quarta-feira, 31 de março de 2010

Zumbis em Porto Alegre 7

Zumbis em Porto Alegre

Anotação 7
Hoje fecha uma semana que comecei a escrever essas memórias. Também faz sete dias que não precisamos colocar a cara para fora de nosso esconderijo. Mas isso vai acabar mudando. Estamos ficando sem algumas coisas e teremos de nos aventurar em seguida. Mas isso é uma outra história, para outro dia.

Voltando às minhas recordações.

Depois daquele confronto inicial com os zumbis, o primeiro de muitos que viriam, verificamos tudo para ver se estávamos realmente seguros. Nossa posição era um tanto tranqüila. O terreno onde estava o prédio era pequeno, mas cercado por um alto muro de concreto e grades. Os terrenos ao redor eram relativamente seguros também. À direita e nos fundos divisávamos com um condomínio muito grande e que ainda tinha um bom número de moradores. Eram pelo menos cinco prédios com muitos apartamentos e eles estavam providenciando sua segurança também. À nossa esquerda havia outro edifício, este completamente abandonado por seus moradores. Podíamos ficar sossegados por enquanto.

Enquanto verificávamos tudo fiquei sabendo do Paulo e do Raul por que eles foram obrigados a voltar. Eles contaram que logo que chegaram na altura da avenida Aparício Borges encontraram um pequeno bloqueio do exército em franco combate contra os monstros, muitos monstros. A situação estava muito ruim ali. Eles tentaram fazer um desvio indo pela zona do presídio. Mas as coisas estavam ainda pior por lá. As pequenas ruas daquela zona estavam quase que totalmente bloqueadas por carros abandonados ou destruídos. Depois de combaterem um grupo de zumbis que quase os apanhou se viram obrigados à voltar. No caminho pegaram tudo o que viesse a ser útil. Trouxeram algumas armas que haviam sido perdidas por soldados mortos; mantimentos que haviam sido deixados para trás; e algumas outras coisas.

Lhes contei minha aventura na ida e na vinda até minha casa. Ao final tínhamos certeza que todos estávamos vivos por puro acaso.

A tarde já estava chegando e a claridade ia diminuindo. Depois de acomodarmos tudo no lugar cada um foi para seu canto. Eu e a Juliana fomos para o apartamento dela, no quarto andar. Seu Artur e Dona Silvia tinham um apartamento no térreo. Os irmãos Jonas e Michel preferiram ficar sozinhos, no apartamento da família no segundo andar, na esperança dos pais conseguirem voltar. Paulo e Raul arrombaram um apartamento vazio no terceiro e montaram acampamento por ali mesmo.

Havia sido um dia desgastante e tínhamos de relaxar o que desse. Todos estávamos com as dispensas cheias, ainda tínhamos água encanada e luz. Estávamos completamente desorganizados, é verdade. Tudo era muito novo para todos. A experiência de passar por aquilo estava nos ensinando à passos lentos. Com toda a certeza os erros que cometeríamos nos dias e semanas seguintes seriam nossos verdadeiros professores. Em nossas cabeças nossas prioridades seriam alimento e esconderijo. Tendo isso, no momento, estávamos mais tranqüilos.

Cada um se alimentou como preferiu. Eu e a Juliana tentamos comer o mínimo possível para não desperdiçar. Sabíamos que gás seriam algo muito complicado para repor. Então optamos por usar o microondas enquanto ainda tínhamos energia elétrica.

Havia se passado um pouco mais de uma hora desde que cada um se recolheu em um apartamento quando a noite caiu definitivamente. Os postes foram se acendendo como se nada estivesse acontecendo no mundo. Víamos pela janela do quarto andar que muitas casas, perto ou longe, tinham suas luzes acesas e movimento. Havia muita gente escondida ainda. Ainda escutávamos, também, sons de motores de carros ao longe e muitos tiros e explosões que não conseguíamos distinguir de onde viriam. Mas pelo menos demonstravam que havia uma resistência. Mas também escutávamos gritos que eram silenciados de repente, o que nos trazia para a realidade.

Mais avançado na noite o Jonas apareceu correndo dizendo que alguns canais estavam passando notícias. Corremos para ver. Nem havíamos pensado em ligar a tv. Dois canais da tv aberta e um da tv fechado passavam informe sobre o que acontecia no Brasil e no Mundo.

Eles passaram um pequeno histórico dos acontecimentos. Disseram que no início da semana os casos começaram a surgir em São Paulo, Salvador, Rio de Janeiro e Brasília. O governo e o exército acharam que poderiam controlar a situação, o que realmente aconteceu até quarta-feira. Mas novos casos surgiram em muitas outras cidades – Porto Alegre foi uma delas. Quinta-feira o controle foi realmente perdido. Até aqui toda a informação estava sendo controlada com braço de ferro pelo poder público. Quando o exército declarou toque de recolher e começou a evacuar certas áreas o pânico foi instalado. Com o pânico os zumbis se proliferaram de forma incalculável. Pouquíssimas cidades e quartéis mais isolados ainda permaneciam intactos. Eles tentavam receber os refugiados como desse.

No mundo as coisas estavam ainda piores. Muitos países estavam incomunicáveis. O caos estava instaurado na Europa e nos Estados Unidos. Do Japão e da China, com suas enormes populações, vinham imagens surreais de multidões de zumbis avançando sobre as cidades como ondas de mortes. Nenhum lugar era seguro mais.

Depois dessas notícias eles tentaram dar algumas informações que poderiam ser úteis para nossa sobrevivência. Primeiro não havia consenso sobre o que eram e como haviam surgido esses zumbis. Uns diziam ser obra de experimentos militares, outros diziam ser resultado da mutação de algum tipo de vírus, e até como um ataque de extraterrestre eles foram acusados. Isso não importava. Eles já estavam aqui.

O noticiário informou que aqueles monstros eram relativamente lentos. Pelo menos em sua maioria. Informações desencontradas diziam que havia uns poucos que eram mais rápidos e ágeis. A transformação dava-se pela mordida do monstro, com a troca de fluidos que podei ser mesmo em um simples ferimento. A transformação dava-se, quando por ferimento, em algumas horas. Em caso de morte, por ataque de um desses monstros, a transformação acontecia em um ou dois minutos. Para mata-los apenas a destruição da caixa craniana mostrava-se eficiente e definitiva.

As notícias deveriam ser dadas à cada duas ou três horas, durante a maior parte do dia e início da noite, começando às oito horas da manhã até as dez horas da noite. Esse foi o último informe do noticiário. Depois disso o canal saiu do ar. Nas rádios o caso era um pouco diferente. A autonomia para funcionar lhes permitia um pouco mais de tempo no ar. E eles mantinham postos e repórteres espalhados por toda a Porto Alegre e por grande parte do estado. Mas as notícias não eram diferentes das que tinham sido ditas pela tv. Muita especulação, poucas certezas e apenas notícias de muita desgraça.

As rádios Gaúcha e Guaíba davam informes bem consistentes sobre Porto Alegre. Segundo eles tudo começou em três focos principais – no centro; na zona do Hospital de Clínicas, no bairro Bom Fim; e na zona sul, no bairro Serraria. Isso na quinta-feira pela manhã. O exército tento criar zonas de contenção isolando essas áreas. Nessa primeira ação muita gente sadia ficou presa e acabou sendo pega pelos zumbis, que só cresciam em quantidade. A zona sul foi fácil de isolar. Mas o centro e o bairro Bom Fim foi impossível. Criaram então, de um lado, um grande bloqueio pelo exército na região das proximidades do aeroporto Salgado Filho e das avenidas Assis Brasil e Baltazar. Do outro lado explodiram a maioria das pontes que passavam por cima do Arroio Dilúvio, arroio que divide Porto Alegre em dois. Mas quando anoiteceu na quinta já haviam pequenos focos espalhados por vários outros bairros. Nesta sexta-feira (hoje, nas minhas memórias) tudo foi piorando.

Aos poucos, durante as notícias, todos foram se reunindo no quarto andar, no nosso apartamento. Não tínhamos muito o que fazer sozinhos e reunidos, pelo menos, nos sentíamos mais vivos. Ninguém estava com muita vontade de dormir e a ansiedade pelas próximas notícias era quase insuportável.

Como não poderia deixar de ser tínhamos pelo menos duas cuias para tomar chimarrão. Era o tipo do costume que tentaríamos levar ao máximo. Esquentamos a água com fios elétricos. Eu já havia alertado todos para a necessidade de economizar o gás.

Ficamos sorvendo o mate sentados na sala num círculo tendo a tv e o rádio ligados à espera que qualquer sinal de vida. Não conseguíamos relaxar. Estávamos num novo mundo. Numa nova realidade. Com o tempo, ali reunidos, começamos a espairecer e relaxar. As notícias vieram mais tarde, mas sem novidades. Ficamos tomando chimarrão e beliscando alguns biscoitos até não agüentarmos mais o sono.

Cada um, em seu canto, dormiu e esperou acordar daquele pesadelo.

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