com ele aberto do que surpreso. Isso Já havia acontecido uma ou duas vezes desde que instalaram aquela porcaria. Ele precisava ser forçado para baixar e tudo estaria normal.

Corri para lá gritando para o Jonas puxar de um lado que eu puxaria de outro. O Michel só gritava para que fossemos rápido, pois aquelas coisas estavam sendo atraídas para cá. Ainda agradeço por elas serem relativamente lentas. Eu e o Jonas nos penduramos no portão de ferro, mas ele não cedeu, de início. Depois começou a descer lentamente. Mas estava sendo devagar demais.

Os zumbis estavam chegando em pequenos grupos, inicialmente, e muito mais numerosos, um pouco mais atrás.

Desci do portão e gritei para o Michel se pendurar no meu lugar. Puxei minha pistola e coloquei minhas aulas de tiro em prática. Atirei uma vez, depois outra, mas isso apenas atrasava os seus passos. Eles continuavam de pé, como se não estivessem sentindo o impacto das balas. Um dos moradores, Seu Artur, veio correndo segurando uma barra de ferro e gritando – “na cabeça eles disseram na tevê! Só assim para matar essas coisas”.

Comecei a disparar de novo. No segundo disparo eu atingi o alvo bem onde queria. O zumbi simplesmente parou e caiu, como se tivesse sido desligado da tomada. Ao meu lado Artur girava a barra de ferro tentando atingir um outro, até que conseguiu espatifar seu crânio, literalmente desligando-o. Era ótimo termos a sensação de que não éramos tão indefesos.

Mas isso não iria adiantar muito se o portão não fechasse de uma vez. Eram muitos zumbis e pouquíssima munição. E matar todos com a barra de ferro estava fora de cogitação. Enquanto isso o portão ia descendo, ainda devagar.

Continuei disparando, mas apenas quando extremamente necessário. A maior leva de zumbis estava quase nos alcançando quando o portão estava quase fechado. Gritei para o Artur passar de uma vez por debaixo que eu iria logo atrás. Ele passou quase se arrastando.

Só faltava eu. Mas quando me abaixei e comecei a passar um dos zumbis se jogou e pegou a bainha da minha calça. Fiquei desesperado. Não imagina que eles fossem tão fortes. Eu não conseguia continuar passando por debaixo do portão e não consegui me desvencilhar do monstro. Também não conseguia disparar minha pistola. Os outros monstros estavam à poucos metros e eu simplesmente não sabia o que fazer.

De repente um som cortou aquele desespero. Um disparo. Mas não um som seco e curto, como o que a minha pistola fazia. Era mais alto e comprimo. Junto ao disparo veio o som de pneus cantando. Até os zumbis viraram suas cabeças para ver o que era, com a atenção chamada pelo barulho.

Um carro em alta velocidade, atropelando um mar de monstros e batendo em todo os carros que via pela frente, avançava naquela direção. Quando chegou bem perto da frente do edifício ele travou na exata medida de passar por cima do monstro que tentava me pegar, destroçando-o do peito para baixo.

“- Estava com saudades?” – disse uma voz familiar.

Eram Paulo e Raul, um na direção e outro sentado na janela e segurando a espingarda. O carro, aquele que eu havia dado à eles, estava muito amassado em vários pontos. Nem sei como estava andando ainda.

O Raul, mirando e disparando a espingarda, gritava para que eu passasse logo. Ele acertava os mais próximos enquanto Paulo ia tirando várias coisas de dentro do carro e jogando por baixo do portão.

Nessa altura eu já tinha voltado para fora e ajudava ora o Raul, atirando em algumas daquelas coisas, ora o Paulo, retirando as coisas do carro. Acabamos aquela manobra quase no momento em que o maior número daquelas coisas finalmente nos alcançava.

Num pulo me arrastei pelo vão do portão, depois o Paulo e, por fim, o Raul. No que passamos todos juntos puxamos o portão e o fechamos finalmente.

As coisas já haviam sido colocadas todas no saguão de entrada pelos outros que já estavam do lado de dentro. Só nos restava esconder-nos para nos recuperamos.

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