terça-feira, 24 de maio de 2011

Diário de um Escudeiro 40

Décimo dia de Lunaluz de 1392.

O que aconteceu durante este dia não importa. Trabalhamos apenas na preparação do funeral. Eu não tinha idéia de como ele seria. Falávamos pouco. Comemos pouco. Ao cair da noite todos foram se reunindo na praça central de Vallahim.

Fomos saindo em marcha da cidade quando a noite finalmente se ergueu.

Tochas as centenas se estendiam por todo um percurso que se delimitava apenas pela escuridão da noite. Cavaleiros eram enterrados à noite pois acreditavam que assim seria mais facilmente encontrados pelos deuses que seguissem as tochas. Uma das tantas crenças daquele povo. O silêncio foi enorme. Na frente Platek colocou-nos seguidos de nossos mestres. Atrás de nós as seis carroças ornadas com ramos de oliveiras e flores colhidas especialmente para aquela ocasião. O filho de cada um trouxe, pelos arreios, os cavalos que puxavam seus pais. Logo atrás todos os outros cadetes dos Cavaleiros da Luz galoparam suave e lentamente trazendo os estandartes de nossa ordem. Foram seguidos por todos os cavaleiros que estavam na cidade para o torneio. Haviam cavaleiros de Keenn, de Tana-Toh, de Thyatis e de Marah, uns à cavalo outros à pé. Todos com tochas nas mãos. Ao redor das carroças sacerdotes de Lena, deusa da vida, com suas vestes brancas, caminhavam realizando suas orações quase inaudíveis.

Logo atrás veio um grupo de quase uma centena de homens. Enormes, barbudos e carrancudos como quase todos os homens daquele povo rude, mas valoroso. O silêncio deles era ainda mais intenso. Sem levar tochas apenas caminhavam de queixo erguido e olhares fortes. Atrás de todos estes vinha o povo. Todo o povo. Todos com tochas que davam àquela marcha a impressão de uma imensurável cobra de fogo andando pela noite.

O caminho ia direto dos portões da cidade e ingressavam pela mata de árvores frondosas e gigantescas, características de Tollon. Após algum tempo, como vindo da floresta, uma triste melodia surgiu na noite. A entoada começara baixa e foi crescendo em volume. Eram os cem homens que andavam atrás das carroças que faziam o papel de coral. A música devia ter sido composta pelo maior dos bardos, pois trazia à todos as sensações das mais diversas, mas todas elas fortes, intensas, tristes, valorosas. Não era cantada em palavras, mas solfejada com extrema harmonia. Todo o povo, atrás, antes em silêncio, acompanhava a música numa ladainha sussurrada e fúnebre. Por toda a enorme extensão em que o povo e suas tochas criavam na forma de gigantesca fila, vários homens, mulheres e crianças, velhos e novos, tocavam um instrumento de sopro incrivelmente melancólico e triste. Algo que eles chamavam de gaita. De alguma forma tudo aquilo se unia num amálgama perfeito que parecia ter sido enviado pelos deuses.

As lágrimas vinham aos olhos de forma incontrolável. E não só em mim, pois vi muitos outros, mesmos os de aspecto mais forte, terem de enxugar as vistas embaçadas.

Depois de um determinado percurso chegamos à uma gigantesca clareira. As copas da gigantescas árvores abriam-se em perfeito círculo que nos brindava com um perfeito firmamento extremamente escuro e com uma enorme lua em escudo. Era a presença da deusa Tenebra que brindou-nos homenageando aqueles mortos. Ao centro da clareira seis piras feitas de madeira aguardavam os homenageados.

Quando as carroças pararam ao lado das piras, nós seis retiramos os corpos de cima e os colocamos um sobre cada pira, com a ajuda de seus filhos e de outros. Enquanto íamos arrumando os cadáveres, o coral se postou próximo da pira central e todos os músicos se colocaram em círculo, rodeando-nos. O povo e suas tochas foram se postando por toda a extensão da clareira ocupando cada espaço, inclusive adentrando pela floresta.

Numa espécie de púlpito improvisado sobre uma rocha Platek e o sacerdote de Khalmyr esperavam em tom respeitos para que tudo fosse arrumado. Quando demos por encerrada a arrumação todo o som cessou de uma só vez.

“- Meus amigos!!” – gritou Platek pedindo a atenção de todos.

Uma figura surgiu atrás dele. Um homem enorme de mãos dadas com um mulher igualmente alta, mas de beleza exuberante. Era Solast Arantur, regente de Tollon e sua esposa. Vestidos de forma comum, sem aqueles adornos que estamos acostumados nos salões nobre do centro do Reinado, eles traziam uma simplicidade bucólica que os deixava ainda mais parecidos com todo aquele povo.

“- A morte não é motivo para tristeza!” - começou a dizer o regente – “Isso é o que eles nos diriam se aqui estivessem. É motivo de glória, de felicidade, de festa. Se chegamos ao fim de nossa existência aqui é porque os deuses consideraram que fizemos tudo o que nos propomos antes de pisarmos estas terras. E como merecido reconhecimento, somos convidados a voltar para sua presença, entre seus filhos, no plano superior em que vivem. E estes seis homens morreram da melhor forma possível. Morreram lutando, morreram por seus familiares, morreram protegendo suas terras. Eles serão recebidos pelos deuses e beberão e comerão, esta noite, na mesa dos imortais.”

Ao terminar de falar o regente se afastou um pouco e tochas aproximaram-se das piras, três de cada lado. Conforme foram se aproximando, todas as milhares de tochas que estavam ao redor, nas mãos do povo, foram sendo apagadas até que apenas as tochas ao redor das piras iluminavam a noite. Três sacerdotes de Lena aproximaram-se das piras. Uma centuaro, a líder dos sacerdotes, disse em voz alta – “que esta vida seja lembrada por gerações e que seu sacrifício seja honrado por seus filhos”. De um outro ponto da clareira outros três sacerdotes, estes de Thyatis, respondem– “que suas vidas sejam eternas como as memórias que deixarão no coração dos seus!”. Depois disso os seis sacerdotes ascendem aspiras.

As três piras arderam iluminando a noite. Eu senti uma sensação estranha. Uma mescla de alegria, dever cumprido e respeito. Todos pareciam assim. Ninguém se moveu até as chamas começarem a se extinguir. Só então os primeiros começaram seu caminho de volta à cidade de Vallahim.

O silêncio imperou por aquela noite. Não um silêncio de tristeza, mas um silêncio de respeito profundo.

2 comentários:

Bianco Dantas disse...

Muito bom já li todos os 40 capítulos e achei maravilhoso, muito envolvente e a escrita excelente , só não entendo uma coisa pq vc parou de postar mais João ?

João Brasil disse...

Muito obrigado pelos elogios.... Eu já estava pensando em voltar e com um incentivo desses pretendo logo logo!