segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Zumbis em Porto Alegre 15

Zumbis em Porto Alegre

Anotação 15
Cada dia que passava a realidade nos era jogada na cara de forma crua e fria. Primeiro foi a morte de um de nossos companheiros. A primeira morte. Depois as falhas da energia elétrica. O terceiro caso foram as notícias, cada vez piores, ou a não vinda delas.

Quando fechamos quinze dias as notícias quase que se tornaram inexistentes. O que no início vinha mais de uma vez por dia, começou a escassear. Naquela manhã a televisão entrou no ar por cerca de meia hora. Passávamos o máximo de tempo com ela ligada para não perdermos a oportunidade de recebermos novidades. Aquele boletim foi perturbador. Já haviam se passado três dias desde o último informe. A falta de informação deixava a mente de todos viajando numa semi alucinação.

Naquele dia as notícias finalmente nos deixaram sem esperanças. Segundo um boletim lançado diretamente de São Paulo, de dentro de campo de refugiados que estava num quartel, os jornalistas deram informes duramente realistas. As informações davam conta que na maioria das capitais, haviam sido criados campos de refugiados para normalmente isolados dentro de quartéis, mas com um número extremamente pequeno de sobreviventes. Sabiam também que haviam outros tantos grupo espalhados pelas cidades sobrevivendo como conseguiam. Mas as mortes não paravam de crescer, mesmo dentro desses campos. A única diferença é que ali elas eram apenas mais controladas. Não havia mais ordem instituída em nenhum país, pelo menos não que eles soubessem.

Da maioria dos lugares do exterior, e mesmo do Brasil, as únicas informações que tinham vinham de radioamadores, pois os meios de comunicação já não funcionavam pela falta de gente ou energia. Segundo eles o governo brasileiro estava incomunicável. Brasília estava sem comunicação fazia dois dias e até aquele momento as coisas iam muito mal por lá. Diziam também que no nordeste as coisas eram ainda piores. Quanto maior ou mais populosa a cidade pior as condições de sobrevivência. São Paulo, pelo tamanho e quantidade de população era o lugar com mais sobreviventes, mas proporcionalmente, com maior número de monstros.

Não haviam mais planos de evacuação, resgate ou o quer que fosse. Esperavam que no máximo conseguissem se reunir em pontos estratégicos para depois decidirem o que fazer. Em outras palavras, eles não tinham a menor idéia do que fazer.

As únicas recomendações que deram era estocar comida, água, combustível e qualquer coisa que pudesse ser útil; reunir o máximo de pessoas juntas em lugares seguros; e rezar.

Era realmente o fim do mundo.

Não preciso dizer que isso não foi nada animador para nós. Aquele fiapo de esperança de que alguma ajuda chegaria para milagrosamente nos resgatar esvaiu-se de vez. Éramos apenas nós. Mas com tudo isso começamos a ter que pensar o que fazer à longo prazo, não poderíamos e não queríamos ser pegos de surpresa.

Naqueles últimos dias Ana, a menininha que escapou junto de Bety, do condomínio ao lado, não parava de chorar. Parece que finalmente havia se dado conta do que estávamos vivendo. Na cabeça dela, depois da perda do pai, ela estava ainda mais abandonada do que nós nos sentíamos. Quando não estava chorando era porque havia adormecido pelo cansaço de tanto chorar.

Dona Silvia também não estava nada bem, desde a morte de seu marido. Ela ficava sempre ao lado da Ana, acho que mais para poder chorar sem ter de se explicar ou sem ter de aturar alguém a consolando. Infelizmente ela não duraria muito tempo.

O resto de nós tentou manter a cabeça no lugar para manter a falsa esperança. Passamos horas discutindo e criando alternativas para sobrevivermos. Pelo menos as péssimas notícias nos deram algo de positivo. Começamos a pensar o que fazer à longo prazo. Por sorte tínhamos provisões para muito tempo, uns dois meses, quem sabe quatro racionando bem. Combustível estava guardado, já que não tínhamos para onde ir e não gastávamos o que tínhamos. Energia também não seria problema quando terminasse. O Raul conseguiria, e conseguiu, manter o básico com as baterias de carro e três transformadores velhos que havíamos arrecadado de tudo o que era lugar. Então nossos problemas se resumiam em água, remédios e munição. Mas mesmo assim, nada de imediato.

É impressionante como a cabeça das pessoas funcionam em certas horas. Por mais de uma vez nos pegamos usando cenas de filmes como base para o que precisávamos fazer. Depois voltávamos à realidade e riamos como loucos. Mas aquelas coisas imaginárias, próprias de filmes de ficção acabavam não sendo tão absurdo assim, pelo menos na nossa situação. Assim passávamos o tempo.

Depois de todo aquele dia e das notícias é que fui me dar conta no meio da noite, num pulo que acabou por acordar a Juliana, que eu tinha trazido da minha casa um aparelho de radioamadorismo.

5 comentários:

o Clérigo disse...

Gostei da história e espero a continuação. É fácil pensar em zumbis lá nos States, mas falar sobre eles aqui em terras tupiniquins me parece novidade. Parabéns.

Ah, eu adicionei seu blog ao meu blogroll. Se puder me adiciona por aqui

http://oclerigo.blogspot.com/

Baltazar, Mago Aventureiro disse...

QUe que isso Jon...ta de sacanagem...posta logo o livro todo....ta muito bom esse troço, mas a espera ta me matando....huahuauhuhahahhua.....quero a continuação!

Lukas = Yamakusa = disse...

Pô cara, to gostando mto da história, mto bom mesmo^^
Dpois faz um livro e coloca ai pra gente, com a história toda junta.
O ruim é so ter q esperar.

João Brasil disse...

VAleu pelos elogios pessoal!!! Vou tentar postar com maior frequência!!!

Agregarei o botão do "O Clérigo" ainda hoje!!!

Lukas = Yamakusa = disse...

Estou começando a sofrer de crise de abstinência =D