domingo, 4 de setembro de 2011

Zumbis em Porto Alegre - 26

Zumbis em Porto Alegre


Anotação 26
Na manhã seguinte partimos cedo. Por mais que o percurso fosse curto, essas noções de tempo não cabiam mais em nossa realidade. Os passos cuidadosos que tínhamos de tomar nos obrigavam à uma lentidão segura. Então sair cedo era o mais lógico.

Por mais que não disséssemos eu e a Juliana tivemos uma noite de despedida. Não iríamos confessar e não o fizemos naquela manhã, mas tínhamos certeza das poucas chances de retorno de nossa missão fora do refúgio.

Nós quatro – eu, Raul, Michel e Renan – tomamos um café da manhã reforçado. Pão era o que não faltava já que tínhamos uma boa reserva de farinha e que ela deveria ser usada rápido, pois logo estaria estragando. Pena que leite era um requinte que à muito estava sumido, nos restando o bom e velho café preto.

Com todo o material e armas prontos de véspera podemos sair rapidamente. Sem despedidas, sem choros, sem nada. Já foi duro demais sair do refúgio na incerteza da volta, não precisávamos de mais lamentação.

Como de costume fomos por cima dos telhados das casas que estavam nos fundos do condomínio ao lado de nosso refúgio Até chegar à outra rua. Nas últimas semanas fomos limpando a quadra terreno à terreno. Quanto maior fosse a nossa área de proteção melhor para nós. Então tínhamos pelo menos uma certa segurança dentro de nossa quadra. Depois disso foi por nossa conta.

Descemos no pátio de uma das últimas casas que ‘limpamos’ nos últimos dias. Ela ficava numa esquina e embora estivesse vazia naquela ocasião deixamos todos os cômodos verificados e pegamos tudo o que pudesse ser útil. Então estávamos tranqüilos e seguros até ali.

No cruzamento à nossa frente tínhamos zumbis espalhados, mas em pouca quantidade. Decidimos passar sem chamar a atenção e sem atacá-los. Qualquer descuido e estaríamos cercados em dois tempos. Decidimos naquela hora ir pela rua pois entrar em áreas fechadas como as casas naquela quadra nos tomaria muito tempo, e isso era algo que não poderíamos desperdiçar.

Passamos pelo portão em fila indiana e agachados. Cada carro abandonado na rua, que não eram muitos, era usado como proteção. O comprimento da rua era outro problema. Ela devia ter uns duzentos metros sem nenhuma rua transversal e com casas bem gradeadas, o que dificultaria muito a nossa fuga por ali, se fosse necessário.

De qualquer forma o caminho foi feito até que rápido e sem nenhuma surpresa. Isso foi ótimo e nos deixou com reais expectativas de que tudo iria correr às mil maravilhas. Quando planejamos tudo achávamos que teríamos de acabar com muitos zumbis pelo caminho e em certos momentos até cogitávamos se conseguiríamos ir longe. Mas tudo estava correndo bem.

Quando chegamos à esquina com rua Cristiano Fisher pudemos ver o muro da centro tecnológico da Puc. Ali começaria a segunda parte de nossa jornada, atravessar o campus de uma das maiores universidades do Brasil.

O Raul fez uma chamada rápida pelo walktalk avisando que tudo estava bem e seguimos caminho. Descemos a rua alguns metros até chegar à um portão aberto. Naquele espaço não haviam muitos carros abandonados ou parados. Era a típica rua deserta. Do portão tínhamos uma visão de uma muito pequena parcela do campus. Para quem o conhece sabe como é fácil de nos perdermos por lá, além dele ser muito extenso. E tínhamos de cortá-lo de ponta à ponta.

De onde estávamos conseguimos perceber que haviam muito mais zumbi lá dentro do que pensamos. Mas teria e teve de ser por ali. Percorrer ruas como àquelas que usamos para chegar ali era uma coisa, mas percorrer uma grande avenida, como a Bento Gonçalves, poderia parecer o mais lógico, mas também era o mais mortal. Pelo menos ali dentro do campus teríamos mais proteção.

Para iniciar a caminhada deixamos o Raul na retaguarda com o fuzil engatilhado e pronto para emergências. O resto de nós foi com suas barras de ferro prontas. O primeiro recurso seria tentar manter o silêncio. E usar o recurso da arma apenas quando não tivéssemos mais o que fazer.

Os primeiro quinhentos metros foram tranqüilos. Matamos uns cinco ou seis zumbis, o que significou que não tivemos grandes surpresas. Mas as coisas forma se complicando progressivamente. Tivemos de trocar de caminho por mais de uma vez, alongando muito nosso percurso. Por duas ou três vezes quase tivemos de usar o fuzil até que em determinado momento tivemos de entrar num prédio, a última das seis construções que ficam naquela alameda ate de chegarmos ao pátio do colégio Champagna dentro da universidade, para nos refugiarmos de um grupo muito grande de zumbis que perambulava como quem passeia pelo pátio. Nisso já era quase meio dia.

Olhando pela janela poderíamos jurar que era um dia normal dentro da universidade. Ela estava quase intacta, o que aumentava ainda mais a aparência de normalidade. Os zumbis ali não eram necessariamente universitários. As aulas em todas as instituições foram canceladas mais de uma semana antes de tudo sair do controle. Só em filme mesmo que as aulas estão acontecendo e os zumbis estão correndo pelo corredor.

De qualquer forma aproveitamos para comer algo rapidamente e continuar nossa jornada. O prédio, como a maior parte do campus, estava sem energia e este era mais um estímulo para irmos rápido. Pelo que percebemos a rede elétrica tinha seus altos e baixos mesmo depois de tanto tempo. No nosso refúgio a luz era muito inconstante. Não sei por qual motivo, mas passávamos muitas vezes dias sem energia, e de repente ela voltava. Passar a noite às escuras e cercado estava fora de nossos planos, então não nos demoramos muito.

Passar pelo pátio co colégio marista que fica dentro da universidade poderia ter sido a parte mais fácil. Ele estava visivelmente fechado desde muito antes da eclosão do horror. Por esta noção acabamos nos descuidando. Baixamos a guarda e enquanto percorríamos o pátio quase não percebemos que haviam zumbis por ali.

Pelo menos uns seis estavam num dos cantos do pátio. Estávamos tão distraídos que nem os percebemos e quando nos demos conta quase foi tarde. Eles partiram para cima de nós quando estávamos à cerca de cinco metros deles. Seis era um número pequeno ela sua velocidade, mas tão de perto era um perigo real. O primeiro deles conseguiu agarrar a jaqueta do Renan e quase lhe cravou os dentes. Por sorte ele girou o corpo e se livrou da vestimenta deixando o monstro com ela. O Raul infelizmente, com o susto, se esqueceu de nossa maior necessidade – o silêncio – e disparou seu fuzil na cabeça do zumbi que caiu inerte espalhando pedaços de cérebro e sangue mal cheiroso para todo o lado. Nem percebemos o erro e acabamos com o resto com as barras de ferro.

Ainda estávamos nos vangloriando de termos escapado e brincando com o fato do Renan quase ter sido pego quando o som crescente de passos chamou nossa atenção. O próprio Raul disse baixinho como quem se desculpa - “o disparo!!” – e nos viramos para o portão que separava o pátio da escola da universidade e tivemos a medida exata do tamanho do erro.

Muitos zumbis chegavam por ali, nem tenho ideia de quantos, e entravam no pátio pelo portão escancarado. Mal tivemos tempo para correr para o prédio principal e trancar a porta. As entradas eram muitas e todas estavam abertas de modo que aquela porta principal não iria segurar eles por muito tempo. Alguns instantes depois e os primeiros zumbis já estavam chegando nas outras portas e janelas.

Não tínhamos para onde ir e nossa única alternativa foi correr para o primeiro andar. Quando alcançamos o segundo pavimento os monstros já estavam no saguão do andar de baixo e começando a subir as escadas. Nos enfiamos na primeira sala que estava aberta e aparentava ser segura. Quando terminamos de fazer uma barricada na porta eles começaram a forçá-la.

O que estava sendo tranqüilo virou horror.

2 comentários:

Lukas = Yamakusa = disse...

Opa, ta animando hein? Agora mantém o ritmo das postagens pra história continuar esquentando =D

João Brasil disse...

Com certeza ele terá sua regularidade novamente!!!!