quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Zumbis em Porto Alegre 16

Zumbis em Porto Alegre

Anotação 16
Vou continuar exatamente de onde parei dias atrás.

No outro dia, logo que acordei saltei da cama e corri para o apartamento ao lado, que fazia as vias de depósito. Levei algum tempo até encontrar o aparelho de radioamadorismo que havia trazido sem nem ao menos saber para que. Não minto... foi totalmente sem querer, foi de impulso mesmo. Demorei um pouco até o encontrar num canto, embaixo de outras caixas.

Arrecadei o aparelho e corri para a cozinha onde a Juliana já estava começando a preparar o café com a ajuda da Bety. A Bety estar conosco foi importantíssimo, principalmente para a Juliana, pois não fosse por isso tenho certeza que a Ju teria enlouquecido, mas isso é um capítulo à parte.

Fui tentando arrumar o aparelho para ver se conseguia captar algo. Ele era muito velho, um presente de meu avô que eu sempre guardei mais como relíquia do que para verdadeiramente usar. Até fiz um curso rápido, quando adolescente à pedido dele, mas nunca o usei realmente. Agora lamentava aquela indiferença.

Menos de meia hora depois já estavam todos na sala para tomarmos café. Café era modo de dizer, pois com a economia que estávamos fazendo ele não era mais do que uma água escura. Pão, ao contrário, era uma coisa que tínhamos sem problema principalmente devido ao excesso de farinha que encontramos nos apartamentos que verificamos. E como a validade dos farináceos é curta o melhor que tínhamos para fazer era aproveitar ao máximo.

De qualquer forma íamos comendo e cada um dava um palpite sobre o aparelho de comunicação. O Raul e o Paulo não tinham grande conhecimento sobre ele e o máximo que me ajudaram foi em como ligá-lo numa bateria sem estragar nada.

Depois de quase uma hora comecei a me lembrar de alguma coisa até que consegui colocá-lo em funcionamento. Houve um momento de suspense enquanto tentava sintonizá-lo em alguma coisa, mas em todas as frequências tínhamos apenas estática. Logo todos perderam o interesse por ele e só fiquei eu e a Aninha tentando.

Era óbvio que seria como achar uma agulha no palheiro. O Raul havia dito que qualquer que tivesse um rádio desses iria entrar apenas algumas horas por dia para economizar energia, se é que ainda tinham. Seria muita sorte acharmos alguém. Mas como o que nos sobrava naqueles dias era tempo e energia, com a boa quantidade de baterias que havíamos arrecadado, eu resolvi perder o tempo que fosse necessário, até achar alguma coisa.

Eu ia repetindo a mesma frase em cada freqüência que acessava – “Aqui é PY3AIN, com um grupo de sobreviventes em Porto Alegre, Brasil, tentando contato. Alguém na escuta?”. Isso permaneceu até o almoço. Quando resolvi parar para comer algo a Ana pediu para ficar tentando. Eu resolvi deixar mais para que ela tivesse algo para se distrair. Enquanto isso eu iria descansar e comer algo.

Como de costume ficamos ao redor da mesa tentando manter uma conversa que pelo menos mantivesse o teatro de uma vida normal. Não sei quem está lendo essas páginas, então não sei em que situação você se encontra, mas onde e como estávamos, essas pequenas coisas aparentemente sem importância, eram cruciais para que não pirássemos.

Entre uma piada e outra do Raul mal percebemos quando a estática mudou para uma suave música. Parecia algo tão normal que nem nos demos conta. A Aninha veio até a mesa e perguntou para mim – “Posso escutar música o teu rádio?” – e eu disse que não teria problema. Continuamos a conversa animadamente quando todos paramos e nos olhamos com cara de espanto.

Eu corri para a mesa onde a Ana estava com a cabeça apoiado no braço escutando a música.

“- O que tu fez?”

“- Fiquei com o botão para lá e para cá até que achei a música!” - ela disse – “gostou??”

Sentei na cadeira e repeti a chamada mais uma vez - “Aqui é PY3AIN, com um grupo de sobreviventes em Porto Alegre, Brasil, tentando contato. Alguém na escuta?”. A música continuou mais alguns instantes e então parou. Eu estava estático na cadeira. Atrás de mim todos pareciam estátuas. Acho que nós nem respirávamos. Contamos cada segundo.

“- Aqui fala BJ7CCT, de Curitiba, respondendo contato!”

Foi uma festa sem fim. Todos pulávamos e nos abraçávamos. Parecia a comemoração de um gol. Eu quase perdi a voz na hora de responder. Aquele era um passo importante. Era nosso primeiro contato desde que o mundo ruira.

Passamos um bom tempo conversando. Nosso contato, o Fábio, era um dos membros de um grupo de dezessete pessoas que estavam escondidas numa casa de um condomínio fechado na rua José Kormann, na zona norte da cidade. Eles disseram que as coisas por lá levaram um pouco mais de tempo para acontecer. Mas depois que iniciou não houve como parar. Ele já estava se preparando para o pior por isso tinha bastante comida estocada, além de muitos apetrechos indispensáveis. Quando a coisa piorou ele estava juntando a família para sair da cidade e se refugiar no interior. Infelizmente não deu tempo de fugir.

A notícia de que havia outros como nós causava um impacto impressionante em nosso íntimo. Tudo parecia mais fácil agora. Mais leve.

Outra ótima notícia era de que ele já tinha contato com pelo menos mais cinco grupos dentro do Brasil, e uns quatro fora.

Em nossas cabeças já fantasiávamos sobre como iríamos nos reunir e recomeçar tudo em algum lugar novo. Nos dias seguintes conseguimos encontrar outra dúzia de grupos. Criamos uma verdadeira rede de relacionamento. Todo o dia gastávamos horas, cada um de nós, conversando com este ou aquele grupo.

Mas para cada conversa interessante que tínhamos, haviam várias notícias desanimadoras. Em quase todos os lugares as coisas estavam do mesmo modo. Tirando uma vila inteira no sul do Chile, em plena cordilheira dos Andes, que ainda estava quase intacta, todos os outros grupos estavam em quase completo isolamento. Assim como nós ele s não conseguiam contato com quase ninguém em suas próprias cidades.

E a matemática era simples. Quanto menos tivéssemos que sair de nossos refúgios, menos perigo correríamos. Mas a questão era clara: quanto tempo nossos recursos iriam durar até termos de sair e enfrentar o perigo de frente.

Foram duas semanas animadoras, no geral. Pena que isso não durou muito.

3 comentários:

Lukas = Yamakusa = disse...

Faço o mesmo comentário que fiz na anotação anterior. Ta mto bom cara, achei bem legal sua história.
Vc escreve mto bem e isso é dificil de achar aqui no Brasil, mesmo entre profissionais. Parabéns pela história e continue assim!

Lukas = Yamakusa = disse...

Oxi, vai rolar mais continuação não???

João Brasil disse...

Claro que vai ter mais.... ainda esta semana!!!!