domingo, 8 de janeiro de 2012

Zumbis em Porto Alegre - 28


Zumbis  em Porto Alegre


Anotação 28
O início do inverno tem sido rigoroso e tenho tido pouca disposição para escrever. Nem sei por que hoje resolvi pegar a caneta e o diário. Acho que é efeito do vinho que estava à muito tempo guardado num canto e que resolvi abrir. Todos resolveram descansar um pouco então aproveitei para rabiscar aqui e continuar contando nossa ida até os quartéis naquele fim de verão.

A temperatura, mesmo no final de verão por aqui é escaldante. Nunca entendi esses altos e baixos da temperatura por essas terras gaúchas. Era capaz de amanhecer com menos de dez graus e no meio da tarde chegar à mais de trinta.

E nós quatro estávamos sentindo muito bem esses efeitos. O peito doía e o suor escorria por nossos rostos em quantidade. Estávamos com um problemão. Chegar aos quartéis furtivamente, passando por centenas de zumbis, escolhendo o caminho com cuidado, parando para descansar, era uma coisa. Agora, fazer isso com essa centena em nosso encalço, correndo como loucos, sem ter como parar para tomar um fôlego, era muito diferente.

Contornamos o prédio 40 e começamos a cruzar o estacionamento da PUC. Eram poucos os carros parados ali, o que facilitou muito nossa fuga. De onde estávamos tínhamos duas alternativas. Ou iríamos para a avenida Bento Gonçalves, onde estava a saída do estacionamento, mas com muitos zumbis, ou íamos para a parte lateral e pulávamos o muro. O Michel, que corria na frente, acabou decidindo por nós e correu para o muro. Não era muito alto e com um pouco de ajuda uns dos outros conseguimos pulá-lo muito antes dos zumbis nos alcançarem.

Estávamos numa estreita viela que separava o terreno da universidade de um pequeno posto da Brigada Militar de Porto Alegre, o Batalhão ambiental e uma vila. Esta pequena viela ligava a Bento Gonçalves com a avenida Ipiranga. Paramos por um minuto discutindo qual o rumo deveríamos seguir. Ir pela viela para um lado ou para outro seria muito perigoso demais, pois as rotas de fuga eram em menor número, além de que corríamos o grande risco de encontrar mais zumbis por ali. Decidimos pular o muro para o terreno da Brigada e cortar caminho, como era nosso plano original. Além de que ali poderia haver algo de útil para nós.

Pulamos rapidamente bem atrás de um prédio comprido. Fomos até a beirada para verificar as condições do terreno. De onde estávamos tínhamos uma boa visão da área interna e de sua saída para a Bento Gonçalves.

A visão não foinada animadora. Havia uma barricada semi-destruida no portão de entrada. Eles devem ter tentado realizar um refúgio no quartel, mas não deve ter dado certo. Muitos corpos carbonizados estavam espalhados por vários cantos. Era macabro, embora fosse um alívio sabermos que aqueles ali não iriam correr atrás de nós. Duas viaturas queimadas estavam encostadas em um dos prédios, do outro lado do pátio interno, igualmente queimado. O único prédio inteiro era onde estávamos.

Resolvemos entrar e tentar resgatar algo. Michel e Renan foram verificar um dos lados e eu e o Raul o outro. Como estava tudo limpo resolvemos entrar pelos dois lados. Eu cheguei perto da porta mais próxima de nós e espiei para dentro. Ela estava entreaberta, mas coberta de manchas de sangue seco e enegrecido. A saleta de entrada, algo como uma recepção, estava desarrumada e com móveis virados, mas felizmente vazia. Depois de entrarmos verificamos cômodo por cômodo e não encontramos nenhum dos monstros. O Renan e o Michel fizeram a mesma coisa e não encontraram nada até que nos acharam.

Conseguimos pouca coisa útil ali - um pouco de munição, duas armas perdidas pelo chão, pilhas e umas barras de cereal que usamos como almoço. Havia ali uma barraca de campanha num tamanho razoável, mas que não nos permitia carregar com facilidade. Deixamos ela num canto próximo da entrada para tentar levar quando retornássemos.

O que nos chamou a atenção foi a sala de comando dali. Havia muitos mapas com anotações e emails espalhados pelas mesas. As notícias que encontramos não foram nanda animadoras. Nos primeiros quatro dias depois que as coisas pioraram praticamente todas as principais cidades do Brasil tinham focos de zumbis se espalhando rapidamente. Nas capitais as coisas eram piores devido à grande massa populacional. Todas as iniciativas das forças armadas se mostraram inúteis e barreiras não foram o suficiente para frear o avanço daquelas coisas.

Alguns campos de refugiados haviam sido preparados próximo de aeroportos, mas a maioria foi, um a um, sendo invadida e desocupada. Alguns dias depois, segundo os emails, já tínhamos um vácuo de poder no Brasil. Contatos com representantes estavam cortados desde que Brasília houvera caído. Uma missão de resgate havia sido programada pela aeronáutica, para chegar ao Palácio do Planalto, mas pelo visto não teve resposta.

Ao que parece eles duraram, entrincheirados naquele quartel um bom tempo, pois havia emails de quase três semanas depois que o inferno começou. Não sei como eles conseguiram manter algo tão frágil quanto o sinal de internet funcionando por tanto tempo, mas tinham conseguido.

Os mapas espalhado mostravam a área de Porto Alegre e o avanço dos monstros. Toda a área sul e norte da cidade foram as primeiras a serem infestadas, depois o centro e o bairro Partenon, justamente as zonas mais populosas. Todas as pontes que atravessam o Ipiranga foram dinamitadas, à exceção da ponte da avenida João Pessoa e da avenida Padre Cacique. Isso seria um problema se tivéssemos de ir para a zona norte da cidade, mas não nos preocupamos com aquilo naquele momento. Juntamos os mapas e anotações. Eles poderiam ser úteis em algum momento.

Como tudo estava tranqüilo e relativamente seguro resolvemos realizar o primeiro contato via rádio com o pessoal que ficou em nosso refúgio. Era o primeiro contato desde que havíamos sápido.

Deu para escutar a festa que eles fizeram quando receberam nosso chamado. Numa situação incerta e perigosa como esta, tanto tempo sem manter contato, já os havia deixado preocupados. Todos conversamos rapidamente. Foi bom escutar a voz da Juliana de novo.

A conversa não durou muito, pois estávamos ainda longe de terminar nossa missão e o tempo não parava.

4 comentários:

Amon disse...

Meu caro, gosto bastante de ler esta história e o único problema dela é que os intervalos de uma para a outra são enormes. Me agradaria que fosse semanal, mas quizenal seria mais folgado e espaçoso para você... Falo como um fã de sua história, mas entendo que deves ter outros afazeres. Mas a continuidade é algo essêncial e menos penoso para os leitores :-).
Continue com o bom trabalho aqui e em seu blogue.
Abraços.

Anônimo disse...

Bem... Já fazem uns meses que escrevi aqui e cá estou eu novamente em alguns dias fará 6 meses desde sua última pastagem aqui, mas contínuo na esperança que possas superar os desafios diários e continuar está história tão bacana.
Abraços.
Amon

João Brasil disse...

Estou preparando material em quantidade para poder lançar regularmente...... Não se preocupem que não esqueci do projeto!!!

Anônimo disse...

Que ótima notícia. Estou no aguardo!