domingo, 31 de outubro de 2010

Zumbis em Porto Alegre 18

Zumbis em Porto Alegre

Anotação 18
O caso da água é curioso. Passamos anos sendo bombardeados com notícias de que um dia ficaríamos sem água. Claro que naquela época todos pensavam numa questão ambiental e ecológica. Ninguém imaginaria que isto aconteceria tão cedo e por motivo tão surreal quanto o que nós, poucos sobreviventes pelo mundo, estávamos passando.

Estávamos na terceira semana após o início deste inferno quando tivemos nosso novo murro de realidade. Naquela manhã, como de costume, todos acordamos e fomos levar nossa falsa ‘vida normal’. Normalmente nosso roteiro, naqueles tempos, era acordar, tomar café todos juntos e levar o dia entre falar pelo rádio com outros sobreviventes e arranjar o que fazer para passar o tempo. Esse monótono roteiro era, ao meu ver, o que nos mantinha na realidade. Como já disse antes parecia que ainda estávamos, naquela época, num mundo normal. Às vezes eram jogados de volta ao mundo real, mas inconscientemente sempre arrumávamos uma forma de voltar ao nosso ‘mundinho’. Aqui isto terminou definitivamente.

Ao abrir a torneira percebemos que a água estava com uma coloração levemente diferente, mas com um forte odor desagradável. O gosto também estava alterado e igualmente desagradável. De uma hora para a outra o desespero correu por todos. Tentamos nos acalmar da forma que dava.

Fizemos algumas tentativas de contornar o problema. Ferver a água se mostrou eficiente apenas nos dois primeiros dias. Depois o cheiro e o gosto estavam tão fortes que não adiantava mais. O que melhor resolveu foi um velho filtro de barro, mas tínhamos apenas um e ele era lento, o que é natural para ele.

É óbvio que tínhamos água armazenada, mas a calma e sorte que tivemos nas primeiras semanas acabou por nos nublar a estratégia necessária para não sermos pegos de surpresa. Tínhamos muita pouca água guardada. Não duraria mais do que uma semana, apenas para comer e beber. A grande maioria estava inutilizada para consumo direto.

Passamos a tentar verificar nossas alternativas. No topo de nosso prédio haviam duas caixas de água enormes. Ambas estavam repletas de água e à cada uso mais era jogado para dentro dela automaticamente. Isso fazia com que estivesse constantemente sendo contaminada. No condomínio vizinho, que havíamos isolado e limpo de zumbis, havia uma caixa de água por torre. Não sei por que, mas apenas metade delas estava com água limpa, mesmo sem ter tido uso. O que deu para fazer foi bloquear a entrada de água e retirar gradativamente o máximo possível. Tínhamos ali, racionando da melhor forma possível, água para mais umas três semanas. O que, diga-se de passagem, para a nossa realidade era muito pouco.

Trocando informações com alguns de nossos contatos pelo rádio soubemos que todos passavam ou já haviam passado pelo mesmo problema. Tirando o pessoal dos Andes que recorria à um riacho próximo, todos os outros passavam por duas soluções – esperar chuvas torrenciais ou procurar fora do esconderijo.

Agora percebo que inconscientemente tentamos de tudo antes de nos convencermos de que teríamos de colocar a cara para fora do nosso refúgio. Até tentamos criar um sistema para captar água em caso de chuva num emaranhado de lonas nas caixas d’água dos prédios vizinhos. Mas as chuvas eram muito rarefeitas naquela época à ponto de encher uma recipiente daquele tamanho.

O consumo estava reduzido ao mínimo possível. Tínhamos, por incrível que pareça, um estoque considerável de refrigerantes que arrecadamos dos apartamentos do condomínio vizinho. Não entendo o que passa pela cabeça de uma pessoa em estocar refrigerante quando se dizia para estocarem alimentos. Mas de qualquer forma aquilo pelo menos nos auxiliava a economizar o consumo de água, mas também não duraria para sempre.

Mesmo com todo esse racionamento uma coisa não deixamos de fazer – tomar chimarrão. Era como um ritual que nos mantinha humanos, vivos, presos à realidade. Só pararíamos quando a erva mate terminasse. E, diga-se de passagem, ainda continuamos a consegui-la.

Uns quatro dias depois do início do problema O Raul me chamou no terraço do nosso prédio. Lá de cima ele apenas apontou para o outro lado da rua. Nem me lembrava daquilo. O Carrefour tinha uma caixa de água enorme, nem tenho a idéia de quanto de água poderia ter ali. Mas de qualquer forma era a melhor e mais próxima de nossas opções.

Naquela noite fizemos uma reunião rápida, na nossa roda de chimarrão, e concordamos que teríamos de começar a nos aventurar fora por uma questão de sobrevivência. Pelo menos tínhamos tempo para planejar. Mas não poderíamos demorar muito.

Nossa primeira excursão estava marcada. Iríamos até o Carrefour e tentar criar uma forma de arrecadar toda aquela água.

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