quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Zumbis em Porto Alegre - 20

Zumbis em Porto Alegre


Anotação 20
Vamos voltar à nossa primeira investida verdadeiramente fora de nosso refúgio.

Estávamos entrando pela porta principal do hipermercado Carrefour, passando da linha dos caixas, que estava repleta de um sem número de zumbis, quando escutamos um quase imperceptível chamado, na verdade um sussurro. Depois da surpresa percebemos que ele vinha de cima, do mesanino que percorre toda a frente dos caixas de ponta à ponta. Lá em cima um vulto nos fazia sinal com uma lanterna. Não que todo o ambiente do Carrefour estivesse às escuras, mas uma parte significativa das lâmpadas estavam apagadas.

Nos entreolhamos sem saber muito bem p que fazer. Realmente não esperávamos encontrar alguém ainda vivo ali, ainda mais com a quantidade de zumbis que haviam por todo o lado.

Depois de alguns momentos o vulto sumiu e retornou a aparecer segundo algo grande e comprido. Ele foi descendo aquilo e descobrimos ser uma escada. Ajudamos a apará-la no chão para não corrermos o risco de chamarmos a atenção dos monstros com sons realmente desnecessários. O interessante é que tudo aquilo estava sendo feito quase que exclusivamente em silêncio. Era como se o instinto nos guiasse.

Subimos vagarosamente, um a um, até que todos estavam no mesanino. Então ele subiu a escada e colocou-a encostada na parede. Ele fez um sinal para mantermos o silêncio e nos guiou até uma porta que estava aberta. Entramos e ele fechou a porta.

Então ele começou a chorar convulsivamente enquanto nos abraçava um a um. Até aquele dia ele acreditava estar sozinho. Depois, com mais clama, ele contou que se chamava Renan e que haviam sobrado pelo menos uma dúzia de pessoas, com ele, que haviam se isolado nesta parte do supermercado no dia em que tudo piorou. Eles não tiveram chance de sair e acabaram encurralados. Eles bloquearam as escadas e permaneceram ali, sem possibilidade de saírem. Embora estivessem dentro do supermercado, tão perto de tanta comida, eles passaram fome por várias vezes. Nesta ala não haviam estoques, no máximo máquinas de refrigerante e salgadinhos e alguma coisa numa geladeira dos funcionários. As mortes começaram quando eles tentaram descer para pegar alimentos, até que na última vez, dias atrás, apenas ele sobreviveu. O maior problema deles era a falta de armas, no máximo tinham alguns cabos de vassouras e dois cassetetes. Isso não foi o suficiente.

Até aquele dia, mesmo escutando uma ou outra vez algum disparo, ele acreditava que morreria ali, sozinho e de fome. A surpresa quando começou a escutar o alarme do carro repetidas vezes lhe deram esperança.

Nós então o convidamos para voltar conosco. Ele não tinha muita coisa para levar. Umas pilhas, algumas poucas roupas, nada de muito significativo. Mas dissemos à ele que tínhamos de realizar nosso plano primeiro.

“- Vocês estão loucos!” – esse foi o comentário dele quando dissemos que estávamos atrás de uma forma de chegar à caixa de água, nos fundos do hipermercado.

“- Isso é impossível” – disse ele – “como vocês vão passar por esse monte de zumbis? Além de que depois vocês vão ficar isolados, sem conseguir sair pois ele com certeza vão perseguir vocês.”

Isso tudo era verdade, mas tínhamos de conseguir ou logo ficaríamos sem água. O Renan era segurança no Carrefour e conhecia como ninguém todos os caminhos, mas por mais que ele raciocinasse não havia solução.

Até que ele lembrou – “poderíamos ir pelo telhado.” Todo o telhado do hipermercado era de um material metálico, mas nada muito impossível de ser ultrapassado. De onde estávamos, no mesanino, seria fácil alcançar o telhado. O único problema é que isso inevitavelmente iria atrair a atenção dos zumbis. Mas era o que dava para fazer. Pegamos algumas ferramentas que havia numa pequena sala de manutenção por ali.

Logo que começamos a martelar e tentar dobrar as lâminas metálicas do telhado a movimentação dos zumbis também iniciou. Nós estávamos no canto extremo direito do mesanino, ou seja, no lado oposto de onde estava a rua de nosso esconderijo. Todos os zumbis se acumularam naquele canto.

De repente o Paulo me disse – “cara... estão todos aqui... o resto do hipermercado está vazio... vamos aproveitar”. Eu olhei para ele e entendi a intenção dele. Passei a mão numa das pontas da escada e disse para o Raul – “vai abrindo o buraco que já voltamos!” – e puxei o Renan conosco.

Levamos a escada até a outra extremidade do mesanino e descemos bem na frente do corredor dos vinhos. De onde estava eu conseguia ver uma massa móvel de zumbis se aglomerando para chegar ao som que o Raul produzia lá em cima.

Sabíamos que tínhamos de ser rápidos ou ficaríamos cercados rapidamente. O Paulo ficou na base da escada controlando nossa rota de fuga. Eu e o Renan fomos rapidamente pelos corredores à procura de algumas coisas essenciais. Enquanto andava eu ia listando para ele. Tínhamos muita carência de pilhas, velas, fósforos, lanternas, álcool, anti-sépticos, desinfetantes e o que desse para pegar de comida. Ele correu pelo corredor central na direção de onde ficavam os equipamentos elétricos e afins. Eu me preocupei com os medicamentos e comida.

Isso não deve parecer que foi apenas um passeio para compras. A imagem dos corredores era de impressionar. Muitos corpos e pedaços de corpos espalhados por todo o lado. Carrinhos virados e produtos esperramados por todo o lado. No dia que tudo saiu de controle eu estava aqui dentro e me lembro do mar de gente que estava aqui quando os zumbis começaram a atacar. Não era de se admirar a quantidade de infelizes pegos desprevenidos.

Mesmo assim, nesse inferno, ainda haviam muitos produtos nas prateleiras. Corri com cuidado para o centro do mercado, onde ficavam os produtos de higiene e passei mão em algumas garrafas de álcool e outras coisas, inclusive modes. Não dá para imaginar que as meninas teriam parado de mestruar apenas por causa do fim do mundo. Coloquei tudo numa mochila e corri para os enlatados. Ali sim a bagunça estava feita. Quase tudo estava no chão misturado entre sujeira e sangue seco. Quando estava terminado de pegar algumas latas de sardinha e atum o Renan voltou com a sacola que eu dei para ele repleta. Não nos demoramos muito e voltamos para a escada. Já tínhamos abusado demais da sorte.

Quando chegamos novamente onde estava o Raul, o trabalho estava quase terminando, deixando entrar uma forte luz do sol e uma suave brisa. Subimos facilmente com a escada enquanto os monstros abaixo de nós urravam e se amontoavam querendo nossa carne. Não foi desta vez.

Lá de fora conseguia ver facilmente Dona Silvia e a Aninha. Elas abanavam satisfeitas por estarmos vivos. O mesmo com o Michel e a Betty que nos viram de longe. De cima do telhado conseguíamos perceber melhor o tamanho daquela enorme caixa d’água. Andamos até a beirada do telhado e olhamos todo o terreno do pátio dos fundos do Carrefour. Era um espaço enorme e aberto. Estava com alguns caminhões estacionados aqui e ali. A caixa d’água ficava quase no centro do pátio e, ao seu redor, uns trinta ou quarenta zumbis perambulando daqui para lá.

Teríamos de matar aquelas coisas para chegar na água, mas nossa munição não seria suficiente para isso.

3 comentários:

Lukas = Yamakusa = disse...

Já ta com um tempinho que não aparecem mais capitulos dessa série tão boa que você tá fazendo amigo.
Espero que novas aventuras sejam apresentadas em breve.
Abraço e continue o ótimo trabalho.

Amon disse...

CADÊ!!! Eu venho acopanhando esta saga e desde de dezembro que vc não posta nada! Volta logo e pra compensar poste ao menos umas cincos.
Abraços.

Lukas = Yamakusa = disse...

Pois é, estamos ai na espera =s