segunda-feira, 19 de abril de 2010

Zumbis em Porto Alegre 8

Zumbis em Porto Alegre

Anotação 8
Já é noite. Hoje tivemos de sair, mas não tivemos problemas maiores. A experiência tem nos ajudado cada vez mais. A necessidade de alguns remédios e gasolina, para o gerador, serviu de motivação para sairmos neste frio de quase inverno.

Mas vamos voltar à nossa narração.

A manhã daquele primeiro dia veio rápida. Acordamos logo com os primeiros raios de sol devido à um enorme estrondo. Havia sido uma explosão que acontecerá para os lados da avenida Ipiranga. De onde estávamos não conseguíamos ver nada. Eram sete horas da manhã.

Naquela manhã uma neblina densa dificultava a visão, como de costume para esta época do ano. Olhando para a rua víamos apenas vultos perambulando de cá para lá de forma lenta, subindo e descendo a rua. Eram aqueles zumbis infernais. Os sons de disparos de armas de fogo haviam cessado desde a noite anterior, para recomeçarem mais perto do meio dia.

Já com o corpo refeito do esgotamento daquele primeiro dia, nos reunimos e tentamos nos organizar. Decidimos manter nossas provisões separadas, já que todos estávamos com as despensas cheias. Concordamos em gastar o mínimo possível de gás e darmos preferência para o microondas enquanto tivéssemos energia elétrica. Usamos todos os recipientes que tínhamos para armazenar água. Em nossa visão, naqueles primeiros dias isso seria o bastante para nos mantermos vivos por um longo tempo.

Durante todo o dia ficamos nos revezando em frente da tv e do rádio à espera de notícias, mas não tivemos grandes novidades. Ficamos sempre de olho na frente do prédio, por medida de segurança. O Raul passou horas postado no telhado do prédio, trocando de lugar com o Paulo e com o Michel.

Os sobreviventes do condomínio ao lado estavam tento se organizar também, mas lá havia muita mais gente, o que dificultava um pouco. Cada um achava que poderia fazer o que desejasse e todos achavam que sabiam o que estavam fazendo. Ficamos trocando informações por sobre o muro. Nem parecia que estávamos naquele caos.

Volta e meia escutávamos tiros ou gritos vindos de lugares indefinidos. Cada som diferente atraia a atenção daquelas coisas, que passavam a se dirigir para a direção do som. Foi nossa primeira informação – o silêncio era necessário para nossa sobrevivência. Como éramos em poucos conseguimos delimitar essa primeira regra, se é que dá para chamar assim.

A noite veio e novamente nos vivos todos reunidos na sala de estar do apartamento da Juliana. Mais chimarrão e conversa solta em frente do rádio. À noite as notícias foram mais perturbadoras. Cada vez mais cidades ficavam sem contato. O exército era a única instituição que ainda permanecia mais ou menos organizada. Mas isso não significava que eles estavam intactos, muito menos no controle. Recebemos notícias de que a região sudeste havia sido fortemente atingida, bem como todo o litoral. Ao mesmo tempo diziam que alguma resistência bem organizada estava formada nas matas da Amazônia.

Olhando pela janela, na noite, percebemos que haviam menos luzes acesas. Isso era um mau indício. Todos estavam esperando uma ajuda que não sabíamos de onde viria e poucos estavam resistindo.

Na manhã seguinte fomos acordados com um forte tiroteio muito próximo. Os sons vinham da direção da PUC, algumas quadras em direção ao centro da capital. Paulo lembrou que quando eles estavam voltando, dois dias atrás, havia um grande grupo organizado de civis e de soldados do exercito fechando as entradas da universidade que davam para a avenida Bento Gonçalves. Os sons deveriam vir de lá. O combate durou cerca de duas horas. Depois mais nada. Apenas disparos esparsos. O silêncio era muito mais perturbador que o barulho de combate. Isso aconteceu por todo aquele dia. Volta e meia escutávamos disparos ou tiroteios até chegar a um silêncio desanimador.

Neste segundo dia de isolamento começamos a colocar a cabeça no lugar. Estávamos mais calmos, se é que isso era possível, e começamos a raciocinar quais seriam nossas prioridades. Elas eram claras e poucas: manter nosso esconderijo seguro e reservar ao máximo nossos recursos. Para isso começamos a reforçar todas as passagens possíveis do muro. Como os zumbis eram facilmente atraídos por sons e movimento tínhamos de ter esses pontos como norte.

Desta forma tapamos da melhor forma possível as grades dos portões, e qualquer outro vão que possibilitasse enxergarem movimento, com lonas. Como haviam poucos daqueles monstros por perto, naqueles dias, foi um trabalho fácil. Os moradores do condomínio ao nosso lado fizeram o mesmo, mas o grande número de moradores dificultava a organização deles. De qualquer forma todos conseguimos passar por esta etapa.

O segundo ponto que era manter ao máximo nossos recursos não seria problema num primeiro momento. Havíamos sido muito previdentes. Nossas provisões eram fartas. Tanto que resolvemos manter em segredo dos nossos vizinhos. E tudo correria muito bem enquanto a água e a eletricidade continuassem. Resolvemos juntar tudo. Não havia sentido manter tudo separado. Embora dormíssemos em apartamentos separados, de dois em dois, passávamos boa parte do tempo juntos, incluído na hora das refeições.

Improvisamos um depósito no quarto andar, no apartamento ao lado ao que eu e a Juliana usávamos para dormir. Quanto mais alto e inacessível melhor.

Na terceira noite, de novo reunidos no quarto andar, tivemos apenas um informe pela televisão e dois pelo rádio. Foram poucas notícias dadas por vozes desanimadas. O contato com regiões mais distantes era quase inexistente e as informações eram as piores – morte, morte e morte. Desta vez usamos apenas uma cuia de chimarrão deixando claro que estávamos entrando em nossa fase de prudência quanto ao consumo.

Fomos dormir com pouco assunto e muitos medos.

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