sábado, 5 de junho de 2010

Zumbis em Porto Alegre 10

Zumbis em Porto Alegre

Anotação 10
Faz algum tempo que não escrevo nada neste meu caderno de memórias. Mas a proximidade do inverno, desse mês de junho, nos deixa mais intimistas à medida que os dias vão ficando mais curtos e frios. Somos jogados numa falta de vontade de tudo. Somos acometidos pela natural falta de esperança. Mas a Juliana tem insistido em que eu continue escrevendo. Segundo ela essas memórias estão fazendo muito bem para mim. Então vou continuar.

Se bem me lembro as últimas anotações foram sobre nossa primeira incursão fora do limite de nosso refúgio. Pois bem, as coisas estavam, de certa forma, tranqüilas para nós. Mas isso era uma sorte acho que única no mundo, no novo mundo em que estávamos vivendo.

Nossos vizinhos, quando fechou acho que pouco mais de uma semana, começaram a dar sinais de desgaste psicológico. As brigas começaram a ser mais freqüentes. Devido à desorganização ou ao número de refugiados ali, não sei, mas eles começaram a perder as rédeas da situação.

Nos limitávamos a assistir, meio escondido, às discussões que estavam assolando eles. Seu Artur, que os conhecia à mais tempo, se aventurava em conversas e conselhos por cima do muro, mas que pouco davam resultado. O desgaste era tão grande que qualquer coisa virava um motivo para brigas que iam às vias de fato. Muitos deles queriam arriscar a sorte tentando fugir para algum lugar isolado. Outros queriam ficar escondidos ali até chegar alguma ajuda.

Eles não entendia que não havia resposta certa para essa questão.

Mas eles se esqueciam, ou quem sabe nem sabiam disso, mas o som atraia aquelas coisas muito mais do que a visão deles, e aquelas discussões, entre outras coisas, estavam trazendo um grande número deles para a frente do condomínio. E para a nossa frente também, por conseqüência.

Isso era péssimo. Todo o nosso cuidado e organização estavam sendo arruinados por aqueles loucos aqui do lado. Durante aqueles dois dias mais tensos praticamente não conseguíamos dormir e aumentamos as barricadas e vigias.

Então o inevitável aconteceu.

Na manhã do décimo dia, ainda na madrugada, escutamos uma grande discussão. De pronto eu fui até a janela do quarto, que dava para o pátio do condomínio vizinho. A Ju ainda estava na cama e nem pretendia sair de lá tão cedo. Mas foi muita sorte eu ter ido até ali.

A confusão era geral ali do lado. Nossos vizinhos estavam divididos em dois grupos. Um querendo sair e outro tentando impedir a saída. Os que desejavam sair estavam com carros prontos e abarrotados. Eram uns dez carros pelo menos. Os outros tentavam barrar a passagem impedindo que eles chegassem até a guarita da segurança, onde ficavam os dispositivos que acionavam a abertura do portão.

Já havia uma meia dúzia de pessoas brigando. Quanto mais sons essa discussões e brigas geravam, mais zumbis vinham para a direção do portão do condomínio. Parecia que os sons os deixavam em êxtase. Eles se jogavam contra o portão na tentativa de entrar. Cada vez mais se aglomeravam e se empurravam de encontro ao portão. Os braços esticados pelas grades, rasgando a lona que havia sido posta ali para impedir a visão das criaturas do interior do condomínio.

Percebi na hora que aquilo não ia acabar bem. Me vesti rápido e sai gritando por todos. Eu tinha muito receio que aquilo acabasse por nos atingir de alguma forma. Logo estávamos todos no pátio com nossas armas nas mãos.

Enquanto íamos decidindo o que fazer o som da discussão só aumentava até que o primeiro disparo foi dado. Era tudo o que não queríamos. Corremos para pegar as escadas e tentar solucionar aquilo, quando o Michel, que assistia a tudo da janela do segundo andar gritou – “eles estão abrindo o portão!”

Ao escutar isso eu pensei que os zumbis estavam invadindo, mas quando subimos nas escadas percebemos que eles mesmos estavam abrindo os portões para saírem com os carros. Eles estavam tão fora de si que não perceberam o perigo real. Nós ainda tentamos gritar para que não fizessem aquilo, mas era tarde. Tão logo o portão começou a abrir os primeiros zumbis invadiram o pátio do condomínio numa onda que não parava mais.

Aqueles que estavam nos carros avançaram atropelando seus próprios companheiros achando que conseguiriam sair dali, mas logo perceberam que era inútil. Os carros ficaram presos naquela massa de pessoas e zumbis e não saíram do lugar mais. Era tudo o que os zumbis queriam.

Foi uma matança sem tamanho. Ainda hoje me lembro com clareza de cada detalhe do que vi. Aqueles que tinham algum tipo de arma descarregaram toda sua munição em vão.

Nós ainda tentamos ajudar de alguma forma. O Paulo e o Raul, mais treinados, iam disparando na tentativa de auxiliar aqueles que estavam mais próximos dos prédios para que tivessem tempo de entrar e se refugiar. Mas era quase inútil.

Eu, a Ju, o seu Atur e o Jonas conseguimos resgatar apenas duas pessoas. Uma menina de uns onze anos chamada Ana que nos foi alcançada pelo próprio pai antes dele ser pego pelos monstros e a Bety que conseguiu pular de cima de um carro para os braços do seu Artur.

Não sei ao certo quanto perderam sua vida ali. Foi uma chacina. Nos prédios acho que não mais do que meia dúzia conseguiu se refugiar, mas eles não sobreviveriam mais do que outra semana, ou por fome, ou por desespero.

Essa foi a segunda lição que aprendemos: o desespero leva inevitavelmente à morte.

Cerca de duas horas depois tudo estava em silêncio novamente. O pátio, ao lado de nosso esconderijo, estava agora abarrotado de criaturas. Elas estavam paradas como num estado de torpor. Posso garantir que não tivemos noites tranqüilas de sono por algum tempo. Pelo menos até solucionarmos aquele problema.

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