sexta-feira, 27 de maio de 2011

Zumbis em Porto Alegre 23

Zumbis em Porto Alegre


Anotação 23
Voltando à nossa narrativa daquela situação complicada, a primeira verdadeiramente complicada. Eu e o Paulo estávamos ilhados no segundo andar do prédio dos bombeiros. Do outro lado da avenida Bento Gonçalves, em cima do Carrefour, estavam o Renan e o Raul, sem saber como nos ajudar. Um pouco mais longe estavam os outros, tentando descobrir o que estava acontecendo.

Tão logo conseguimos bloquear a porta e os monstros já estavam em cima dela tentando entrar. Não sei de onde saíram tantos. Subimos as escadas que iniciavam naquela porta e chegamos aos dormitórios, um peça ampla e desarrumada. Havia sangue seco pelo chão e dois cadáveres em um canto. Eles deviam ter morrido antes de serem infectados. No mais não havia nada que nos interessasse por ali. Pelo que parece ninguém chegou a se refugiar por aqui.

Demos mais uma vasculhada no andar para vermos se havia alguma outra passagem, mas graças à Deus estávamos seguros ali. O Paulo correu para as janelas da frente para tentar ver o pessoal lá no Carrefour, mas mal conseguíamos distinguir os vultos ao longe. De repente ouvimos um forte chiado. Era o rádio que o Renan havia nos dado. O Paulo sabia mais ou menos como usar e rapidamente fizemos o primeiro contato.

Contamos para eles o que havia acontecido e combinamos de nos falarmos depois enquanto pensávamos no que fazer. Iríamos esperar um pouco também para não gastarmos a bateria dos aparelhos, algo muito raro naqueles tempos.

Vasculhamos nossas possíveis saídas e qualquer alternativa que tivéssemos. Não eram nada animadoras. A única passagem para baixo era a mesma entrada que usamos para chegar aqui. Além disso, tínhamos como pular para um telhado vizinho. Para piorar tínhamos de encontrar os encaixes para as mangueiras. Era óbvio que não valia à pena passar por todo aquele perigo e ainda voltar de mãos vazias.

Procuramos pelas peças por todo o lado, mas aquele andar era destinado para convívio e descanso e poucos materiais foram encontrados por ali. De valor encontramos alguns enlatados pela cozinha, pilhas, baterias e medicamentos. Tudo foi para as mochilas, é óbvio.

Quando já estávamos quase perdendo a esperança o Paulo achou as malditas peças. Pelo buraco em que passava o tubo que os bombeiros usavam para descer mais rapidamente vimos várias daquelas peças caídas no chão entre um dos caminhões e a parede. Lógico que junto delas havias um nem sei quantos monstros. Era quase impossível de serem pegas, mas pelo menos às encontramos.

Conversando com o Raul criamos um plano que tinha de dar certo, pois além de servir para pegarmos as peças, teria de servir também para nossa fuga. O Raul fez o mesmo percurso que fizemos por todo o pátio do Carrefour, depois de descer do teto, até chegar à grade que separava o terreno da calçada. Nosso plano era simples. Ele manteria o portão da grade fechado enquanto atiraria no máximo que conseguisse chamando a atenção dos monstros. Nós teríamos de descer, enquanto isso, pegar o maior número de peças e escapar pelas costas dos monstros. Até seria fácil. Depois teríamos que correr para contornar as grade até a rua lateral e entrar pela entrada de automóveis.

Naquele momento foi desanimador. Mas sabíamos que não haviam outras alternativas. E quanto mais tempo esperássemos corríamos o risco de ter cada vez mais zumbis entre nós e os outros. Tinham de ser daquela forma e naquele momento.

Enquanto esperávamos o Raul chegar ao ponto combinado planejamos tudo. Ao som dos primeiros disparos iríamos descer pelo tubo e colocar nas mochilas o máximo de encaixes. De longe pareciam pesados, mas não poderíamos arriscar a levar poucos. Quem sabe quando teríamos uma nova. Prometemos um ao outro de que, se algo desse errado e um de nós ficasse para trás que não voltaríamos bancando o herói. Seria muito melhor perdermos apenas um nós do que dois.

Os minutos até o Raul chegar ao ponto foram longos e dolorosos. Mesmo naquela situação, depois de sobreviver tanto tempo, com relativa segurança e com alguns entes queridos, isolados como estávamos, passava à todo o momento pela nossa cabeça o temor de não conseguir voltar, de fracassar e virar uma daquelas coisas.

O som chiado do rádio com o Raul avisando que estava em posição foi um alívio. Nos colocamos próximos do tubo apenas observando a movimentação dos zumbis abaixo de nós. O Raul deu o primeiro disparo com uma pistola, para cima provavelmente, e as coisas ali embaixo enlouqueceram. Todas começaram a ir para a rua e em poucos segundos não tinham mais nada. Quase que em seguida começamos a escutar disparo atrás de disparo.

Nos jogamos lá para baixo. Conforme íamos descendo e espiando para a rua, nos apavoramos. A situação era muito pior do que imaginávamos. Eram muitos. Uns duzentos, quem sabe mais. Caímos já perto das peças e pegamos o que dava. Pelo peso não consegui pegar mais do que três e o Paulo umas quatro. Teriam de chegar. Mas como quase nunca os planos dão certo, ainda mais num mundo como este, de pernas para o ar, acabamos por ter problemas.

Quando começamos a sair de trás do caminhão para contorná-lo e nos direcionar para a frente da garagem, demos de cara com alguns zumbis retardatários. Eram dez. Não sei porque eles estavam ainda ali, mas logo que nos viram partiram para cima de nós. Tomamos um susto, pois em nossa cabeça o plano era perfeito, como sempre tínhamos feito até agora.

Estávamos com nossas, mas qualquer disparo e iríamos atrair todos de volta. Para sair dali teríamos de usar a boa e velha força bruta. Mas como não havíamos pensado que iríamos ter problemas estávamos desprevenidos. Então tivemos que improvisar. EU corri para cima do caminhão dos bombeiros pela parte traseira enquanto o Paulo recuou até a parede e agarrou um machado. Lá em cima eu peguei um extintor e usei como uma arma improvisada me aproveitando da minha posição e da lentidão deles. O Paulo também fazia bom uso do machado e já haviam três no chão aos seus pés. Parecia fácil, mas um descuido e tudo pode acabar mal. Eu estava tão seguro de mim que não percebi quando dois deles estavam se esgueirando por trás e me pegaram de surpresa. Sorte que o zumbi que me agarrou tinha apenas um braço ou teria acabado muito mal. Eu caí de cima do caminhão com todo o peso da mochila sobre mim. Já na queda perdi meu extintor. Um dos monstros se jogou sobre mim, mas consegui segurar seu pescoço deixando seus dentes longe de mim.

O Paulo tentava em vão passar por outros três, mas eles estavam muito próximos e ele não conseguia manobrar o machado de forma a acertá-los. Naquele desespero vi que mais alguns tiveram sua atenção chamada e começaram a voltar contra nós. Tínhamos alguns segundos apenas e eu não sabia o que fazer.

Por sorte o Paulo conseguiu se desvencilhar dos monstros, embora não os tenha matado, e correu para me ajudar. Num só movimento ele arrancou a cabeça do desgraçado que estava sobre mim. Instintivamente eu me arrastei por debaixo do caminhão com ele logo atrás. Se não fosse por isso teríamos ficado encurralados.

Ao passarmos para o outro lado do caminhão, subimos por sua lateral e o usamos como ponte por entre os zumbis. Saltamos no chão e começamos a correr como loucos. Os disparos do Raul continuavam e vimos que havia uma enorme massa de monstros pressionando desesperadamente as grades para a entrada no pátio do Carrefour. Mas não tínhamos tempo para ficar apreciando a paisagem. Continuamos correndo pela rua seguindo em direção leste. Pelo nosso plano tínhamos apenas que chegar até a próxima esquina e dobrar. Mas mais um imprevisto aconteceu.

Saídos não sei de onde, apareceu do nada um grupo de pessoas. Eram dois homens, uma mulher e uma criança. Eles vinham correndo trazendo sacos e mochilas. Provavelmente haviam sido atraídos pelos disparos e resolveram tentar a sorte. Mas eles não tinham idéia do que estavam fazendo e começaram a disparar achando que estariam nos ajudando. A ajuda acabou por atrair mais monstros, além daqueles que já os estavam perseguindo. Rapidamente foram sendo cercados.

O susto nos deixou estáticos por um instante. Eles gritavam pedindo socorro, mas não tínhamos nem munição suficiente para chegar até eles. Aquilo virou um massacre rapidamente, e não pudemos fazer nada.

Aquela distração acabou por nos deixar também cercados. Eles vinham rapidamente pela frente e por um dos lados. E atrás de nós estavam os zumbis que o Raul havia chamado a atenção. Não teríamos como chegar até a esquina. Nossa única opção era a cerca de barras de metal que delimitava o terreno do hipermercado da rua. Mas do outro lado da cerca, para completar nossos azar, havia um declive de cerca de uns dez metros de altura entre o nível da calçada e o nível do estacionamento. O Raul, quando percebeu o que faríamos, correu para nos dar cobertura.

Jogamos as mochilas por cima da cerca e começamos a pular. Eu, com alguma dificuldade, cheguei do outro lado. O Paulo não teve tanta sorte e caiu do outro lado com o pé torcido. Fomos, ainda assim, escorregando pelo barranco até chegar lá embaixo. Dei apoio para o Paulo enquanto tentávamos chegar novamente ao interior do Carrefour. O Raul se juntou à nos e, apoiando o Paulo pelo outro lado, começamos à avançar com mais rapidez.

O portão que o Raul deixou calçado para que os zumbis não nos alcançasse não resistiu por muito tempo fechado e as coisas começaram a descer rapidamente. Quando alcançamos a entrada e começamos a subir a escada de emergência o estacionamento já estava tomado. Não poderíamos voltar mais por ali, mas pelo menos havíamos pego os encaixes. Agora estávamos verdadeiramente ilhados no Carrefour e, ainda por cima, com o Paulo machucado.

Mas ainda assim tínhamos conseguido os encaixes. E só nos restava esperar para ver o que ele estava aprontado.

Um comentário:

Amon disse...

Adrenalina pura! Gostei muito desse capítulo parabéns. Anciosamente aguardo o próximo. Abraços.