segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Zumbis em Porto Alegre 19

Zumbis em Porto Alegre


Anotação 19
A primeira aventura verdadeiramente fora de nosso refúgio não dá para esquecer. Claro que se pudéssemos escolher não colocaríamos a cara para fora nunca. Mas a necessidade ensina a gemer e naquela situação em que o mundo estava vivendo qualquer hora seria ruim.

Nosso alvo foi o Carrefour. Ele tinha uma enorme caixa de água nos fundos da estrutura, num pátio. Do terraço de nosso prédio conseguíamos ver que havia um enorme portão para entrada e saída de caminhões, dando para a rua de trás do hipermercado. Mas seria muito perigoso arriscar por ali, além de que provavelmente ele estaria trancado por dentro, como realmente depois comprovamos que estava.

Eu, o Paulo, o Raul e a Juliana passamos um bom tempo sentados no terraço olhando para o prédio do Carrefour, do outro lado da rua, imaginando como chegar lá em segurança. E esse era apenas um dos problemas, pois pelo que estávamos concluindo teríamos de chegar lá, passando por muitos zumbis, uns cem ou mais. Depois teríamos de ingressar no pátio do Carrefour, entrar no prédio, cruzar toda a estrutura por dentro, descobrindo como chegar aos fundos, para então conseguir chegar até a caixa d’água. Tudo isso sem saber ao certo quanto desses monstros haviam lá dentro. Depois de tudo isso ainda teríamos de descobrir uma forma de trazer água para o nosso prédio.

Mas por água valia à pena. Este é o tipo de bem que não se pode abrir mão.

Nossos problemas se resumiam, de início, à como tirar os zumbis de perto, dando chance de ir e voltar em segurança. A alternativa que os guris, o Michel e o Jonas, deram era a mesma que usamos para tirar os zumbis da frente e de dentro do condomínio vizinho, quando fomos invadi-lo – chamar a atenção com som alto. Nosso problema não era quantidade, mas a localização deles. Tínhamos de levá-los para longe. Mas como?

Para você, que está tendo a sorte ou azar de ler isso, entenda vou descrever nossa posição. Nosso refúgio está à cerca de cem metros dos portões de entrada do Carrefour. Ao mesmo tempo existem duas esquinas, uma de cada lado da rua, significando que não tínhamos idéia do que havia por lá. Poderiam haver ainda muitos outros monstros por ali. Era um risco enorme. Sabíamos que teríamos de fazer isso, mas queríamos ter a certeza de fazer isso sem perder nenhuma vida. E precisávamos ser rápidos ou aquela água da caixa d’água acabaria se sujando também.

Resolvemos então atrair os monstros em direção da avenida Bento Gonçalves, na rua que dava quase que de frente para o portão. Era nossa melhor opção. O plano era arriscado. O Michel e a Beth, os mais leves, iriam atravessar o resto da quadra por cima das casas e chamar a atenção daquelas coisas para lá. Depois do condomínio que havíamos limpado dos monstros havia cerca de umas quatro ou cinco casas populares até a outra rua. Elas eram muito juntas e de telhados baixos. Isso facilitaria para que pudessem passar de uma casa para outra sem ter que colocar o pé no chão.

Quando eles chamassem os zumbis para aquela rua, nós iríamos correr até o portão de entrada do Carrefour e tentar entrar. Qualquer problema e nós voltaríamos, mas depois de estarmos lá dentro teríamos de ser rápidos ou acabaríamos ficando presos por lá. Teríamos de contar com a sorte e com a lentidão e péssima visão deles.

Tudo ficou marcado para o próximo dia, bem cedo.

No outro dia, depois do café da manhã, nos preparamos da melhor forma possível. Tudo ficou dividido assim. O Michel e a Beth chamariam a atenção dos zumbis para a outra rua depois de passarem por cima das casas. Eles levariam o rádio e duas barras de ferro e uma pistola. O Jonas ficaria de guarda, no portão, junto da Juliana, para abrir e fechar o portão ou nos darem cobertura. Eles ficaram com uma pistola e com um dos fuzis. Eu, o Paulo e o Raul entraríamos no Carrefour levando cada um uma barra de ferro, que era para ataques silenciosos, e fuzis e pistolas. Lá do alto Dona Silvia e a Aninha ficavam de vigia para qualquer coisa estranha que avistassem nos avisar.

O Michel e a Beth chegaram em seu destino sem dificuldade. Saltando do muro do condomínio caíram direto no telhado da casa vizinha e foram até a última casa rapidamente. De lá ele fez sinal de que não haviam muitos monstros por lá. Logo depois ligou o rádio no máximo que dava e esperou. Mas o que não contávamos era que a potência do volume do rádio não seria suficiente para atrair aquelas coisas que estavam mais distantes, como aquelas que estavam perto de nosso prédio. Só o mais próximos foram atraídos. Mas eles foram providenciais. A Beth avistou um carro estacionado alguns metros deles. Era um carro importado. Eles arrancaram pedaços de telhas e jogaram no carro até o alarme disparar. Foi o suficiente para atrair muito mais zumbis do que estávamos esperando. Eles se aglomeraram naquela rua tentando entrar no carro à todo custo.

Enquanto isso nós três ficávamos esperando o sinal da Dona Silvia para iniciarmos nossa jornada. Depois de uns cinco minutos ela assinalou que poderíamos ir. Abrimos o portão de ferro com todo o cuidado e percorremos aqueles quase cem metros até o portão do Carrefour rápida e silenciosamente. A rua estava limpa de monstros e nossos únicos obstáculos eram muitos carros abandonados por todo o canto.

Quando chegamos ao portão demos uma parada para analisar a situação. Para dentro do pátio estava tudo calmo e vazio. Atrás de nós estava a rua onde o Michel havia atraído aquelas coisas. Era uma cena dantesca, mas não podíamos ficar ali parados. O Raul e o Paulo se adiantaram para dentro do pátio com as barras de ferro prontas. Logo atrás eu dava cobertura com um fuzil, para emergências.

Descemos uma pequena rampa que levava do nível da rua até o nível do estacionamento do hipermercado. Dentro do pátio ainda estavam todos os carros dos infelizes que não conseguiram escapar. Alguns batidos, outros queimados. A entrada de veículos estava completamente obstruída. Muitos carrinhos repletos de gêneros alimentícios e ouras coisas, destruídos pela ação do sol e chuva, estavam abandonados por todos os cantos. Eles me fizeram lembrar do dia em que começou o inferno, quando eu estava ali dentro tentando pegar mantimentos para nós. Eu quase virei almoço de zumbi naquele dia.

Na frente do prédio do Carrefour existem duas entradas, uma perto de onde estávamos e outra na extremidade oposta da frente do prédio, perto da outra saída de veículos. Achamos que a melhor forma de chegar ao estacionamento nos fundos do hipermercado seria atravessar o interior do prédio e tentar entrar numa das duas ou três enormes portas que havia para o setor de armazenamento. Pelo que eu me lembrava, já que eu ia quase que diariamente ali fazer compras, a porta mais perto de se entrar ficava em linha reta da outra entrada. Então seria muito mais fácil ingressar no prédio pela outra entrada.

Começamos a andar pela frente do prédio, por entre os carros, para termos alguma cobertura. Notamos que ali onde estávamos o som do alarme do carro era muito baixo. Isso significava que provavelmente ele não teria atraído quase que nenhum zumbi de dentro do prédio. Esse pensamento me trouxe um calafrio, mas nem podia imaginar, naquele momento, que as coisas eram muito piores.

Quando fomos chegando perto da porta avistamos uns cinco zumbis meio que em estado de transe. Quando eles não eram atraídos por nada eles ficavam assim, meio catatônicos, até que algo os chamasse a atenção. Nossa ação era clara. Andamos silenciosamente e de uma vez só acertamos três daquelas coisas com as barras de ferro diretamente em suas cabeças. Os outros dois perceberam o movimento e começaram a se mover, mas rapidamente demos cabo deles também.

Parece uma coisa fácil de se fazer, mas ainda causava muita estranheza em mim, afinal aquelas coisas haviam sido seres humanos um dia, e matar não é nada agradável. Além disso, temos de aplicar uma grande força para conseguir arrebentar a cabeça de uma coisa como aquelas. De qualquer forma eram cinco à menos. A frente estava limpa.

Nos aproximamos das portas de vidro quebradas e demos uma olhada para dentro. Parecia estranhamente calmo. Poucas luzes funcionavam, mas iluminavam o suficiente para vermos que pelo menos o corredor principal, que ia da frente aos fundos, estava vazio de monstros. Havia muita bagunça de produtos no chão e cadáveres decompondo-se, mas zumbis não. Entramos cuidadosamente passando pela primeira e segunda portas de vidro. Naquele ponto conseguíamos ver todo o espaço à frente dos caixas, que ia de uma extremidade à outra. Aqui tivemos uma idéia do tamanho de nosso problema. Era um sem número de zumbis, todos parados, uma multidão que espremia-se.

Nos entreolhamos e resolvemos prosseguir. Esperar que as condições melhorassem era ilusão. Tudo só ia piorar. Avançamos em fila indiana, eu atrás com o fuzil pronto, e os dois com as barras logo à minha frente. Penetramos cerca de vinte metros quando conseguimos avistar a porta ao longe. Mas infelizmente avistamos também havia mais uma avalanche de zumbis, todos parados. Nossa passagem estava bloqueada, pelo menos por ali. Teríamos que improvisar, mas não sabíamos como.

Foi quando algo aconteceu. Nós estávamos parados cochichando o que fazer quando escutamos – “psiu!” – bem baixinho. Olhamos de um lado para o outro meio assustados sem encontrar nada. Mas não era ilusão. Mais um – “psiu!” – e percebemos que o som vinha de cima, de uma silueta. Alguém estava vivo bem ali, no mezanino do Carrefour.

Vou dormir agora, mas continuo em breve.

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