domingo, 25 de julho de 2010

Zumbis em Porto Alegre 13

Zumbis em Porto Alegre

Anotação 13

Depois de uma semana resolvi escrever um pouco. Muitas vezes a depressão toma conta de nós, ainda mais no inverno, frio e escuro. Mas escrever se mostra uma terapia interessante. De qualquer forma não poderia deixar de completar essa etapa de aprendizagem neste inferno. Não sei quem lerá isso um dia, mas qualquer informação pode ser a diferença entre a vida e a morte.

Depois daqueles instantes de terror, entre invadirmos o terreno do condomínio vizinho, fechando o portão, até terminarmos de matar os últimos zumbis, não passaram mais do que alguns minutos. Mas foi o suficiente para nos obrigar à uma parada para recobrar as forças. Era verão e o calor estava infernal. Nos sentamos, onde dava, enquanto Seu Arthur nos passava algumas garrafinhas de água. Enquanto um ficava de olho, os outros matavam a sede.

Depois de alguns minutos decidimos começar a vasculhar o lugar. A Juliana nos gritava, lá de cima de nosso prédio, como as coisas estavam. Parece que depois daqueles momentos iniciais, com a retomada do silêncio, os monstros se acalmaram. O importante naquele novo mundo era nunca baixar a guarda nem perder tempo desnecessariamente.

Para vocês terem uma idéia vou rabiscar aqui mais ou menos como as coisas aconteceram.


Depois disso tínhamos pelo menos sete prédios para vasculhar, recolher tudo o que fosse aproveitável e matar qualquer coisas que não respirasse mais.

Não seria um trabalho complicado. Até por que não tivemos quase nenhuma ameaça. E acho que isso é que foi nosso maior problema. Nosso maior adversário foi aquele que já estava se avistando desde nossa primeira investida fora do refúgio.

Para investigarmos tudo fizemos dois grupos, para ser mais rápido. Num deles estavam eu, Raul e Michel. No outro estava Jonas, Seu Artur e Paulo. A mulherada ficou no apoio.

O plano era entrarmos juntos no mesmo prédio. Lá dentro cada grupo ia para um lado do corredor. Os prédio eram compostos por uma escada central que dividia um corredor com quatro apartamentos de cada lado. Assim esperávamos não ser pegos pelas costas.

Passamos pelos quatro primeiros prédios sem problemas. Arrecadamos muita coisa mesmo. Foram sacolas de enlatados, pilhas, bebidas e tudo o mais. Ainda conseguimos mais dois revolveres, uma doze e uma espingarda de baixo calibre. Arrecadamos, antes disso, pelo menos dez baterias dos carros estacionados pelo pátio. E olha que tínhamos olhado pelo menos metade dos prédios.

Essa calma, como da primeira vez, foi o grande problema. Iamos nos sentindo cada vez mais seguros, mais tranqüilos. Era aporta aberta para um erro fatal. Que acabou acontecendo.

Quando entramos no quinto prédio nos dividimos para cada lado do corredor como havíamos feito até aquele momento. Eu e o Raul conversávamos animadamente enquanto o Michel ia arrecadando o que havia no primeiro apartamento do térreo. No mesmo corredor Jonas, Seu Artur e Paulo tentavam ganhar tempo indo cada um para um apartamento e verificando tudo mais rápido. Isso era muita displicência, de todos nós. Arriscamos e pagamos o preço mais alto.

No apartamento em que Seu Artur entrou ele arrombou a porta foi diretamente para a cozinha e começou a colocar tudo o que achava de comida numa mochila surrada. Acho que ele nem viu quando foi pego pelas costas por um zumbi que deveria estar preso no apartamento. Ele achou que pela porta estar trancada, que ali não havia ninguém. Errou feio. Quando ouvimos os gritos não entendíamos. Era como se não estivéssemos vivendo um inferno. Levamos alguns instantes para entender o que estava acontecendo.

Quando encontramos a fonte dos pedidos de socorro encontramos o zumbi agarrado ao Seu Artur, com os dentes cravados no seu pescoço. Ela já deveria ter levado uma ou duas dentadas, pois havia muito sangue jorrando da carótida dele. O infeliz estava de joelhos com o corpo tremendo.

Ficamos atônitos e sem ação. Todos espremidos na porta. Raul teve mais presença de espírito e pegou o revolver que estava na minha mão e acertou a nuca do zumbi que nem percebera que estávamos ali. Foi um estampido surdo e curto. A coisa caiu sobre o corpo de Seu Artur e escorregou para o chão.

Seu Artur estava com seu corpo apoiado na mesa e com o sangue jorrando fortemente. Era uma cascata rubra que não tinha mais fim. Michel e Jonas começaram a chorar compulsivamente. Um deles ameaçou ajudar Seu Artur, mas foi impedido pelo Paulo.

“- Tu está louco?! Não temos mais o que fazer... Ele já era!” – gritou o Paulo.

Todos sabíamos disso, mas não queríamos aceitar uma perda. Até aquele dia tínhamos criado a falsa ilusão de que iríamos sobreviver sem problemas. Que éramos capazes de atravessar aquele inferno como nos filmes, como nos quadrinhos. Aceitar aquilo seria prova de que era apenas uma questão de tempo até estarmos todos mortos ou pior... transformados.

Raul levou os dois guris para fora enquanto eu e o Paulo ficamos lá para terminar o serviço. Ele apontou a arma para a nuca de Seu Artur. Sabíamos que seria uma questão de instantes até a transformação acontecer. Quando o corpo do Seu Artur ameaçou começar a se mover novamente, Paulo deu outro disparo à queima roupa. Era nossa primeira perda real. Por mais que lutássemos o escore seria sempre favorável aos monstros.

Passamos uns minutos parados olhando aquela cena. O Raul voltou trazendo uma garrafa de vodka que ele achou na sala daquele apartamento.

“- Precisamos disso... eu pelo menos preciso muito disso!” – ele disse pegando uns copos do armário. Ele serviu os copos e nos passou.

Naquele momento escutamos o grito de Dona Silvia, com a notícia que os guris levaram para ela. Ela não sobreviveria muito mais tempo sem seu marido. Era a única coisa que lhe sustentava viva.

Esvaziamos nossos copos e voltamos para nosso refúgio. Aquele dia já havia terminado para nós e aquela bebida seria útil para os outros também.

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