segunda-feira, 6 de junho de 2011

Zumbis em Porto Alegre 24

Zumbis em Porto Alegre



Anotação 24

Depois de toda aquela emoção na busca pelos encaixes das mangueiras, e os perigos que quase me custaram a vida, aquele resto de dia correu muito mais tranqüilo. Os encaixes foram suficientes para as mangueiras que tínhamos e a distância seria facilmente ultrapassada. Era a esperança de termos um fonte de água por algum tempo.

De cima do telhado tentávamos nos comunicar com o Michel que estava com a tarefa de chamar a atenção das coisas. Se o que tínhamos passado até aqui fora difícil, daqui para frente só tenderia a piorar. Os problemas eram dois: levar a mangueira até lá, por cima do muro e atravessando a rua; e antes disso, conseguir sair dali de dentro em segurança.

Estávamos ilhados no Carrefour. Depois da investida até os bombeiros, do outro lado da rua, o pátio de estacionamento, na frente do hipermercado, estava com uma quantidade considerável de zumbis perambulando para lá e para cá. Infelizmente eles não estavam próximos o suficiente para serem atraídos pelos sons provocados pelo Michel e nós, mesmo sendo mais rápidos, não seríamos páreos para seu número.

O bom era que a rua que separava nosso refúgio do hipermercado estava deserta. O Paulo teve a idéia, que acabamos seguindo depois, de tentar abrir o portão de trás e mantermos a possibilidade de voltarmos ali, se necessário. Bem ou mal aquele estacionamento tinha muitas coisas que poderíamos usar, além de veículos. E o melhor – tínhamos limpado os zumbis dali. Nosso único problema é que de onde estávamos, no telhado do Carrefour, conseguíamos ver apenas parte da rua, e nessa parte havia alguns zumbis. Mas não tínhamos uma idéia exata de quantos eram.

Um problema adicional era o tornozelo do Paulo. Seríamos apenas eu, o Raul e o Renan a fazer tudo. Teríamos de limpar o caminho e levar as mangueiras e Paulo até o refúgio. E para completar alguém teria que, depois de todas as mangueiras posicionadas, ligar o registro e só depois sair do pátio do Carrefour, fechando o portão e retornando em segurança. Para piorar estava começando a anoitecer. Parecia piada. Uma piada de extremo mau gosto.

Aprontamos todas as mangueiras, unido-as com os encaixes. Depois deixamos elas conectadas à saída de água, próxima ao muro, e jogamos todo resto para o lado da rua. Essa foi a parte fácil. Tínhamos no máximo uma hora até cair a noite. Enfrentar aquelas coisas à luz do dia era fogo, imagine na penumbra ou na escuridão?

Não pudemos esperar mais. Nos armamos com o que tínhamos. Fiz sinal par ao Michel recomeçar a chamar a atenção dos monstros, pois quanto menos oposição tivéssemos melhor, e nos preparamos perto do portão. Decidimos que eu e o Renan faríamos o trabalho externo, levando a mangueira e o Paulo. Já o Raul seria o responsável por ligar o registro e depois fechar o portão. Não me lembro de como escolhemos o que cada um faria, mas ficou assim.

Eu e o Renan combinamos de ir limpando a frente com nossos bastões e barras de ferro, enquanto o Paulo ia com as armas de fogo. O Renan iria apoiando nosso amigo machucado, um pouco mais atrás, e eu iria na frente.

Respiramos fundo e fomos à carga. Abrimos o portão menor da forma mais silenciosa possível, se é que num mundo sem ninguém isso seria possível. O portão fica bem no meio do caminho entre as duas esquinas da rua que passa por detrás do Carrefour. Com seus mais de três metros de altura de puro metal ele usava um mecanismo elétrico para abrir, mas ele não estava funcionando, não sei se por falha depois de tanto tempo ou se por falta de energia, mas por sorte ele tinha uma porta menor embutida que funcionava para saída de pessoas quando necessário. Esse seria nosso caminho.

Logo de início o ranger das dobradiças, típicos dos filmes de terror, alertou alguns zumbis próximos. Tínhamos de conseguir ir o mais longe possível sem chamar a atenção. E conseguimos, por sorte, eu acho. Eles eram poucos e alguns carros abandonados faziam uma boa proteção para nós. Quando isolados eles não eram páreos para nós, mesmo que sozinhos. Mas em quantidade, a história era outra. Sem usar as armas de fogo conseguimos chegar até a esquina, percorrendo uns bons cem metros e abatendo pelo menos uma dúzia de aberrações.

Logo que chegamos à esquina vimos as mangueiras esparramadas pelo chão, enquanto uma das pontas subia pelo muro. Sobre o muro já estava o Raul nos esperando e com uma cara de aliviado. Entre nós e o edifício haviam mais uns bons cem metros de rua repletos de carros abandonados e batidos. A boa notícia foi que ali não havia nenhum zumbi para que nos preocupássemos. Eles estavam ou entretidos com o alarme do carro com o Michel ou estavam rua abaixo, em direção à avenida Ipiranga.

O problema seria que com tantos carros não poderíamos simplesmente levar a mangueira até lá. Teríamos de colocar ela com jeito para que chegasse sem problema e conseguindo cumprir seu propósito no nosso refúgio. O Renan levou o Paulo até perto do portão e voltou. Conforme foram chegando perto da entrada a Juliana e Dona Sílvia saíram para apoio. O Renan pegou a ponta da mangueira começou a puxar. Era incrível como aquilo era pesado. A Juliana se encarregou de puxar junto com ele enquanto eu ia cuidado para não enroscar. A Aninha estava em cima de um carro, perto do portão, de vigia.

Por mais que tentássemos ser silenciosos o som da mangueira batendo em parachoques e capôs ecoava pelo início da noite.

“- É bom ir rápido, pois a coisa vai esquentar!” – foram as palavras do Paulo apontando para a rua atrás do Carrefour. De onde eu estava não tinha visão de lá e tive que correr até a ponta do muro para ver. Eram muitas daquelas coisas vindo, vagarosamente, mas em quantidade, atraídas pelos sons na noite. Quase ao mesmo tempo a Aninha berrou de cima do carro apontando para a parte baixa da rua. Muitos outros vinham de lá.

Nos apressamos ainda mais. Até mesmo Dona Sílvia estava ali ajudando. Foram longos quase cinco minutos de muito esforço quando a mangueira chegou ao seu destino. Foi o máximo que pudemos fazer.

Tão logo ela estava no lugar e o Raul desapareceu lá de cima para abrir o registro. Um som grave e baixo antecedeu um movimento na mangueira. Ela estava se enchendo de água. A pressão era baixa, pois não havia um motor, apenas a natural força dela saindo da caixa d’água.

Corri para a ponta do muro e fiquei esperando o Raul sair. Embora eles fossem lentos, alguns já haviam passado pela porta e continuavam se encaminhando para o fim da rua. Ou seja, o Paulo ficaria cercado. Quase sem som algum eu percebi quando o Raul abriu a porta no portão e saiu meio que abaixado. Como já disse antes a visão não era o melhor dos sentidos dos zumbis e tentávamos nos aproveitar o máximo disso. Ele ainda se deu ao trabalho de trancar à chave o portão. Eu não tinha idéia do por que ele estava trancando. Quem iria entrar lá? Um ladrão zumbi?

De qualquer forma peguei minha pistola e a barra de ferro e fui abaixado para dar apoio à ele. Quando percebi o Renan e a Juliana também estavam por ali. Ela não era das mais fortes psicologicamente para aquela situação toda, mas nas horas que precisássemos de ajuda ela sempre estava lá, agüentando firme.

O Renan veio junto de mim e a Juliana ficou mais para trás, para não termos nenhuma surpresa pela retaguarda. Mas a coisa saiu de controle rapidamente. Por mais que eles não enxergam bem, ainda assim enxergam um pouco e logo perceberam o Raul. No meio daqueles carros e pela quantidade deles, ele logo ficou cercado e acabou tendo de usar a arma de fogo. Foi como dar o sinal de almoço liberado. Eles pareceram se multiplicar rapidamente obrigando o Raul a subir sobre o capô de um carro deixando pelo menos uma dúzia se abarrotando e tentando subir para pegá-lo.

Como a merda já estava feita usamos também as armas. Pelo menos assim seria mais rápido, e foi, mas chamou mais ainda a atenção deles. Naquela hora todos souberam que estávamos ali. Limpamos uma passagem para o Paulo por onde ele conseguiu chegar até nós bem na hora que o Renan ficou sem munição. Viramos rapidamente e corremos como loucos pegando a Juliana pelo caminho. O Paulo, mesmo com o pé avariado, permaneceu no portão de guarda, junto da Aninha e de Dona Silvia, que já sabiam usar armas. Por sorte a volta foi sem problema. Nosso plano, mesmo com os imprevistos deu muito certo. Mas eu tinha ciência de que ele funcionara muito mais impulsionado pela sorte do que por qualquer outra coisa.

Mesmo tudo dando tão certo tivemos uma nova preocupação e que teve de ser solucionada rapidamente – munição. Acho até que munição deve estar valendo mais que dinheiro e tanto quanto comida. E como estávamos bem de suprimentos, a munição foi nosso próximo alvo.

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