domingo, 9 de maio de 2010

Zumbis em Porto Alegre 9

Zumbis em Porto Alegre

Anotação 9
Nas lembranças que estou escrevendo não poderia deixar de fora a primeira vez que saímos de nosso refúgio. Foi uns quatro dias depois que nos refugiamos no edifício da Juliana. Foi um dia muito significativo também, pois marcou o verdadeiro início de nosso aprendizado sobre este novo mundo.

As coisas não estavam fáceis. O pessoal do condomínio ao nosso lado estava passando por maus bocados. Quanto mais gente junta menos chance de irem longe sem uma boa organização. E ali as coisas estavam longe de estarem organizadas. Um dia antes havia saído uma caravana de três carros para tentarem a sorte. A intenção deles era ir para o norte pelo interior do estado. Conforme havia menos notícias na televisão e no rádio, conforme escutávamos menos sons costumeiros, conforme ouvíamos menos tiros, mais as pessoas ficavam nervosas e ansiosas. De qualquer forma nos tentávamos nos manter juntos e calmos.

A idéia de sairmos foi do Paulo. Ele justificou que se íamos ficar ali por um tempo que não conseguíamos determinar teríamos de nos preparar. Logo as coisas iam começar a acabar em nossas dispensas e mais dia menos dia teríamos de nos aventurar por aí.

Assim, quanto mais conseguíssemos acumular de recursos melhor. Nossa escolha foi começar pelo edifício ao lado do nosso já que estava aparentemente abandonado. Iríamos em quatro – Eu, Paulo, Raul e Jonas – enquanto Michel e o Seu Artur ficariam de prontidão para ajudar no que fosse preciso. O plano era simples. Atravessaríamos o muro por duas escadas que colocaríamos em ambos os lados. O primeiro passo seria dar um jeito e fechar o portão da frente para não termos nenhuma surpresa de última hora. Em seguida iríamos verificar cada andar e levar tudo o que pudéssemos.

Queríamos fazer tudo sem chamar a atenção do outro condomínio. Quando as coisas ficassem pretas eu sabia que seria cada um por si. Então resolvemos fazer tudo com calma e em silêncio, sem fazer muito alarde sobre o que encontrássemos e iríamos estocando.

Depois de uma primeira olhada para o outro terreno, por cima do muro, começamos tudo. Passaram primeiro o Paulo e o Raul, cada um com seus fuzis. Atrás fui eu – com minha pistola - e o Jonas – com um 38, embora ele não soubesse usar ainda. O Michel ficou sobre a escada, pelo lado de dentro, de olho em tudo. Fomos no máximo silêncio possível.

No que fomos chegando ao chão do outro lado fomos tomando posição. Parecia um filme de ação para nós e acho que fomos levando assim até termos verdadeiros problemas. Não tínhamos ainda passado por nenhum grande problema, fora aquele primeiro dia, no portão. Então era normal, quem sabe até uma forma de escape da realidade, que fossemos levando nossa vida como um filme de ação. De qualquer forma fomos colocando nosso plano em andamento.

O muro ladeava um caminho de cerca de sessenta metros para circulação das pessoas e carros do prédio e, paralelo à este caminho, estava o prédio. A porta de entrada no prédio estava bem à frente de onde estávamos descendo. Raul e Paulo ficaram cada um de um lado da escada controlando o perímetro. A maior preocupação era o portão da frente que estava escancarado desde que os moradores fugiram.

De onde estávamos não víamos nenhum zumbi na rua. Desde o dia anterior que não haviam sinal de muitos monstros por ali. Tínhamos pressa, de qualquer forma, em fechar a frente para podermos circular com mais tranquilidade. O Jonas desceu logo depois de mim e ficou ao lado do Raul controlando os fundos e a porta do prédio. O Paulo avançou para a frente do prédio, com seu fuzil, e eu fui seguindo ao seu lado.

Eu conhecia o mecanismo de fechamento e abertura do portão. Ficava em um quadro elétrico na parede da casinha da vigia, na frente. Mas para chegar lá tínhamos de nos aproximar muito do portão escancarado. Teríamos de nos arriscar.

Conforme chegamos próximo do portão fomos vendo alguns zumbis parados no meio da rua e por entre os carros abandonados. Eles estavam parados como estátuas bizarras. Com o tempo aprendemos que eles permaneciam num estado de torpor até que algum som os tirasse daquela espécie de transe. Os sons agiam de forma muito mais efetiva para chamar a atenção dos zumbis do que o movimento quando eles estavam nesse estado.

Mas naqueles dias iniciais ainda não conhecíamos essas peculiaridades. Gastamos muito tempo nos esgueirando até a casa da vigia para não ter perigo de sermos vistos pelos monstros. Depois que estávamos dentro da casa foi fácil acionar o mecanismo – por sorte ainda tínhamos energia elétrica naquela parte da cidade – e fechamos o portão. Ele não produziu um ruído maior que um simples zunido e continuamos incógnitos aos monstros. A primeira parte do plano estava terminada. Agora vinha o mais complicado.

Nos juntamos com Michel e com o Raul e prontamente nos preocupamos com a entrada do prédio. Fomos entrando com cuidado e com as armas prontas. Entramos eu e o Raul primeiro olhando para ambos os lados do corredor após a porta. Mais atrás estavam os outros de olho em nós. Fomos entrando aos poucos e logo estávamos todos no corredor do térreo.

O silêncio nos perturbava. Mas também significava que estávamos sozinhos. Demos mais um passo e nada. Mais um e depois outro. Tudo estava calmo ainda e era óbvio que estávamos felizes pela facilidade, mas um pequeno ruído chamou nossa atenção. Ficamos paralizados. Era um ruído baixo e abafado. Não conseguíamos identificar de onde vinha. Olhávamos para o corredor, para as portas, para escada e parecia que o som não vinha de nenhum deles.

E não vinha mesmo. Quando o som ficou identificável percebemos que ele vinha incrivelmente de trás de nós. Nos viramos num salto e lá estava o monstro, a dois ou três metros de nós, fechando nossa passagem. Ele vinha arrastando o que já fora uma perna. Continuávamos paralisados até o momento em que ele esticou os braços para nos agarrar. Esta foi a deixa para Raul mostrar que não estava para brincadeira. Foi um disparo certeiro bem na testa da coisa. Um tiro de fuzil fez um belo estrago arrancando toda a parte traseira do crânio. A coisa veio ao chão inerte.

Esse susto nos ensinou a primeira regra de novo mundo – o menor descuido será e é fatal. Quando chegamos ao terreno não nos preocupamos em verificar os fundos do prédio. Depois, após fecharmos o portão da frente, não nos preocupamos me manter o silêncio e muito provavelmente nossas vozes chamaram a atenção do monstro. O Michel, que estava na escada deve ter se distraído por achar que estava fácil demais. Foram erros infantis que poderiam ter custado a vida de qualquer um de nós. Não fosse aquela perna ruim do zumbi e ele poderia ter nos agarrado e nem teríamos percebido.

Tudo isso passou por nossas cabeças enquanto olhávamos o corpo do zumbi no chão. A alegria acabara. O resto da nossa investigação foi realizada de forma muito mais tensa e cuidadosa e o silêncio foi absoluto. Felizmente não havia mais nenhum monstro. Foi um aprendizado que graças à Deus não custo mais do que um belo susto.

Olhamos o prédio de cima à baixo e pegamos tudo o que fosse útil. Tivemos a sorte de encontrar muitas pilhas, lanternas, ferramentas, um facão, galões de água e muita comida. O que era enlatado foi guardado, e o resto comemos logo nos primeiros dias. Conseguimos também duas baterias de carro nos veículos que estavam parados na garagem. Seu Artur tinha um bom conhecimento de eletrônica e disse que poderia montar algo útil se houvesse necessidade.

Tivemos assunto mais que suficiente para o nosso costumeiro encontro noturno tomando chimarrão. No final das contas o mais importante de tudo aquilo foi o primeiro aprendizado que tivemos na prática. Foi a primeira noção de que nossas vidas nunca mais seriam tranqüilas. E a noção que aquilo não era um filme, mas a pura e crua realidade.

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