sábado, 20 de agosto de 2011

Zumbis em Porto Alegre - 25

Zumbis em Porto Alegre



Anotação 25
O frio deste inverno continua cada vez pior. Por sorte temos tido que sair pouco neste período. Ficamos os dias sentados em círculo conversando para passar o tempo. Relendo as mesmas revistas e livros pela enésima vez. Todos ao redor de um fogão à lenha que encontramos num dos apartamentos do condomínio ao lado. É só o que podemos fazer. Por sorte não faltam cobertores e com este clima frio qualquer sopa com pouca coisa dentro já esquenta e alimenta. Pelo menos economizamos nossos recursos.

Ficamos nos enganando de que tudo vai melhorar ou que não vai piorar, pelo menos é alguma coisa para pensar. Acho que é esta falsa noção de segurança em que vivemos. Acho que já falei disso antes. Temos sorte da posição em que estamos e de nossa reserva de alimentos estar relativamente cheia, mas quanto tempo ela ainda vai durar? Até jogos de tabuleiro acabamos jogando para passar o tempo. Vocês não imaginam o bem que faz para a sanidade uma bela partida de banco imobiliário.

Às vezes conversamos sobre os próximos passos que teremos de dar. Viajar, procurar um outro lugar, tentar encontrar outros sobreviventes como o pessoal de Curitiba. Mas essas conversas acabam por perder o interesse e acabamos mudando de assunto.

Mas vou deixar de devaneios e vou voltar à minha narrativa.

Tenho tido muito tempo para pensar e repassar cada detalhe de nossa jornada até aqui. Mas não tenho escrito muito nessas últimas semanas. Aquele entusiasmo inicial, depois do contato por rádio com Curitiba, deu uma esfriada. Acho que é natural.

Esta época é bem diferente daquelas primeiras semanas do inferno. O frio destoa daquele calor que tínhamos por todo o início do ano. Não tenho certeza, mas acho que foi uma das piores ondas de calor em anos. E justamente no meio daqueles acontecimentos. O cheiro de pobre era quase insuportável quando colocávamos a cara na rua.

Uma semana depois da nossa aventura para conseguir a água do Carrefour tivemos de sair de novo. Nossas graduais experiências fora de nosso refúgio iam nos ensinando muito. Além de recursos, como água e comida, munição era um bem muito valioso e nosso estoque era baixíssimo. Numa situação crítica não teríamos como enfrentar um grande grupo de zumbis apenas com bastões e barras de ferro.

O local onde estávamos ilhados era muito bem protegido, mas estava longe de qualquer lugar em que pudéssemos conseguir armas ou munição. Claro que o longe, neste mundo em que vivemos é um termo relativo. Qualquer coisa em que se tenha que colocar a cara na rua e andar mais do que uma ou duas quadras era longe quando se tem zumbis como vizinhos.

Tinhamos apenas uma delegacia próximo, na avenida Bento Gonçalves cerca de duas quadras longe do Carrefour. Mas ela era pequena e duvidamos que por lá teríamos alguma sorte. Nossa outra opção foi levantada pelo Raul.

Ele e o Paulo haviam tentado chegar à zona sul, para encontrar parentes, naquele primeiro e fatídico dia. Mas eles não conseguiram chegar nem perto. Tiveram que interromper o caminho e voltaram para nosso ponto de encontro no apartamento da Juliana. Eu já contei isso antes. Neste caminho de volta eles passaram por dois grandes quartéis que ficam também na avenida Bento, o Regimento Osório de Cavalaria e 8º Batalhão Logístico. Nessa passada eles cruzaram por muitos soldados mortos e armamentos deixados para trás e dela trouxeram a maioria das armas que temos hoje. Este teria de ser nosso alvo e foi.

Nosso grande problema era a distância. Até aquele dia nosso mundo se restringia a cerca de duas quadras para cada lado de nossa moradia improvisada. Mas os quartéis ficavam à cerca de um quilômetro de distância, quem sabe um pouco mais. Não tínhamos ideia de como estavam as ruas até lá depois de tanto tempo. Mas teríamos de descobrir e foi o que acabou acontecendo.

Passamos um dia pensando em como fazer e calculando o tempo que iríamos gastar. Uma coisa era certa, o caminho seria feito muito devagar. Qualquer descuido nosso e ficaríamos presos entre uma infinidade de zumbis loucos pela nossa carne. Aquele percurso que num dia normal já fora percorrido por mim em agradáveis caminhadas tomando chimarrão em não mais do que quarenta minutos teria de ser feito em muito mais. Quem sabe em mais de um dia.

Com o Paulo com o pé ainda doendo um bocado ele estava de fora do grupo que sairia. Decidimos por irem eu, o Raul, o Michel e o Renan. Se algo desse errado o Paulo teria condições de cuidar do grupo, mas não queríamos pensar nesta possibilidade.

Deixamos tudo pronto para a manhã seguinte. Levaríamos o que desse de munição. Levaríamos as pistolas, por serem mais leves e fáceis de usar e o Raul iria com seu fuzil até para termos uma ideia do que pegar de munição. Além disso, levaríamos alguma comida para se tivéssemos de passar mais de um dia fora. Pegamos um walktalk, mas combinamos de só nos falarmos quando nós chamássemos, pois um erro e eles serviriam mais para denunciar nossa posição e nos colocar em apuros. Fora isso levamos apenas algumas mochilas extras.

Aquela noite foi longa. Eu via nos olhos da Juliana que ela não aprovava aquela loucura, mas que ao mesmo tempo sabia da importância de fazermos aquilo. Naquela noite exageramos um pouco na janta e fizemos uma boa e suculenta sopa com bastante carne congelada. Embora tivéssemos alguns freezers improvisados graças aos conhecimentos de eletrônica do Raul e do Paulo, sabíamos que a comida ali não tinha validade eterna. Ela teria de ser usada mesmo, pois logo acabaria estragando.

Uma garrafa de vinho brindou nossa sorte e ajudou a chamar o sono. Aproveitamos aqueles momentos como se realmente nunca mais fossemos nos ver.

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