quarta-feira, 7 de julho de 2010

Zumbis em Porto Alegre 12

Zumbis em Porto Alegre

Anotação 12
Vou continuar contando a invasão do condomínio ao nosso lado. Acho que o que nos manteve vivos foi a nossa condição de nos adaptarmos aos problemas rapidamente. Não sei por que, não sei como. Mas nos adaptamos para não morrermos. Nos adaptamos para nos mantermos juntos. Para não perder a sanidade.

Com todos à postos o Michel acionou o controle remoto do cd player e começou a fazer barulho, para tentar chamar a atenção das criaturas. Lá da janela do apartamento da Juliana ela ia controlando a movimentação. Logo depois de alguns segundos os zumbis começaram a se movimentar, uns mais lentos, outros mais rápidos.

Era certo que o som atraia a atenção deles muito mais que o movimento, mas mesmo assim, num dia ensolarado como aquele seria pedir muito que eles não nos enxergassem se passássemos mesmo que em absoluto silêncio.

Com o som da música que vinha do outro portão logo as coisas estavam se aglomerando par sair pelo do pátio do condomínio ao nosso lado. Não tínhamos a noção exata de quantos eram, mais saiu muito zumbi dali. De cada canto saia um, pelas portas dos prédios, de dentro dos carros, de todo lugar.

Conforme o pátio foi ficando vazio íamos nos aprontando. Queríamos o lugar vazio, mas não desejávamos chamar a atenção de muito mais do que já havia ali. Na frente do outro portão a Juliana nos fazia sinal de que deveria haver mais de cinqüenta criaturas e mais vinham vindo de um pouco mais longe. Tinha de ser naquela hora. Já haviam passado cerca de cinco minutos.

Segundo ela haviam, no pátio, ainda cerca de cinco ou seis criaturas. Era o suficiente para nos dar sinal verde. Teríamos de ser rápidos e precisos. Entrar e limpar a área ao mesmo tempo em que fechávamos o portão.

Subiram Paulo e o Raul e deram uma espiada. Da janela a Juliana já havia indicado de onde vinha os zumbis atrasados, então os dois já tinham uma noção de para onde olhar. Nós deixaríamos os mais próximos passarem pelas escadas e desceríamos às suas costas tentando acabar com eles no máximo de silêncio possível, para então fechar o portão e acabar com o resto.

Pena que tudo funciona perfeitamente bem na teoria.

Quando três daquelas coisas mais próximas passaram, Seu Artur e o Paulo passaram duas escadas para o outro lado, para facilitar se tivéssemos de voltar ás pressas. A escada do Seu Artur ficava entre as outras duas, do nosso lado do pátio, para ele poder firmá-las nos deixando livres para atirar ou fugir. Paulo e Raul passaram com suas armas fazendo mira, um para o interior do condomínio, onde ao longe ainda vinham três monstros, o outro mirando nas criaturas que haviam passado e se dirigiam para o portão. Logo atrás desceram eu e o Jonas, também armados, mas também trazendo duas barras de ferro para o serviço silencioso.

O Paulo iria para a casa da segurança, na frente do condomínio para acionar o fechamento do portão, enquanto eu e Jonas daríamos cobertura para seus movimentos. O Raul ficaria perto da escada pronto para atirar no último momento naqueles três que vinham vindo dos fundos do condomínio.

Até havia sido tudo muito fácil e rápido. Paulo foi se esgueirando por entre os carros abandonados que estavam entre nosso ponto de descida e a casa da segurança. Eu e o Jonas íamos acompanhando logo atrás. O cheio da putrefação dos corpos que haviam sido destroçados antes de virarem zumbis enjoava meu estômago, mas não tínhamos outra solução.

Paulo chegou rapidamente à casamata e nos fez sinal, que nós repassamos ao Raul. No que o portão fechasse ele poderia dar cabo das três criaturas que vinham se arrastando. Um tiro fora de hora e chamaríamos todos de volta. Eu e o Jonas estávamos à postos com nossas barras de ferro prontas para darmos cabo daqueles três que estavam saindo. Não tirávamos os olhos do Paulo.

Paulo olhou para nós e fez um sinal de positivo. No mesmo instante eu e Jonas arrebentamos a cabeça dos dois zumbis mais próximos de nós. Eles nem viram o que os atacou. Ao mesmo tempo Raul deu dois disparos e depois mais um, terminando com as criaturas que estavam se aproximando dele.

Foi nesse momento que notamos o silêncio. O mecanismo do portão não se moveu nem um milímetro. Lá dentro Paulo estava com uma cara de pavor. Eu corri para a casamata enquanto Jonas terminava com o terceiro zumbi à nossa frente. Logo que cheguei o encontrei deitado no chão mexendo na fiação abaixo da bancada. Deveria ser algum mal contato pois de vez em quando o portão dava sinais de movimento para logo em seguida ficar novamente parado.

Instintivamente sai e olhei para Juliana. Ela corria de um lado para o outro do apartamento procurando nas janelas a movimentação das criaturas na rua. Quando olhei para cima ela gritou – “a criaturas estão voltando... o tiro deve ter atraído elas!”

“- Rápido Paulo, rápido!” – gritei para ele na porta da casamata – “pessoal... eles estão vindo vamos cuidar a frente!” – gritei para os outros. Jonas e Raul correram para os carros que estavam estacionados e começaram a fazer mira se preparando para a chegada dos zumbis.

O portão ia fechando aos poucos. Já estava na metade do caminho quando os primeiros zumbis chegaram á sua frente. Eram dois homens e uma mulher. Logo atrás vinha mais uma dúzia pelo menos. O portão ia baixando aos trancos. Os três primeiros passaram pelo portão baixo. Raul disparou uma vez e derrubou um deles. Jonas precisou de três tiros do revolver para derrubar outro. De onde eu estava precisei de dois tiros para derrubar o terceiro.

Finalmente o portão fechou. De dentro da casamata o Paulo saiu com uma cara de esgotado pela tensão. Mas não estávamos seguros ainda. O Seu Artur nos tirou daquela falsa impressão de segurança.

“- Olhem para trás” – ele gritou.

Eram pelo menos uns vinte ou trinta zumbis que vinham saído de dentro dos prédios próximos. A música não os havia atraído, mas o tiro sim. O maior problema é que eles estavam mais rápidos que os anteriores e logo estavam entre nós e as escadas. Não tínhamos como sair dali mais. E pior, não teríamos munição suficiente para tantos já que nossa melhor qualidade não era a mira. Em última análise estávamos cercados.

Nos colocamos atrás dos carros e começamos a atirar. O Paulo e o Raul, com mais experiência tiravam o melhor proveito de cada disparo. Eu não ia tão bem, mas dava para o gasto. Mas o Jonas, pelo nervosismo e pela inexperiência, perdia muito mais do que acertava. O Michel estava empuleirado numa escada tentando ajudar com seu revolver, mas ele tinha ainda menos experiência que o Jonas.

Tínhamos de pensar em algo. E rápido. Neste momento o Raul gritou pedindo cobertura e correu para a frente, na direção das criaturas. Fomos correndo atrás dele, eu e o Jonas. O Paulo ficou onde estava, pois de lá tinha uma ótima visão para atirar nas criaturas com seu rifle.

Eu já tinha guardado a pistola e pego de volta a barra de ferro. Essas criaturas eram lentas, pelo menos aquelas daquele dia eram, coisa que descobrimos não ser uma regra no futuro. O Jonas também era muito melhor com a barra do que com a arma, e derrubou vários, economizando balas. Ao fundo apareciam ainda mais alguns zumbis ainda saindo dos prédios. Eram mais uns dez.

Depois daquela corria o Raul entrou no último carro parado e ligou o motor. Ele acelerou com força ainda parado, forçando o motor. De repente soltou o frio e avanço, de ré, direto sobre um amontoado daqueles monstros. Ele foi derrubando e esmagando um sem número deles, abrindo uma verdadeira avenida por entre os zumbis. Mais da metade foi derrubada ou morta naquilo.

Aquilo foi a deixa para terminarmos o serviço. Corri acertando a cabeça de cada criatura que estava no chão. Aquilo era ideal para economizar munição. O Michel pulou de cima do muro e se juntou à nó quase matando Seu Artur do coração que aos berros gritava – “cuidado guri!”. As coisas haviam mudado agora. Estávamos em vantagem e cuidamos para acabar com aquilo rapidinho. O Raul ainda veio e voltou com o carro mais umas três vezes para terminar de esmagar os últimos sobreviventes daquilo.

Foram alguns minutos de inferno que pareceram horas. Depois daquilo estávamos exaustos. Como não esperávamos, novamente, imprevistos, quase pagamos com a vida. Tivemos foi muita sorte.

O chão estava forrado de pedaços de carne e sangue. Esse era o início de nossa segunda incursão fora do nosso refúgio.

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