domingo, 16 de dezembro de 2012

Zumbis em Porto Alegre - 30



Zumbis em Porto Alegre


Anotação 30
A jornada aos quartéis foi um dos momentos de maior perigo que corremos. Não pela quantidade de zumbis apenas, mas por ser nossa primeira jornada tão longe do esconderijo. Conversando com a Juliana esta manhã ainda rememorávamos o sufoco que foi e a apreensão que quem ficou no esconderijo viveu.

Mas vamos continuar!!!

Estávamos perto de nosso verdadeiro destino quando chegamos à área do setor de comunicações, ao lado do 8º Batalhão Logístico e do Regimento Osório, logo depois. Ele era um terreno pequeno e alongado que servia como posto de comunicação do exército. Além do pequeno prédio técnico havia mais três que serviam de moradias. O terreno todo era muito bem cercado com um  muro de arame de uma ótima altura.

De onde estávamos podíamos ver toda a extensão do terreno que parecia calmo e vazio, mas não queríamos cometer o mesmo erro que quase nos custou a vida antes de pularmos o muro. Tomamos as precauções usuais. Vasculhamos o perímetro com todo o cuidado e em silêncio. Com tudo limpo entramos em todas casas e no prédio da comunicação. Estavam todos revirados e sem nada de util. Claramente alguém já havia estado ali e tirado tudo o que fosse importante ou ele havia sido esvaziado quando começaram as evacuações.

O tempo passava e quanto mais demorássemos mais risco corríamos de ter de enfrentar a noite neste ambiente inóspito. Algo que não queríamos mesmo. Nos dirigimos para a divisa do terreno com os quartéis. Ele é um terreno muito amplo, abrangendo ambas as unidades e que termina na esquina da avenida Bento Gonçalves com a avenida Salvador França. Essa localização significava que havia muito possibilidade de invasões e poderíamos ter muita oposição ali. Então todo o cuidado era pouco.

Pulamos a cerca para as instalações eram do 8º Batalhão de Logística, o primeiro dos quartéis, bem ao lado da garagem. Alguns blindados leves e caminhões de transporte ficavam normalmente ali e podíamos avistá-los da avenida quando estávamos à pé ou de carro nos dias normais. Mas agora ela estava vazia. Isso nos dava uma visão mais ampla do terreno e dos prédios próximos. Tudo estava estranhamente calmo.

Já era uma e meia quando começamos verificar o terreno. O tempo estava contra nós. Deixamos os pedaços de carpete que usamos para pular os arames farpados no lugar para se houvesse a necessidade de uma fuga rápida.

Rapidamente verificamos de forma superficial os prédios próximos, todos alojamentos. Mas a quantidade de prédios era grande e fomos obrigados a nos separar para ganharmos tempo. Eu e o Michel ficamos com os prédios próximos enquanto Renan e o Raul iam para a divisa entre os quartéis. O combinado era de quem em meia hora no máximo nos encontraríamos naquele local.

Minha procura com o Michel foi rápida. O garoto era ágil e estava se sentindo estranhamente à vontade naquele mundo cheio de zumbis. Isso era útil, embora não deixasse de ser mórbido. De qualquer forma isso facilitava muito e fomos rapidamente verificando cada prédio. Tudo continuou estranhamente vazio. Conseguimos arrecadar algumas lanternas, duas caixas de barra de cereal, bússolas, facas e dois pentes de munição.

Quando estávamos quase chegando ao nosso limite de tempo achamos o que deveria ser o refeitório. Para nossa satisfação ele estava com suas reservas cheias. Enchemos nossas mochilas com tudo o que foi possível. Não tínhamos onde colocar o resto então voltamos para a cerca e jogamos tudo para o outro lado. Só tínhamos que esperar os outros e pegar um pouco mais se desse. Depois só faltava achar a munição.

Esperamos um pouco e começamos a nos preocupar. Eles estavam atrasados quinze minutos. Sabia que um horário marcado naqueles tempos era meio difícil de conseguirmos cumprir, mas não ia me arriscar. Decidimos ir atrás deles.

Como não escutamos tiros tinha a esperança de que tivessem achado o paiol de munições e que estivessem se atrasando por pegá-las. Seguimos por entre os prédios em direção ao outro quartel. Atravessamos a via principal até chegarmos na cancha, bem na divisa. Depois dela havia um espaço gramado amplo. De onde estávamos víamos muitos zumbis perambulando de um lado para outro do lado de fora da cerca, na avenida.

”Será que o quartel foi evacuado antes de ser invadido?” – eu ficava pensando.  Haviam marcas de sangue em muitos lugares mas não tínhamos corpos. Onde estariam?

Depois que atravessamos o gramado chegamos na primeira das duas vias paralelas que existiam dentro do quartel. Ambas iam em direção à avenida Ipiranga e para a área de equitação. Mas o que nos chamou a atenção foi a placa que indicava alguns pontos de referência e entre eles estava o paiol.

“- Eles só podem ter ido para lá!” – comentou o Michel e tive de concordar.

“- Vamos, mas com todo o cuidado.”

Fomos costeando os prédios até achar o paiol. A porta estava aberta e nenhum sinal dos nossos colegas. Dentro havia algumas poucas armas pelo chão e muita munição espalhada. Não dava para saber se eles haviam chego ali ou não. Rapidamente juntamos um pouco de munição e pegamos uma doze e algumas pistolas.

Era intrigante imaginar onde eles estariam. Nenhum tiro havia sido dado, o que era mais curioso ainda. Resolvemos ir mais adiante já que por onde tínhamos passado não havíamos percebido nada.

Uns cem metros à frente encontramos uma placa que indicava onde estavam os estábulos. Foi nesse momento que escutamos os primeiros sons. Eram sons abafados que não identificamos de princípio, mas quando nos escondemos para espiar percebemos porque eles não nos deram notícias.

Dentro de um pequeno galpão ao lado das cocheiras um sem número de zumbis se debatiam contra as paredes, portas e janelas tentando entrar. Só poderia ser eles lá dentro. Ao longe vimos as carcaças de muitos cavalos semi-devorados.

Depois eles nos contaram que após pegarem as armas, já de saída, viram alguns zumbis perto das cocheiras e foram verificar por que eles não estavam espalhados pelo quartel. Quando chegaram perto verificaram que eram muito mais do que imaginavam. Eles devem ter se concentrado ali por causa dos cavalos que serviram de banquete. Os dois só tiveram tempo de se esconder naquele pequeno barracão que por sorte era resistente.

Eu e o Michel ficamos apavorados. O que iríamos fazer? Um tiro que disparássemos e estaríamos atraindo ainda mais bichos para cá. Mas tínhamos de ser práticos e acabamos tendo de improvisar. Nossa situação era simples na verdade. Tínhamos de atrair atenção deles para longe para que os dois saíssem de lá e depois fugir em meio ao pandemônio.

Michel correu para onde estavam alguns tonéis e começou a verificar cada um deles. De momento eu não entendi, mas logo percebi o que ele intencionava. Quando ele começou a movimentar um o tonel com o máximo de silêncio possível e rasguei um pedaço da minha camiseta para criar um pavio. O espaço era muito aberto ali e não teríamos como levar o tonel sem chamar a atenção, pois havia o perigo de sermos facilmente cercados antes de colocar o explosivo em um lugar seguro. Teríamos de rolá-lo e torcer que os dois entendessem o era para fazer!

Miramos para a direção do pátio numa posição que ele tivesse chance de se afastar um pouco antes de chamar a atenção dos bichos. Acendi o pavio e empurramos o tonel e começou a fazer barulho considerável chamado a atenção dos zumbis mais próximos. Ficamos escondidos enquanto ele rolava vagarosamente até que parou em uma árvore. Mais alguns segundos e tonel, que estava com um pouco de combustível ainda explodiu violentamente.

O estrondo ecoou no silêncio que era aquele mundo devastado. Então percebemos que nossa ‘brilhante ideia’ tinha uma grande falha. Acabamos atraindo não só a atenção dos zumbis que desejávamos como também de todos os que estavam à uma boa distância dali.

Pelo menos de imediato nossa manobra funcionou. Rapidamente os monstros se deslocaram em direção ao som da explosão. Logo que eles se afastaram um pouco Renan e Raul correram pela porta lateral da sala e nos encontramos na metade do caminho. Não trocamos palavra alguma, apenas corremos o máximo que deu para o ponto da cerca em que havíamos pulado. Apenas depois de pularmos é que nos sentamos no chão e trocamos algumas palavras. Eles nos contaram o que havia acontecido e que haviam pego munição e algumas armas e nós contamos sobre os mantimentos. Foi uma ação produtiva.

Depois de tudo isso só nos restava voltar e rápido pois logo aquilo tudo estaria repleto de zumbis.

Mas esse ‘logo’ foi mais rápido do que esperávamos. Quando nos demos conta haviam hordas e hordas de zumbis vindo de todos os cantos e se direcionando para as cercas do quartel que acabávamos de deixar para trás. Mesmo não produzindo sons altos apenas o som cadenciado dos passos cambaleantes desse mar de monstros já era suficiente para apavorar.

Se muitos estavam vindo para cá, então teríamos de passar por eles para chegar em casa. Nosso tempo estava cada vez mais curto e a noite cada vez mais próxima.

5 comentários:

Amon disse...

Gostei muito da história! Valeu ter esperado pacientemente. :-) Aguardo ansioso pela próxima e espero que sejamos contemplados com mais uma neste ano ainda.
Abraços.
Amon

Flávio disse...

Cara, muito bom, devorei todos as em dois dias!

Ansioso pela continuação!

Parabéns!

Flávio disse...

Ah, uma observação, a Anotação 04 não está abrindo!

:/

João Brasil disse...

Opa...que bom que todos estão curtindo.... Tentarei ser bem mais regular.... Flávio, irei verificar a 4ª parte!

Lukas = Yamakusa = disse...

Opa, eu sinceramente já tinha perdido minhas esperanças de continuar a ler essa história, mas que bom que você voltou a escrevê-la =D