quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Zumbis em Porto Alegre - 27

Zumbis em Porto Alegre



Anotação 27
Com tudo isso que aconteceu e acontece o tempo perde um pouco a sua função. O contamos por muitas razões. Compromissos, aniversários, férias, pagamento e qualquer outra coisa que tenha interesse para nós. Num mundo vazio como este os interesses que temos se resumem a comer, dormir e viver. Neste caso a contagem do tempo é apenas uma tortura. A cada hora nos lembramos apenas que ou temos uma hora menos de vida, ou que estamos uma hora mais distante do início daquele horror.

Eu tenho contado o tempo apenas como uma forma de satisfazer a curiosidade mórbida de quanto tempo até mais um morrer, quanto tempo até os recursos acabarem, quanto tempo até termos algum problema insolucionável.

O tempo não existe mais.

Vamos continuar com a narração daquele horrível momento em que estávamos cercados dentro do colégio Champagnat. Logo depois de fecharmos a porta os zumbis chegaram. Era uma burrice ficarmos cercados dentro de uma sala num segundo andar, mas havia sido nossa única alternativa.

A sala não tinha mais do que uns vinte metros quadrados. Era uma sala de aula pequena com algumas carteiras escolares e cadeiras. Duas janelas davam para o pátio interno que acabáramos de passar.

Todos ficamos em silêncio por algum tempo. Não havia nada para ser dito. Apenas nos entreolhávamos com o som daquelas coisas batendo na porta. Quanto mais os monstros batiam, mais outros zumbis eram atraídos. Sabíamos que ela não duraria para sempre.

O Michel foi quem quebrou o silêncio com uma idéia maluca. Ele disse que poderíamos ir pelo parapeito até a sala do lado e dali contornarmos os monstros. Nenhum de nós levou muito à sério a sugestão dele. Parecia loucura num momento como aquele. Era algo muito cinematográfico.

Mas ele foi enfático – “essa era a minha escola até esse horror começar, então se alguém quer sobreviver é bom acreditar em mim!”

Aquilo foi o suficiente para mim. O Michel, e o Jonas, embora novos, tinham idéias que normalmente funcionavam muito bem e num mundo de pernas para o ar como este, só idéias mirabolantes mesmo para darem certo.

Corri com ele para a janela e depois de vermos a condição do parapeito ele pulou para fora com uma certa maestria e se esgueirou de uma janela para outra. Ele pulou para dentro da sala de aula vizinha e sumiu por alguns instantes. Quando reapareceu estava com um largo sorriso no rosto fazendo sinal de positivo.

Olhei para o Renan e para o Raul e disse que a barra estava limpa. Passei rápido para a outra sala embora tivesse um grande medo de altura. O vão por onde tivemos de andar não tinhas mais do que um palmo e a distância até a outra janela era de quase três metros. Depois de passarmos os quatro o Michel nos fez repetir o processo mais duas vezes para outras salas, nos afastando bastante dos monstros. Ele nos contou que cansou de fazer isso na época de colégio brincando com os colegas, fugindo de professores ou para namorar escondido. Ás vezes, naquele inferno, me esquecia que ele era pouco mais do que uma criança.

Tínhamos uma parte do problema resolvido. Ainda teríamos de sair do prédio. E para isso teríamos apenas duas alternativas. Ou íamos pelo corredor enfrentando uns não sei quantos monstros ou descíamos pela janela sobre um telhadinho perto de onde estávamos enfrentando a altura. A segunda opção pareceu a menos suicida.

Os sons eram assustadores. O prédio parecia estar lotado. O som dos passos e grunhidos dos zumbis ecoavam deixando o ambiente ainda mais mórbido. O tempo era nosso maior inimigo. Quanto mais ficássemos ali, menores seriam nossas chances de sair com vida, além de que a noite seria um transtorno ainda maior.

O Michel foi primeiro. Isso ele nunca havia tentado descer dali e mesmo ele estava muito apavorado com aquilo. Ele se pendurou no vão por onde caminhamos, com a nossa ajuda, e chegou ao telhadinho com uma pequena queda. Logo depois todos nós fizemos o mesmo movimento. Dali percebemos que o caminhos estava quase todo livre, pois com aquela confusão toda muitos zumbis haviam saído da rua e se socado no prédio. Isso foi uma ótima chance para escaparmos e não a desperdiçamos.

Fizemos o mínimo de barulho possível e descemos do telhado dentro do pátio interno da escola, bem perto portão de saída para o estacionamento da PUC. Os zumbis por ali eram poucos e conseguimos dar cabo deles com muita facilidade e silêncio, mas o tempo era curto e teríamos, depois daquela interrupção forçada, de sermos ainda mais rápidos se quiséssemos fazer tudo e voltar antes do anoitecer.

Fomos em direção à Biblioteca da universidade e entramos à esquerda na via que ia na direção do prédio da Informática. Dalí seriam mais uns quinhentos metros por entre prédios e chegaríamos ao prédio 40 e aonde ficava o museu da PUC. Ali era o final do terreno da universidade e estaríamos na metade do caminho até os quartéis.

Mas conforme íamos nos aproximando do prédio 40, aumentava muito a quantidade de zumbis. Infelizmente de onde estávamos só nos restava avançar e foi o que fizemos. Com nossos bastões e barras de ferro em ação fomos atacando todos que apareciam tentando não ter de usar as armas de fogo.

Então mais uma dessas coisas inevitáveis, ou impossíveis, aconteceu. Muito rapidamente, correndo por entre os zumbis, surgiram alguns cães, uns dez. Pelo menos achávamos isso, mas era alguma outra coisa. Eram cães na aparência, mas com um comportamento muito diferente. Eles corriam como loucos, latindo com extrema raiva, mirando-nos. Pela rapidez e pelo visual tínhamos certeza que não eram zumbis.

Hoje sabemos que eram cães normais que acabaram sendo afetados pela carne daquelas coisas que eles acabavam comendo na falta de outra coisa. Isso não os transformava em zumbis, mas os deixava fora de si. Por sorte acontecia com poucos, pois muitos morriam após comerem. De qualquer forma não íamos ficar divagando numa hora como aquela. Apenas a imagem deles correndo em nossa direção nos fez correr como loucos em direção á porta lateral do prédio 40.

Quando nos aproximamos da curta escadaria que muitas vezes eu já havia subido para ir aos eventos acadêmicos da universidade percebemos que havia uma barricada improvisada bloqueando parcialmente a porta. Os cães estavam à uns poucos cinqüenta metros de nós quando chegamos à base da escadaria e quando demos por nós os tiros começaram. Foram seis disparos espaçados e com som baixo e abafado. Eles foram efetuados da barricada por frestas que quase não percebemos. Foram seis disparos certeiros nos deixando apenas quatro deles para dar cabo com as barras de ferro. Lógico que toda aquela atividade começou a chamar a atenção dos zumbis que aos poucos já iam se virando para nosso lado e começavam sua caminhada até nós.

Começamos a subir a escada enquanto eu falava – “Valeu cara... acho que não teríamos chance contra tantos cães! Muito obrigado!”

“- Obrigado nada... pode dar meia volta e saiam a daqui rapidinho!”

“- Como assim!?” – nós havíamos sido pegos de surpresa.

“- EU DISSE PARADOS AÍ OU A PRÓXIMA BALA SERÁ EM VOCÊS!” – ele ameaçou sem mostrar o rosto.

Em seguida mais dois canos surgiram de outras aberturas mostrando que haviam mais ali dentro.

“- Só queremos descansar um pouco e continuamos nossa caminhada... Tem muito zumbi vindo para cá! Vocês têm muito espaço aí dentro!”

“- É o mesmo que nos disseram os outros!!! Nada feito... sigam seu rumo e é bom irem rápido que eles estão chegando!”

Me virei e vi que haviam uma massa de monstros se dirigindo para onde estávamos. Era inútil ficarmos ali discutindo. Tivemos de ser práticos. O Michel deu uma olhada em volta e apontou para o estacionamento nos fundos do prédio 40, em direção à avenida Bento Gonçalves. Essa seria, e foi, nossa rota de fuga da PUC.

Pelo menos ainda continuávamos na direção certa.

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