sexta-feira, 2 de maio de 2014

Por Mares Nunca antes Navegados: Parte 1 - Capítulo 3


PARTE 1 - Um longo prelúdio -

João Eugênio  Córdova Brasil

III. O estranho

A imagem era perturbadora. Não por ser algo aterrador ou perigoso, mas por ser algo que não compreendiam. Era algo totalmente novo. O quadro todo, na verdade, era perturbador. Tanto em sua cabeça, quanto na de Syan, os detalhes não possuíam ligação alguma. Syan mantinha-se debruçado por sobre o cadáver segurando as pálpebras de um dos olhos abertas. Slocun mantinha-se imóvel, fitando de maneira séria os movimentos cuidadosos de seu amigo.

A camisa do morto, em farrapos, deixava transparecer seu peito, apresentando características peculiares. Ele possuía, espalhadas pelo peito e barriga - e agora percebiam que até por partes do braço - manchas pretas em formato ovalado. Elas tinham tamanhos diversos e iam do pescoço à cintura. Além disso, toda extensão do corpo possuía uma fina camada de pelos bem finos e levemente alaranjados. Eles engrossavam e sobressaiam mais nos locais onde havia as manchas.


Havia também os olhos. As íris do estranho, visíveis enquanto Syan as estudava, pareciam terem sido tiradas de algum animal. Eram lindas ao mesmo tempo que estranhas. Talvez mais exóticas que lindas. Possuíam uma coloração avermelhada ocupando o centro de um globo ocular amarelado. Aqueles olhos eram algo novo também.

Todos naquele barco já haviam visto um pouco de tudo, no que diz respeito à criaturas. Lutado contra globinóides, seres marinhos monstruosos e estranhas criaturas nas ilhas que por ventura ancoravam. Até os olhos dos nativos de Collen – mesmo estando do outro lado de Tyrondir – não eram tão curiosos quanto estes. Havia algo à mais neles

- Acho que isto não é normal, não é Syan? – comentou Slocun após alguns momentos de silêncio.

- Com toda a certeza não. Que acha?

- Vamos nos reunir em minha cabine. Enquanto isso chame Hillan. Ele é de Collen e, embora tenha apenas um olho, se o assunto são olhos curiosos ele é a pessoa mais indicada para nos elucidar algo – ordenou Slocun enquanto dobrava a bandeira pirata misteriosa e dirigia-se para a porta – Reunião em quinze minutos.

Syan saiu logo atrás do capitão, aos berros chamando pelo marinheiro colleniano, enquanto uma multidão se aglomerava na porta tentando ver alguma coisa naquela saleta que pudesse justificar tal gritaria. Além disso, havia a carranca do capitão. Uma coisa que incomodava os marinheiros do Gaivota era a carranca de Slocun. Era assim que chamavam o senho do capitão quando preocupado. Isto sempre lhes indicava um mau presságio ou problemas á vista.

o  O  o

- Realmente não sei o que se passa. Nunca vi nada igual – esse era o pronunciamento final de Syan frente aos principais membros da tripulação do Gaivota Prateada depois de toda uma explanação cheia de dados técnicos – Em todos os meus estudos nos templos de Tanna-toh não me lembro de ter visto nada relacionado a isto.

Muitos poderiam se pergunta o porquê de todo este alarde devido apenas a um par de olhos estranhos e pintas espalhadas pelo corpo. Não seria nada de mais. Mas para os homens do mar, a milhas de qualquer terra firme, o que lhes mantêm vivos é a segurança de estarem certos de tudo ao seu redor. Não estão em condições de errar. Necessitam e procuram ter todas as possibilidades à mão. Por isso ficam tão desnorteados quando algo totalmente improvável ou impensado lhes ocorre. São homens que estão prontos para batalhas de última hora ou enfrentar uma tempestade sem aviso. São coisas que dominam bem. Mas o inesperado – ainda mais no meio do nada – lhes assusta.

- Já viu algo assim mestre? – Slocun disse virando-se para Tugar.

- Nos meus cinqüenta anos de mar não senhor. Já ouvi de pragas que podem ocorrer num navio à seres monstruosos protegidos pelo deus Oceano, mas nada parecido com isso.

- E você Hillan?

- Em Collen os olhos dispares, ou com cores fantásticas, são algo totalmente comum. Mas há algo diferentes naqueles olhos. Parecem que foram colocados naquele homem. Não parecer ser nada humano.

Um silêncio pairava no ar. Mais pesado que a fumaça dos cachimbos e cigarros de palha que impregnavam o ar do restrito ambiente com odores típicos de Hongarin.

- Ainda há a estranha pele dele e a curiosa dentada no braço – quebrou o silêncio Syan – que não parece ter sido feita por algo marinho. Pode ter sido um cão. Não é incomum ver cachorros nos barcos. Mas, para conseguir arrancar um braço de um homem de uma vez deve ser um senhor cachorro.

Mais um momento de silêncio perturbador.

- E quanto à bandeira. Alguém tem alguma idéia de a quem pertence. Já ouviram falar daquele símbolo?

Um não simbolizado pelo manear das cabeças em silêncio não enganava Slocun. Estavam em frente de algo totalmente desconhecido. Eram muitas curiosidades e dúvidas para um evento só. Algo estava para acontecer. Ele sabia disso.

Naquela noite não houve sossego. O imaginário dos tripulantes viajou por todos os cantos da mente. Os medos surgiram em meio à sussurros sobre os acontecimentos daquele dia. Conforme ia passando de tripulante à tripulante, a estória ia ganhando contornos cada vez mais assustadores e maledicentes. A tranqüilidade inicial ia tornando-se cada vez mais rarefeita. O medo estava estampado no rosto de cada marujo.

Por sua vez Slocun colocou um vigia à mais no convés, de olhos bem abertos, ajudando a quem estivesse na gávea. Para Syan solicitou alguns encantamentos de proteção e de alarme para lhes dar maior segurança. Havia algo de errado mesmo sem ter certeza do que, mas não queria ser pego de surpresa.

Mas aquela noite passou. Assim como as próximas. O nervosismo inicial transformou-se em calma, e a calma transformou-se em tranqüilidade. O marinheiro morto, levado à bordo, recebeu um funeral digno e as coisas encaminharam-se novamente à normalidade. E não se tocou mais no assunto.

Já se passavam cinco dias desde o encontro com o náufrago perturbador e nada acontecia. Era água para todos os lados em um horizonte sem fim. Nenhum sinal de vida. Tugar estava preocupado. As provisões estavam escasseando e em breve necessitariam racioná-las. Seu contramestre – Rudolph - estava incumbido de controlar tudo o que saia da dispensa e cada gole de água que bebessem. Suas preocupações já haviam sido passadas para o capitão. E hoje era o dia decisivo. Era o limite. Se voltassem hoje conseguiriam chegar ao último local disponível para pegar alguma água e mantimentos.

E Slocun estava em seu refúgio. Pensando.

- Senhor... – gritou Listian, o pequeno infante – Mestre Tugar espera suas ordens, senhor!

- Já vou descer!

Chegando ao convés o capitão recebe Tugar que vem correndo ao seu encontro. Estava claramente mais nervoso que o normal – não que isto fosse alguma novidade.

- Quais as ordens, senhor? Seria prudente voltarmos enquanto podemos.

- Pelo menos a viajem não foi de toda em vão, Senhor Tugar. Tome os preparativos para retornarmos para casa. Meu fumo está acabando, vamos para Hongari.

- Sim senhor! – disse Tugar mesclando alívio e euforia em suas palavras.

As palavras do capitão pareciam terem tirado um peso dos olhos e das costas de Tugar. Desde o início ele não gostara da idéia de saírem dos limites norte das cartas náuticas conhecidas em Arton. Mas agora estavam voltando para casa.

- Vamos agradar o capitão e colocar esta banheira para andar de volta o mais rápido possível, mexam-se! – esbravejava Tugar – Icem todas as velas. Kankar, sabe o que fazer! A toda velocidade.

Mas às vezes parece que os dados de Nimb pregam-nos peças. Umas agradáveis, outras nem tanto. E algumas totalmente dispensáveis. O mestre matreiro e enlouquecido tem a capacidade de fazer suas jogadas nas horas mais impróprias – impróprias para os reles mortais, é claro.


- Embarcação à vista! Embarcação à vista!

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