domingo, 12 de fevereiro de 2012

Contos da Confraria: Fortão, o gato aventureiro 01

Fortão, o gato aventureiro



Capítulo 1

Antes de mais nada vamos deixar claro. Fortão é um gato. Sim, um gato. Um felino com quatro patas, uma cauda irrequieta e com a costumeira mania de miar e ronronar. Embora muitas vezes ele próprio não perceba isso nasceu gato e morrerá gato. Abençoado pela divindade dos animais, Allihanna, ele tem todas as peculiaridades de sua espécie. Dorme em rompantes de exagero, não dispensa um bom bocado de leite e possui uma personalidade muito forte, embora não venha daí seu nome.

Com todas essas características, típicas dos seus, ele arranjou uma apenas dele. Ele participa de um grupo de aventureiros. Muito embora o grupo tenha certeza que ‘aquele’ felino os segue por serem seus donos, Fortão tem certeza de que é mais um membro daquela trupe e que possui uma função muito específica em cada missão.

Anos atrás, como ele mesmo gosta de recordar ou comentar com seus conhecidos, fora abandonado na vida dura das ruas de Malpetrin, cidade que divide seu dia a dia entre o comércio e aventuras. Aprendeu em seus longos meses de infância que a vida não era fácil e que para conquistar o leite de cada dia teria de superar obstáculos com a criatividade felina típica dos gatos de rua.

Sempre que possível acompanhou os gatos mais velhos e até mesmo cachorros, embora nunca confesse isso à ninguém, para aprender como escapar de enrascadas ou como se portar em combates.

Outra de suas atividades preferidas era passar horas ao sol sobre os barris do porto. Qualquer desavisado poderia jurar que aquele era o gato mais vadio daquela cidade. Mas na verdade ele passava horas cuidando os navios que aportavam analisando quem chegava ou partia, procurando boas oportunidades, lícitas ou não, e muitas vezes, sonhando ele mesmo em estar num daquelas embarcações perseguindo alguma aventura.

Mas sua vida realmente mudou quando algo aconteceu em sua taverna. Sim, sua. Gatos, como muitos já devem saber acham que são donos de tudo. Entram e saem quando bem entendem, comem quando desejam e são capazes de rejeitar o melhor atum se ele simplesmente não estiver com vontade de agradar. Então sim, a taverna “Enguia da Costa” era dele. Ela era pequena e ele gostava dela principalmente por isso.

A janela da cozinha era sua porta de entrada e sempre que passava por ali não dispensava um rápido dejejum jogado por Thuragar, o cozinheiro. Preferia peixe fresco, mas também se contentava com salames e tiras de carne. A Enguia da Costa era gerenciada por Hernus, irmão de Thuragar, que como o irmão apreciava muito a presença do felino. Sempre que o via fazia questão de brincar com o amigo de quatro patas realizando uma cordial e engraçada saudação. “Bem vindo, meu senhor de cauda peluda” – dizia ele ao gato – “espero que esteja bem nesta linda manhã, meu senhor!”. Isso ajudava Fortão à realmente achar que aquele estabelecimento lhe pertencia.

Mas voltando á história. A vida de Fortão mudou quando algo de surpreendente aconteceu em sua taverna numa bela manhã em plena estação das flores. Como de costume Fortão estava deitado ao sol após um longa noite perambulando por entre os telhados com outros gatos. Ele estava deitado em seu em seu lugar habitual, sobre o parapeito da lareira perto da janela, estrategicamente na linha do sol. A taverna estava cheia, pois era uma época de comércio intenso. Isso garantia bons lucros para Hernus e Thuragar, e muito mais leite e lascas de salame para Fortão.

O porto não descansava dia e noite nesta época e a taverna tinha seu espaço disputado por aventureiros e comerciantes que entravam e saiam à todo o minuto. Algumas vezes os irmãos até tiveram que contratar um ajudante, mas ainda não nesta estação. Naquela manhã todos os espaços, mesas, bancos e cadeiras da taverna estavam ocupados. Fortão estava despreocupadamente descansando em seu lugar preferido quando notou uma conversa animada em uma mesa próxima. Um grupo de aventureiros brincavam uns com os outros com relação à última empreitada da qual haviam retornado. Fortão não dispensava uma boa história, principalmente de aventureiros recém chegados. Ele se ajeitou numa bela espreguiçada, esticando as patas e espichando o corpo sobre o beiral da lareira, e sentou com um ar de total atenção, entre uma lambida e outra, é claro. As conversas de aventureiros sempre o interessavam. Podia ficar horas escutando as aventuras e imaginando como seriam as suas, que um dia ele sabia que aconteceriam.

Ele começou a lamber o próprio pêlo enquanto mantinha as orelhas atentas à conversa da mesa. Um anão bonachão de barba ruiva lambuzava seu bigode com espuma de cerveja enquanto gargalhava quase caindo de sua cadeira. O motivo da reação dele eram os comentários que outro sujeito, esguio e com um sorriso de canto de boca malicioso, fazia tentando incomodar um terceiro, muito forte e mal-encarado.

A conversa era sobre como o grandão havia vergonhosamente caído na conversa de um mercador halfing, lá pelos lados de Hongari, e comprado uma espada dita mágica por uma generosa quantidade de moedas de ouro. Mas na verdade o tido instrumento parecia não deixar de ser uma simples espada quase sem fio e deveras velha. O grandão tentava se justificar dizendo que ele acreditava que a espada ainda daria a prova de seu real valor. Mas quanto mais ele se justificava, mais ele provocava risos nos outros dois companheiros.

Cochilando, numa quarta cadeira, estava um elfo completamente bêbado, algo que Fortão jurava nunca ter presenciado. O elfo estava atirado em seu canto tentando manter os olhos aberto com grande dificuldade o que significava que a ressaca estava em plena atividade e que a noite anterior havia sido longa e agitada.

Fortão terminou seu banho e parou na beirada completamente absorto pelo assunto. Pelo visto o grupo havia retornado de uma aventura de alguns meses pela costa leste de Arton e seus ganhos haviam sido consideráveis, além de algumas cicatrizes. Seu retorno para Malpetrim era devido à uma dívida que haviam contraído e que estavam preste a pagar.

O assunto estava tão empolgante que o grupo não percebeu quando algumas figuras suspeitas entraram pela porta e foram se espalharam por entre os clientes. Fortão era um bichano tarimbado e nunca deixava de notar nada, principalmente me ‘sua’ taverna. Ele já havia presenciado coisas demais em seus longos dois anos de vida e percebia no ar quando algo estava para acontecer.

Seus donos também haviam percebido algo de estranho nas figuras. Homens de longa data no mundo dos negócios de bebidas esta era uma característica essencial para se manterem vivo num ambiente desses. Hernus e Thuragar se posicionaram em locais estratégicos atrás do balcão e aguardaram, sem se intrometerem, outra característica importante para se manterem vivo.

Fortão ficou com o pelo eriçado quando um dos estranhos se apoiou na lareira simulando estar apreciando o movimento, logo atrás do elfo bêbado. O felino achava que tinha um instinto especial para perceber problemas e se afastou ao máximo do sujeito e aos poucos percebeu a real situação.

O foco era a mesa dos aventureiros da qual Fortão estava apreciando a conversa. Cada um dos estranhos estava estrategicamente colocado ao redor da mesa. O gato não entendia como nenhum dos quatro aventureiros não haviam se dado conta disso. “Que aventureiros de araque eles são?” – perguntou a si mesmo.

Isso não cheirava bem e o gato pensou se deveria ou não intervir. Estava decidindo quando notou que o homem atrás do elfo sutilmente desembainhara um longa adaga de metal muito brilhoso. Seria um golpe rápido e traiçoeiro.

“Na minha taverna não!” – ele pensou.

Quando o estranho movimentou-se para apunhalar o elfo, sem chances para uma reação, Fortão se jogou num pulo acrobático sobre a cabeça do atacante. O gesto do gato surpreendeu tanto os aventureiros como os estranhos. Com as garras de quatro patas fortemente presas em sua cabeça o traiçoeiro atacante deixou a adaga cair aos seus pés, fazendo o grupo de aventureiros perceber o problema e a real situação.

O momento de distração atrasou a reação dos companheiros encapuzados, mas não muito. Eles puxaram espadas e adagas e partiram para a luta. Eram pelo menos uns sete e a vantagem numérica era evidente.

A confusão na taverna foi instalada e todos corriam para todos os lados para dar espaço para a luta. Fortão permaneceu preso ao seu alvo que se debatia desesperadamente. Quem já foi arranhado por um gato sabe o porquê do desespero.

Aquele grupo era experiente e logo conseguiu reverter a desvantagem, deixando todos os seus opositores no chão. Restou apenas o infeliz na mão de Fortão. O bichano percebeu que todos os quatro aventureiros estavam ao seu redor observando divertidamente o desespero do remanescente do grupo de agressores.

“- Essa eu não acreditariam nem que me contassem mil vezes!” – ria o anão apoiando um dos pés sobre um corpo estatelado no chão.

“- A bebida me afetou ou estamos lutando igual à gatos?” – disse o elfo tentando manter os olhos abertos.

“- Tenha respeito por ele Allyohnas... esse gato salvou sua vida!” – reclamou o grandão com uma pesada placa de metal fazendo as vias de peitoral. Ele mesmo segurou o pescoço do infeliz com uma mão enquanto coma  outra pegou o gato pelo cangote de forma muito delicada – “obrigado nobre felino ... sua ajuda foi deveras oportuna!”

Fortão estava extasiado. Aquela havia sido sua primeira luta contra um humano e ele havia se saído muito melhor do que poderia imaginar. Até mesmo recebeu um elogio de um dos aventureiros. Ele estava em graças.

O grandão o colocara no parapeito da lareira, bem no lugar de onde pulara para sua investida. Em seguida, num movimento rápido e violento, forçou o infeliz, que estava preso por sua outra mão, de encontro a mesma lareira. O coitado estava com os olhos arregalados, além do rosto todo arranhado.

“- O que vocês queriam conosco?” – gritou o grandão.

“- Vá se ferrar aberração de músculos!”

“- Ora ... ele é corajoso! O que vamos fazer com ele?” – perguntou divertidamente o guerreiro enorme – “quem se habilita?”

Fortão se avançou com um olhar raivoso para o estranho provocando risos de todos.

“- Acho que vamos te devolver para o gato!” – ele disse rindo.

“- Não... o gato não! Eu conto tudo!” – suplicava o único atacante ainda de pé.

Depois de alguns minutos tudo estava acabado e o infeliz estava desacordado após responder à todas as questões dos aventureiros. Fortão havia sido levado por Hernus e Thuragar, em grande festa, para a cozinha e tinha à sua frente uma enorme tigela de leite. Os irmãos comentavam com alguns clientes que estavam ali das qualidades e humores do gato e de como ele havia se portado na luta salvando a vida do elfo. Fortão estava se sentindo nas nuvens.

“- Esse gato tem mais culhões que muito homem por esta cidade!” – gritou o anão entrando na cozinha – “muito obrigado meu senhor!” – ele disse fazendo uma reverência.

O elfo se sentou ao lado do gato e sua tigela e passou a mão pelas costas do bichano. Fortão, como qualquer gato, adorava isso e começou a ronronar, mesmo que desejasse parecer forte e resistente. “- Obrigado irmão, filho de Allihanna, amigo dos elfos, tenho uma dívida contigo!” – disse o elfo sinceramente. Fortão parou de beber e o olhou fundo nos olhos, soltando um miado como de quem entendeu o que havia sido dito e agradecia a reverência.

Ele passou o resto da manhã sendo paparicado por todos os clientes da taverna. Todos o presenteavam com alguma guloseima e ele se sentiu como que alimentado por um mês, mas não reclamava.

Aquele foi um dia mágico para o bichano, dono de taverna e pretenso aventureiro Fortão. Este havia sido o dia que mudaria todo o seu futuro e ele sabia disso.

Aqui estava surgindo o primeiro gato aventureiro de Arton.



Capítulo 02 - AQUI.

2 comentários:

Raul disse...

Legal a história do gato Fortão! Não achei muito promissora no início, mas até que a presunção do gato, bem típica dessa raça, foi muito engraçada.

F. P. Andrade disse...

Salve! Nossa, juro que li sem achar que seria muita coisa. mas que maravilha de conto. Me alegrei muito com ele. Parabéns ao autor. tem uma fã do Fortão agora rsrsrs