domingo, 5 de maio de 2013

Zumbis em Porto Alegre - 31

Zumbis em Porto Alegre


Anotação 31
Hoje tivemos um contato com o pessoal de Curitiba. Fazia muito tempo que não conseguíamos falar com eles. Faziam duas semanas. Parece que estão ficando sem energia ou qualquer tipo de bateria. A situação por lá não é nada boa com este forte inverno, pouca comida e zumbis demais. Os quatro ainda estão vivos, o que era um alento para todos nós. O contato foi feito quando a Juliana estava com o rádio e eu e pessoal estávamos fazendo um reparo nas grades do portão da frente do prédio.

Todos os dias ficávamos de plantão em frente ao rádio entre quatro e quatro e dez da tarde, como combinado. Não poderíamos dispensar ainda mais energia para isso. Mesmo com nosso estoque de baterias de carro que usávamos para gerar luz, carregar os walk-talks, e até mesmo para um microondas de doze volts, não poderíamos dispor de energia desnecessariamente. Sorte que o Rui conhecia um pouco de eletricidade e como usar os inversores, ou algo do gênero, sei lá, senão estaríamos enrascados.

Mas hoje tivemos sorte e qualquer notícia assim sempre nos dava mais esperança. Tanto que depois de nossa janta resolvi escrever e contar o final de nossa jornada aos quartéis.


Já era final de tarde e tínhamos de decidir muito rápido se iríamos voltar naquele mesmo dia ou nos esconder até a outra manhã. A escolha foi tentar chegar o mais rápido possível do nosso refúgio. Sabíamos que depois da explosão todos os zumbis que tivessem escutado aquilo iriam para lá. Tínhamos de nos afastar.

Começamos a recolher o máximo de mantimentos, armas e munição que conseguimos e que não fosse nos atrasar. Colocamos o que restou numa das casas abandonadas no terreno da estação de rádio. Se desse voltaríamos outro dia. Nossa escolha foi tentar chegar na avenida Ipiranga, paralela à Bento Gonçalves, e relativamente longe de onde estávamos.

Corremos para atravessar o terreno onde estávamos e fomos costeando o muro que nos separava da pequena vila de casas pobres. Teríamos de entrar novamente no quartel, pulando a cerca, mas daquele ponto nos restaria apenas o campo de treinamento de cavalos para atravessar. Seria fácil se não tivéssemos muitos zumbis para enfrentar. Corremos como loucos os mais de quinhentos metros de extensão do quartel até o limite do gramado. Como não havia mais do que meia dúzia de zumbis espalhados avançamos até atingir o muro para a avenida Ipiranga e começamos a pular.

Quando descemos do outro lado tivemos uma visão perturbadora. Não eram zumbis, pois naquele ponto não havia quase nenhum pela rua já que muitos tinham se direcionado para o som da explosão. A paisagem foi o que nos deixou atordoados. Depois de passar semanas trancados no nosso refúgio já tínhamos parado de pensar em como estaria o resto da cidade.

Logo que começamos a ver o nosso redor descobrimos que as pontes próximas da avenida Ipiranga haviam sido destruídas, provavelmente pelo exército. Para quem não conhece, a avenida Ipiranga é um enorme valão que corta a cidade de ponta à ponta. De um lado, onde estávamos, ficava as zonas leste e sul. Do outro lado ficavam a zona norte e o centro da cidade. Os militares devem ter preferido isolar a cidade em duas para tentar frear a epidemia. Não deu certo. Não tínhamos certeza se todas as pontes, cerca de vinte, haviam sido destruídas.

Mas não era só isso. O Shopping Bourbon Ipiranga estava aparentemente destruído pelo fogo e as residências e prédios próximos estavam semi destruídos. Havia uma enorme frota de carros abandonados neste lado da avenida. Muita gente deve ter vindo até aqui e não tendo como continuar, abandonaram os carros. Conforme íamos avançando pela calçada, de forma rápida, mas cuidadosa, as imagens iam piorando. A parte da vila que estava para este lado fora devorado também por algum incêndio. Havia incontáveis carcaças de pessoas carbonizadas pela rua e cadáveres boiando pelo Ipiranga. Pelo menos nada de zumbis até ali. Fomos ziguezagueando por entre os carros com nossos tacos e barras de ferro nas mãos.

Depois de algumas centenas de metros já conseguíamos ver a outra parte da PUC e a passarela que levava até o outro lado do Ipiranga, em direção ao Hospital São Lucas. Infelizmente ela também estava destruída, mas seus escombros haviam criado uma ponte artificial por dentro do valão. Seria uma alternativa para atravessar se precisássemos, mas não teríamos como levar um veículo.

De qualquer forma a destruição não acabava. O hospital estava com sinais de incêndio em algumas janelas e pesadas barricadas de sacos de areia estavam posicionados aqui e ali, mas não parece que surtiram muito efeito pois os sinais de destruição dentro do terreno pareciam de um verdadeiro campo de batalha. Daquele lado havia muitos zumbis perambulando dentro e fora do terreno. Embora a avenida estivesse mais livre de veículos abandonados, a quantidade de monstros impossibilitaria de cruzarmos com veículos convencionais.

Continuamos atravessando por entre os carros lentamente até chegarmos perto do portal de entrada da universidade. Dentro do terreno da universidade haviam, em uma primeira visualizada, poucos monstros. Mas conforme íamos nos aproximando percebemos que estávamos enganados. Dentro das dependências da universidade havia um mar de zumbis. Nos escondemos atrás de um Palio abandonado com as portas abertas e coberto de manchas de sangue. A quantidade de zumbis era compreensível. Mais cedo aqueles estranhos que estavam no Prédio 40 dispararam algumas vezes com uma espécie de rifle e o som deve ter atraído os monstros aos poucos para cá.

Conforme fomos averiguando o caminho à nossa frente percebemos que os monstros continuavam vindo para a direção da universidade. Eles caminhavam e se arrastavam lentamente por entre o amontoado de carros abandonados que criava um engarrafamento fantasma Até as proximidades da rua Albion, nosso destino.

Ficamos pensando em como passar pelos monstros enquanto o tempo continuava à correr e a noite se aproximava cada vez mais. Tínhamos de ser rápidos.

O Michel sugeriu que tentássemos ir o máximo possível por dentro do valão do Ipiranga. Para entenderem melhor, de ambos os lados do canal há uma um desnível de cerca de dois metros. Se andássemos silenciosamente, com sorte, não chamaríamos a atenção dos monstros. Era nosso único plano!

Deslizamos para o desnível e tentamos ir o mais rápido possível de forma levemente abaixada. De onde estávamos conseguíamos ver que até a ponte da avenida Cristiano Fisher teríamos poucos problemas. Dois ou três zumbis estavam andando pelo desnível também. De lá em diante só Deus sabia.

Os três zumbis não foram problema. Renan os acertou com uma espécie de pequena picareta que havia pego nos quartéis. Ele os acertava e os aparava antes que caíssem para que sua queda não alertasse aos outros.

Quando chegamos na altura da rua Albion paramos um momento. O sol estava acabando de se esconder e o vento frio típico das noites de outono estava ficando mais forte. A escuridão rapidamente tomou conta do ambiente. Era aterrorizante o silêncio e a escuridão. E ainda nos faltavam uns quatrocentos metros para chegar ao nosso refúgio. O Michel e o Renan escalaram até a altura da rua para espiar o nosso caminho. Um caminhão capotado era o motivo para o engarrafamento fantasma que havia por todo este lado da avenida. Na fuga ele deve ter perdido o controle e acabou trancando todos os outros carros.

Nossa passagem seria complicada. Segundo o Michel os primeiros cem metros estavam com uma boa quantidade de zumbis e teríamos mais chance se passássemos escondidos do que lutando. Dali em diante seria mais tranqüilo.

Nos preparamos com as lanternas e nossos bastões para qualquer emergência, antes de usarmos as armas. Meu último ato foi chamar a Juliana pelo rádio.

Ela atendeu com a voz nervosa. Fazia muito tempo desde nosso último. Elas escutaram a explosão e pensaram no pior. Contei para ela do nosso plano e ela foi se preparar com os outros para nos receber. Com o cair da noite não daria para usar o nosso subterfúgio de chamar a atenção deles na outra rua com barulhos. Seria arriscado na escuridão.

Teríamos de ser silenciosos. Nos esgueiramos pelos primeiros metros com muito sucesso. Íamos usando cada carro como uma barreira e íamos driblando os zumbis. Estava fácil demais. O dia teria saído perfeito se não fosse um pequeno incidente. Já tínhamos derrubado quatro zumbis quando o Michel chegou pelas costas de outro para derrubá-lo. Foi um golpe fácil mas a faca ficou presa e quando ele foi soltá-la o zumbi caiu na direção errada e espatifou-se sobre o capô de um dos carros abandonados. O estardalhaço ecoou pela noite. A Juliana me disse, depois, que até elas escutaram som.

Ficamos um pequeno instante, que mais pareceu um século, parados e em silêncio. Percebemos claramente quando cada um dos monstros que estavam a nossa volta se virou para nosso lado.

“- CORRAM!!!” – gritou o Michel que saiu em disparada como um louco, seguido por cada um de nós.

A passagem estava complicada com vãos apertados por entre os carros. O peso de nossas mochilas também não ajudava e mais de uma vez quase fiquei preso em um espelho retrovisor. Na metade do caminho já estávamos com as armas em punho e percebendo que as coisas não iam ser fáceis com a chegada de mais e mais zumbis, por todos os lados.

Os primeiros disparos começaram a ser realizados, mas não teríamos muita chance assim. Quando chegamos a uns cem metros da entrada do edifício acabamos encurralados entre uma van e alguns carros. Estávamos acuados. O Michel já estava sem munição em sua arma e o resto estava na mochila. As minhas balas também estavam acabando. Parecia o fim.

Mas então a surpresa. Três, quatro disparos cortaram a noite e alguns zumbis caíram bem do nosso lado. A Juliana, junto da Bety, do Jonas e da Dona Silvia, vinham correndo com as pistolas cuspindo balas. Mais ao longe a Aninha e o Raul faziam a guarda do portão. Foi a nossa salvação.

Com aquela distração conseguimos correr em desabalada. Nem tentávamos mais acertas os monstros, nosso maior interesse era chegar ao esconderijo. Com aquela ajuda ficou muito mais fácil. Percorremos o resto da distância até nossos salvadores e retornamos juntos. A alegria da Juliana era contagiante. Pareceu cena de filme da sessão da tarde.

Quando chegamos ao esconderijo mal tivemos tempo de fechar e trancar o portão e cobri-lo com as lonas e um sem número de zumbis se apinhou nele. Levamos quase uma semana para esvaziar a frente do prédio chamando a atenção deles para as ruas vizinhas.

No final das contas valeu à pena. Nesse inferno, cada dia em que nos matemos vivos vale à pena. E naquele dia, depois de tantos percalços, estávamos ilesos, com um estoque razoável de munição e algumas provisões novas. Mas o melhor de tudo foi termos uma noção de como estava os arredores. Quando sairmos daqui isso será de alguma valia.

Essa foi nossa mais recente e última grande aventura. De lá para cá o outono virou inverno, o frio aumentou e as reservas estão acabando. Pouco depois disso tivemos o contato pelo rádio que contei lá na primeira anotação. Daqui para frente irei encher as linhas deste caderno com o nosso dia a dia quando for interessante.

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