terça-feira, 7 de agosto de 2012

Zumbis em Porto Alegre - 29

Zumbis em Porto Alegre

Anotação 29
Nesta manhã fria de inverno está fechando sete meses desde o início do inferno em que o mundo se transformou. Quando acordei, esta manhã, graças à Deus junto da Juliana, conversamos um certo tempo sobre a possibilidade de sairmos de Porto Alegre. Concordamos em retomar o assunto junto com os outros em breve.

Bom, vamos voltar ao que eu estava contando aqui dias atrás.

Depois que pegamos tudo o que poderíamos aproveitar nas dependências da Brigada Militar Ambiental, o que não era muita coisa, recomeçamos nossa jornada. Entre nós e os quartéis do Regimento Osório e do 8º Blog do exército tínhamos apenas o terreno do Sanatório Partenon e depois uma pequena vila.

O Sanatório Partenon era um terreno muito amplo e eu imaginava que muito provavelmente ele havia sido difícil de ser mantido isolado dos zumbis que estavam na rua. E isso foi comprovado quando olhamos por cima do muro que divisava os terrenos. Muitos zumbis espalhados por todos os lados. Não era uma massa de mortos vivos, mas no geral a quantidade era considerável.

Nossa estratégia de ir por cima dos telhados, em segurança como vínhamos fazendo sempre que possível, foi descartada de início já que todas as construções eram afastadas umas das outras. Tivemos de atravessar pelo chão novamente. Mas as coisas foram muito menos complicadas, pelo menos de início, do que imaginávamos. A quantidade de carros espalhados pelo terreno, além dos escombros, serviram de obstáculos ao mesmo tempo que de proteções, dos quais nos valemos ao máximo.

Nós quatro pulamos o muro e contornamos os carros um à um por entre dois prédios afastados que mais pareciam pavilhões. A quantidade de monstros no pátio não nos possibilitou que vasculhássemos as construções atrás de mantimentos ou qualquer tipo de equipamento útil. De qualquer forma atravessamos o pátio até restar pouco mais de cinquenta metros entre nós o muro para o primeiro quartel.

Michel, mais novo e mais rápido correu até o muro abaixado e se dependurou nele para ver do outro lado. Seu sorriso foi um sinal que finalmente tínhamos tido um pouco de sorte. Ele saltou para o chão e fez sinal para nos aproximarmos. Passamos abaixados até o lado dele e em silêncio pulamos. Primeiro eu e o Raul, depois Renan e Michel.

Logo após o muro chegamos em uma pequena vila, em extensão, mas com grande número de casas. Esta vila ia desde a avenida Bento Gonçalves até a avenida Ipiranga formando uma espécie de corredor em curva. Em resumo, era um local quase impossível de ser protegido. Mesmo tendo apenas uma rua principal que serpenteava de ponta a ponta, haviam um grande número de becos e vielas. As casas eram simples e se amontoavam quase que coladas umas às outras. Mesmo com todo esse cenário desfavorável o que verificamos foi um ambiente abandonado e silencioso. Algumas casas tinham barricadas protegendo-as, com portas e janelas cobertas por tábuas. Outras residências estavam abertas e aparentemente abandonadas. De onde estávamos percebemos que toda uma parte da vila, em direção à avenida Ipiranga, havia incendiado e estava em escombros.

Como estava tudo calmo resolvemos Michel sugeriu que déssemos uma vasculhada no local. Renan estava receoso disso, pois já tínhamos perdido muito tempo na PUC, mas como tudo aparentava que seria mais tranquilo dali em diante, resolvi concordar com Michel.

Estávamos cansados e isso nos deixou descuidados. Deveríamos ter mantido nosso plano original e fazer tudo de forma rápida. Não vasculhamos bem o terreno e as casas próximas. Nós não os vimos que não estávamos sozinhos, mas eles nos ouviram de alguma forma.

Quando começamos a vasculhar a primeira das residências não percebemos que os zumbis estavam chegando pela nossa retaguarda. Michel pulou pela janela para o escuro de uma das casas. Logo que chegou ao chão ele viu algumas coisas úteis como lanternas, pilhas e uns enlatados empilhados num canto. Ele nos avisou da sua sorte e prontamente foi abrindo a mochila para arrecadar tudo.

Daí os fatos aconteceram quase que simultaneamente. No momento em que Michel começou a pegar as coisas no chão não percebeu que por ali haviam dois zumbis encoberto pelas sombras. Ele largou sua barra de ferro ao lado e se agachou. Quando ele escutou o primeiro grunhido eles já estavam quase que sobre ele, dando tempo apenas dele soltar um grito de socorro.

Ao mesmo tempo, logo que Michel nos avisou do que encontrara, pedi para o Raul entrar para ajudá-lo. Quando virei para o Renan para comentar qualquer coisa, que nem me lembro mais o que era, vi uma pequena horda se aproximando tão rápido quanto podiam, de todos os lados, saindo de cada casa, de cada beco.

Foi apavorante.  Ao mesmo tempo que percebemos os zumbis chegando escutamos o grito do Michel. Fiquei paralisado sem saber o que fazer primeiro. O Raul parou sua entrada pela janela e empunhou sua barra de ferro nos olhando entre assustado e irritado. Renan preparou a arma, mas eu segurei seu braço. Um disparo ali e ficaríamos cercados de zumbis de todo tipo em instantes. Se estava ruim, poderia ficar muito pior.

Enquanto isso, lá dentro, Michel passava por maus bocados. Depois ele nos contou que um dos monstros se jogou sobre ele quase o segurando. Ele teve tempo apenas de rolar no chão para um dos lados, se afastando dos dois. Infelizmente a barra de ferro ficou para longe e ele apenas pode se levantar e correr, enquanto gritava por ajuda.

Do lado de fora não tínhamos ideia do que estava acontecendo com ele, apenas escutávamos seus gritos. Tínhamos os nossos problemas e não poderíamos fazer duas coisas ao mesmo tempo. Pela posição dos zumbis não tínhamos como fugir e a luta foi nossa única opção. Com nossas barras de ferro e bastões partimos para atingir os mais próximos de nós. Rapidamente derrubamos uns seis monstros, mas o fluxo era grande e a quantidade só aumentava. Os gritos do Michel só pioravam as coisas e cada vez mais zumbis eram alertados.

Arrebentar a cabeça de um monstro daqueles não era fácil e exigia um bom esforço. Confesso que nas primeiras vezes, lá no início, eu ainda titubeava, mas com o tempo isso foi ficando mais e mais fácil, pelo menos no que diz respeito à questão psicológica, pois continuava cansado igual e eu estava ficando exausto. Este era o grande perigo dos zumbis. Eles não eram perigosos pela sua força, mas pelo seu número que acaba por ir minando nossa resistência e força até nos deixar exaustos e cairmos.

Num momento de desespero e esgotamento Renan puxou sua arma e disparou na cabeça de dois monstros que estavam quase sobre ele. O som ecoou por todo o canto e sabíamos o que isso implicaria.

“- Vamos sair logo daqui!” – gritou ele enquanto recuava sem deixar de apontar sua arma – “isso vai virar um inferno!”

Enquanto isso Michel passava por todos os cômodos da casa fugindo dos dois zumbis. Ele conseguiu derrubar um dos zumbis com uma cadeira e tentava voltar para a janela por onde entrou. Mas bem no momento em que ele conseguiu alcançar a janela o último zumbi também o alcançou pelos ombros e jogou-se para morde-lo no pescoço.

Como por reflexo consegui acertar a cabeça do monstro no momento do ataque. Michel ficou coberto de sangue putredo, mas era melhor do que virar uma daquelas coisas. Ele tremia quando conseguiu pular a janela para a rua. Ele apenas pegou sua mochila antes e colocou o que conseguiu rapidamente dentro.

Na rua Renan e Raul gritavam como loucos para irmos rápido, mas tentavam não disparar mais para não piorar a situação. Eu ajudei o garoto e corri na frente pela rua tentando achar uma saída para nós. A viela ia se afunilando até chegar à uma casa. Era um beco, mas dava para ver que nos fundos do terreno havia apenas uma cerca de arames para chegar ao primeiro quartel.

“- Por aqui...vamos pegar um atalho!” – gritei para os outros que já estavam quase cercados e haviam começado a disparar novamente.

Eu corri para verificar o caminho enquanto os outros se aproximavam rapidamente. Felizmente nada deu errado e conseguimos pular para o outro lado. Antes disso conseguimos bloquear o portão do pátio da casa, nos dando um certo fôlego e tranqüilidade. A última coisa que precisávamos era um monte de zumbis nos perseguindo.

Quando caímos do outro lado eu mal conseguia me mover, estava exausto, como todos os outros. Ficamos uns bons minutos parados para recuperar o ar e prosseguir de novo. Sorte que depois as coisas foram um pouco mais tranqüilas.

3 comentários:

Amon disse...

Fico extremamente feliz em ver que retornastes com esta história.

Amon

João Brasil disse...

Obrigadão...agora será de forma regular de novo!!!!

Anônimo disse...

Caro João Brasil, no próximo dia 7 fará 4 meses. Ainda estou esperando.
Abraços.
Amon