quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Zumbis em Porto Alegre 21

Zumbis em Porto Alegre


Anotação 21
Vou continuar a contar a nossa primeira epopéia fora do refúgio. Estávamos num impasse. A enorme caixa d’água estava ali, a poucos metros de nós, mas não conseguíamos chegar até ela, e pior, para chegar lá teríamos de passar por cima de muitos zumbis. Ao mesmo tempo, ainda teríamos de descobrir uma forma de sair dali, já que o caminho de volta seria muito arriscado e levar a água ou um forma de usá-la.

Nos sentamos todos na beirada das telhas tentando não chamar a atenção dos monstros lá embaixo. O Paulo se aproximou da lateral do telhado, lá perto da rua, e acenou para o Michel parar um pouco de acionar o alarme. Teríamos de trabalhar com calma.

Segundo o Renan, para chegarmos à caixa d’água poderíamos ir por dentro do hipermercado e atravessar todo o setor de estoque, saindo diretamente à frente da caixa d’água, no pátio. Outra alternativa seria indo pelo telhado, até a outra extremidade, e descer pelas escadas de segurança, atravessando o pátio, depois, de ponta a ponta. Diretamente de onde estávamos, indo para o chão, não seria possível pois a altura não era menor do que uns 10 metros.

Em resumo - só havia sobrado o pior e mais perigoso caminho.

Nossa munição era pouca para aquilo tudo e ainda tinhamos o problema de como conseguir pegar a água. E ainda por cima tínhamos de fazer tudo naquele momento pois não sabíamos quando teríamos condições de voltar aqui.

Demos uma vasculhada por todo o telhado na expectativa de achar outras alternativas, mas elas não apareceram. Construímos nosso plano de forma simples: desceríamos pela escada e atrairíamos a atenção dos monstros para longe de um dos caminhões que estavam por ali por perto. O Paulo iria até o caminhão e o levaria de ré, como já estava, até a porta que dava para o estoque. Isso nos deixaria isolados pelo menos da grande massa de zumbis que estavam lá dentro. Depois disto era só bloquear algumas portas e teríamos todo o espaço livre, depois de matar os monstros por ali, é claro.

Descemos lenta e silenciosamente por uma escada de ferro longa que estava ali para ajudar ao combate incêndios. Em um mundo como este o silêncio é a diferença entre a morte e a vida. A sincronia também. Tínhamos de fazer tudo certinho, para não sermos surpreendidos, e manter o silêncio pelo maior tempo possível, até estarmos todos prontos.

Quando estávamos no chão percebemos que eles estavam espalhados e isso nos daria uma certa vantagem. Contra uma massa de zumbis, mesmo lentos e desarmados, é quase impossível escapar. Embora tivéssemos as armas iríamos usar uns bastões que havíamos encontrado por ali. Isso nos manteria em silêncio e nos ajudaria a poupar alguma munição. Então eles estarem espalhados nos dava uma maior vantagem.

O Paulo se posicionou perto do caminhão. Ele teria uns dois zumbis para enfrentar, o que não seria nada de muito complicado. Mais perto de nós haviam uns dez, pelo menos. Seria muito mais trabalho, mas daríamos conta. Pelo menos eu esperava isso.

Começamos.

Corremos e acertamos os primeiros de surpresa. Com duas pancadas bem dadas conseguíamos neutralizar definitivamente um zumbi. Mas mesmo com o máximo de cuidado logo os outros estavam alertados e começaram seu andar em nossa direção. Avançamos um pouco mais para dar uma certa vantagem para o Paulo, que tinha de se direcionar ao outro lado do pátio, e acertamos a segunda leva de monstros. Eles ainda vinham em pouca quantidade e espaçados, mas isto logo mudou. Da porta que ligava o pátio ao gigantesco estoque começou a sair lentamente zumbis, mas de forma contínua. Chamávamos cada vez mais atenção, por mais que não o quiséssemos. Quando o Paulo chegou ao caminhão e entrou na boléia, depois de derrubar seus dois opositores, começamos nos preparar para a verdadeira ação.

Eram cerca de uns quarenta e poucos zumbis que se moviam contra nós, saídos da enorme porta. Uns mais lentos, outros nem tanto. Mas mesmo lentos a sua quantidade é que poderia ser fatal. Por mais rápido que fossemos facilmente poderíamos ser cercados e mortos. Mas o plano não deixaria isso chegar tão longe. O Paulo tão logo chegasse ao caminhão sairia de ré atropelando quantos pudesse até obstruir a porta de acesso do estoque ao pátio, ao lado da caixa d’água. Depois iríamos limpar o resto. Este era o plano. Era.

Começamos a gritar para tentar atrair aquelas coisas para uma posição que o caminhão passasse por cima da maior parte deles. Depois dele entrar no caminhão ficamos aguardando o som forte do ronco do motor, típico dos caminhões. Mas o som não veio. Estranhamos. De repente o Paulo colocou a cabeça para fora da janela e gritou – “Não tem chave!!!!”

Ficamos os três embasbacados. Como poderíamos ter sido tão amadores e não imaginar que isso poderia acontecer. O pior foi que os zumbis também escutaram o Paulo e começaram a se direcionar para lá também.

“- Agora fudeu....” – as palavras do Raul saíram com uma naturalidade que agora, meses depois, achamos graças da situação, mas naquele momento, com as dezenas de zumbis vindo em nossa direção era o quadro do inferno. O Paulo saltou do caminhão e correu para um outro próximo para ver se tinha chave. Ao mesmo tempo nós três saímos em debandada procurando uma posição vantajosa. Não queríamos disparar as armas, pois isso atrairia todos os zumbis do hipermercado para cá ainda mais rápido.

O Renan correu para um pequeno escritório que ficava perto da escada que havíamos descido e entro lá dentro. Logo depois saiu de lá carregando pelo menos uma dúzia de chaves gritando para o Paulo – “Aqui... aqui!!!!”. Ele correu em sua direção acertando uns dois monstros pelo caminho com uma barra de ferro. O Paulo estava quase cercado e a chegada do Renan foi providencial.

Enquanto isso eu e o Raul acabamos separados dos outros pela massa de monstros que começava a crescer. Subimos em um anteparo para desembarque dos caminhões e ganhamos algum tempo. Aquelas coisas além de serem lentas não tinham grande agilidade, então subir aonde estávamos lhes era muito custoso. Conforme eles iam tentando nos alcançar tínhamos tempo suficiente para acertá-los na cabeça. Mas isso não duraria para sempre. Teríamos de fechar aquela porta rapidamente.

O Renan alcançou o Paulo e ambos conseguiram se safar sem muitos problemas. Até agora estávamos indo bem.

O Paulo pegou o amontoado de chaves e saiu na procura de uma que servisse no caminhão. O Renan veio em nosso apoio. Nem aprecia que aquele rapaz esteve tanto tempo escondido. Ele lidou muito bem com a situação toda.

Mas o tempo estava passando e eles não paravam de sair daquela maldita porta. Nisso o inesperado aconteceu. Num descuido do Raul um dos zumbis agarrou sua calça e o puxou para baixo. No desespero que me tomou só conseguia pensar em salvá-lo e rapidamente puxei o fuzil que tinha preso às costas e disparei umas três vezes. O som ecoou por todo aquele espaço. Na hora passou pela minha cabeça que eu havia atraído todos os zumbis de Porto Alegre. Pelo menos havia salvo meu amigo, mas agora tínhamos poucos instantes antes de todos os zumbis que estavam dentro do hipermercado começassem a sair por aquela porta. E isso não demorou muito.

Mal o Raul conseguiu se levantar e subir novamente no anteparo e o fluxo de saída de zumbis aumentou muito. E nós estávamos separados. O Renan, que estava entre nós e o Paulo, e que tinha corrido para um outro ponto, estava sobre a capota de uma caminhonete e dali acertava aqueles que se aproximavam. Eu e o Raul continuávamos encurralados no anteparo de desembarque. E o Paulo continuava tentando encontrar a chave, já com seu caminhão cercado de monstros.

Estava tudo fora de controle. Eu podia ver claramente que dificilmente eu sairia dali vivo. Da porta de passagem entre o pátio e a área de estoque já deviam ter passado mais uns cinqüenta zumbis. Era desanimadora aquela visão.

Então os ventos começaram a mudar. Um som forte e arranhado correu o ambiente. Era um motor. Finalmente o motor do caminhão estava ligado. Num sobressalto o caminhão em que o Paulo estava deu solavanco para a frente e bateu no muro. Ele já deveria estar com a marcha engatada e o Paulo nem deveria ter se dado conta. Algo normal naquela situação.

Todo aquele barulho chamou a atenção dos monstros que estavam sobre nós. Continuamos batendo e arrebentando aproveitando aqueles momentos de distração. O Renan saltou de sua posição e correu para perto da escada de onde havíamos descido. Eu e o Raul também o acompanhamos tão logo conseguimos nos desvencilhar dos monstros.

Com o caminhão pronto o Paulo engatou a ré e lançou o veículo com o máximo de velocidade que podia, naquele estado e com a pouco experiência que tinha, e mirou a porta de acesso. Foi uma visão dantesca ele avançando de ré e arremessando e esmagando um mar de zumbis como se fossem nada. A distância era de cerca de duzentos metros e deixou um rastro repugnante por seu caminho de pedaços de corpos e líquidos mal cheirosos. Por sorte sua investida funcionou e a caçamba do caminhão acertou a porta fechando-a e bloqueando-a. Por pouco ele não acertou a base da torre de água.

Os zumbis que sobraram, umas duas dúzias mais ou menos, estavam espalhados pelo pátio e conseguimos dar cabo deles em alguns minutos e com alguma corrida. Enquanto isso o Renan ia se certificando que as demais portas de acesso ao pátio estariam muito bem fechadas.

Ao final desta quase desastrosa ação estávamos exaustos. Podia não parecer, mas foram quase sessenta minutos de ação contínua. Depois de avisarmos aos que estavam lá fora de que estávamos bem nos sentamos em umas cadeiras reservadas aos seguranças daquela zona e tivemos um merecido momento de descanso. Meu corpo tremia de exaustão. Nunca, desde aquele primeiro dia, havia estado tão perto da morte. Todas nossas ações até aquele dia haviam sido calculadas e de baixo risco. Mas hoje tivemos a noção de que tudo tenderia apenas a se tornar mais difícil e mortal. Os tempos de facilidade haviam ficado para trás.

Esses pensamentos passavam claramente na mente de cada um de nós e eu conseguia ver isso nos olhos de cada um. Mesmo o Renan, recém chegado ao grupo, percebia dolorosamente isso.

Então o Raul nos tirou daquele silêncio restaurador e como sempre nos trouxe a realidade de uma forma que pendia entre o cômico e trágico – “ok... limpamos a área e estamos aqui com essa enorme torre de água... como diabos vamos levar essa água até o edifício?”

Começamos a rir gostosamente. A situação só nos possibilitava isso. A situação era tragicômica. Havíamos feito tudo mais ou menos como havíamos planejado. Só esquecemos de pensar no principal.

Nenhum comentário: