sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Material de Apoio - Castelos I: Motte and Bailey


Como quase todo o jogador de RPG o cenário que mais me atraiu sempre foi o de fantasia. Cavaleiros e dragões, honra e aventura, magia e espada, anões e elfos, góblins e orcs. Toda essa profusão de elementos medievais somados à cada elemento das milhares de lendas celtas e européias inundaram o imaginário dos jogadores e aventureiros do RPG. E um elemento que não poderia faltar são os castelos.

Castelos são inegavelmente um dos elementos de fantasia, junto das dungeons, que estão mais presentes nas aventuras e campanhas de RPG. Grandes ou pequenos, eles guardam um fascínio que inunda o imaginário de todos os jogadores e podem servir de pano de fundo para aventuras inteiras, sem nem termos que sair de lá.

Muito embora eles nem sempre estejam em nossas aventuras, são uma entidade constante naquilo que entendemos por cenário fantasia. Como a proposta da seção Material de Apoio é suprir carências e dúvidas sobre elementos que os amantes desta prática tenham, tanto na narração de seus jogos como na criação de aventuras e contos, vamos trazer uma série com tudo o que pudermos elucidar para vocês.

Os primeiros castelos - Motte and Bailey

Na história mundial os castelos, como encontramos nos jogos de RPG e na literatura de fantasia, podem ser localizados na Idade Média européia principalmente. Até então os tínhamos em uma configuração diferente, com funções bem diferentes. Eram muralhas – algumas impressionantemente altas e fortes – cercando regiões ou cidades. Isso era facilmente encontrado principalmente nas civilizações do Oriente Próximo, nas cidades gregas e romanas.

A formação dos castelos passou, como tudo, por um gigantesco processo ao longo dos séculos. O que entendemos por castelos surgiu por volta do ano 900 indo até meados do século XVII. O apogeu é considerado por volta do século XIII.

Toda a fase inicial dos castelos, na história, por volta do século X (mais especificamente em 1066), é marcada por estruturas do tipo “Motte and Bailey”. O termo “motte” e “bailey” se originam no francês normando onde motte significaria monte ou amontoado de terra e bailey significaria enclausurado. Esse tipo inicial de castelo, mais parecidos com enormes fortes, eram feitos de madeira e tinham algumas peculiaridades. Ele estava dividido em duas partes. Uma delas era construída numa elevação (o motte), entre 8 e 24 metros de altura, e a outra estava localizada na base do solo (bailey), medindo de 1 à 3 acres. Toda esta base era cercada por uma paliçada – uma muralha de madeira que muitas vezes poderia abranger ou não o motte. Para finalizar tínhamos um fosso cercando as duas estruturas, por fora da paliçada.

A construção nesta configuração se valia de algumas características que o fizeram ter muito sucesso por séculos. Com eram feitos de madeira, sua construção poderia acontecer em poucas semanas. Além disso, e por esta facilidade, poderiam ser mudados de localização sem muita dificuldade, conforme a necessidade. A posição do ‘motte’ (monte), com sua torre principal e elevação relativamente íngreme, era muito difícil de ser atacado pela tecnologia armamentista da época (principalmente a dos povos bárbaros). A facilidade de sua construção pode ser atestada pela confirmação de que mesmo nessa época houveram mais de mil espalhados só pela área da atual Inglaterra e País de Gales.


Todas essas vantagens o transformaram em um elemento principalmente útil em conflitos, servindo de uma base para os comandos das tropas podendo avançar conforme as tropas avançavam.

Na parte superior, no ‘motte’, ficava uma estrutura de madeira (alguns poucos foram construídos em pedra, mas esta não era a regra) em forma de torre. Poderia haver, também, outra pequena construção adjacente à torre com duas ou três salas chamada de ‘casa da torre’ onde viviam o nobre com sua família. Na parte inferior, no ‘bailey’, se concentravam as outras estruturas da comunidade, mas em pequeno número.

Historicamente podemos ver a importância deste tipo inicial de castelo na história da Inglaterra. A Batalha de Hastings, em 1066, marcou o fim do domínio anglo-saxão na Inglaterra, que caiu ante Guilherme da Normandia (na Inglaterra conhecido por Willian, o Conquistador). A estratégia empreendida por Guilherme foi de, após invadir as ilhas britânicas, desembarcando em Pevensey, rapidamente marcar posição. A melhor forma encontrada para isso foram as construções de vários castelos no estilo ‘motte and bailey’. Uma verdadeira rede de castelos quase móveis foram construídos. Esta questão da velocidade da construção pode ser facilmente percebida se compararmos que em meses foram construídos cerca de mil castelos (esse número ainda causa controvérsia, sendo mais aceita a totalidade de 500 motte and bailey entre 1066 e 1086), enquanto que em vinte e um anos após a conquista da Inglaterra foram construídos apenas 86 castelos de pedra. Eram necessários apenas 8 dias para a construção de um motte and bailey, como no caso documentado da construção do terceiro deles em Dover, após os de Penvensey e Hastings.


Para entendermos melhor a velocidade de construção desses castelos, Hastings levou cerca de oitenta dias para ser finalizado contando que foram usadas oitenta mil toneladas de terra para motte e usando apenas 50 homens. Pelos cálculos, o de Dover, para ser erguido em 8 dias, necessitaria de 500 homens, uma quantidade relativamente baixa para os exércitos da época.

A origem arquitetônica dessas construções teve origem nos franceses que se protegiam das investidas vikings. Sem conseguir lutar de igual para igual, eles desenvolveram uma forma de proteção que lhes desse certa vantagem nas lutas. Assim foram concebidos os Motte and Baileys, protegendo os principais membros das famílias nobres francesas, seus recursos e animais. O primeiro registro da construção de um castelo deste tipo na frança remonta à 1051. Quando Willian, o conquistador, chegou à costa inglesa, ele levou consigo esse conhecimento estratégica básico, fazendo uso dele de forma primorosa. A construção de novos motte and baileys ocorreram até meados do ano 1200.

Os requisitos para a construção desse tipo de castelo compreendem-se pelas suas necessidades imediatas. Os dois pontos principais eram a necessidade de um local alto, para a colocação da torre, e era procurado um local próximo de um rio. Cidades e grandes vilas não eram escolhidas para a construção dessas estruturas por não ser a função deles a proteção, mas mais como postos avançados. Este é outro elemento interessante para entendermos. Houve uma mudança de função entre os castelos do tipo ‘motte and bailey’ e os castelos de pedra. A função básica desse tipo de construção é servir como um ponto fortificado para alojamento de soldados, provisões e cavalos. Embora pequenas comunidades possam se formar dentro, sua função foi exclusivamente militar.

Estrategicamente o motte and bailey funcionava em duas partes. Na primeira, a defesa era realizada pelo bailey contando com a proteção da paliçada e do fosso, por uma grande maioria dos soldados. O motte ficava reservado como uma segunda linha de defesa. No caso do motte ser invadido, todos se retiravam para a parte superior, destruindo as escadas/pontes de acesso, e começando uma defesa de um ponto ainda mais elevado, criando uma boa vantagem. Mesmo com todas as facilidades e benefícios deste tipo de construção, ela não era intransponível. A melhor estratégia de ataque contra essas construções era o fogo ou deixá-la sitiada.


Os primeiros castelos tinha uma variedade muito pequena de moradores visto que sua função primeira era a de um posto avançado e não de colonização ou algo do tipo. Na casa em forma de torre, no motte, que fazia as vezes de moradia e forte, residia o ‘senhor do castelo’, sua família e alguns nobres de seu secto. Junto dele estavam seus serviçais imediatos – cozinheiras e outras pessoas encarregadas de afazeres domésticos. Naquele local todos tinham funções que necessariamente tivessem serventia aos interesses do senhor e de sua sobrevivência.

Já na parte mais baixa, residia todo o resto da estrutura deste ‘castelos’. O maior número de moradores era formado por soldados. Com a função militar desta estrutura não poderia ser diferente. Haviam alguns artesãos específicos das práticas que fossem importantes para a função deste ‘castelo’. Era o caso dos ferreiros, alguns criadores (de porcos e galinhas principalmente), cozinheiros, criadores e boticários.

A presença dos ferreiros, e cuteleiros, é óbvia. Num campo com função militar a atividade deles era importantíssima para a fabricação e manutenção de armamentos (espadas, machados, pontas de flechas e pontas de lança), armaduras e no trato dos cavalos (ferraduras e outros metais necessários para sua montaria). Os cozinheiros da parte baixa eram diferentes dos que cuidavam dos afazeres no ‘monte’. Sua função era manter os soldados alimentados, mas sem luxo.

Os criadores mantinham galinheiros e chiqueiros funcionando com eficiência para produzir animais até o outono. Uma grande parcela deles era abatida neste período e conservada em sal, garantindo alimento na estação onde teriam mais dificuldade de conseguirem vegetais. Por sinal, o pão era a base da alimentação destas comunidades dentro do castelo durante os períodos mais quentes. Além disso, o controle das reservas era mantido com atenção para situações de cerco durante os combates. Os boticários fazia as vezes de um médico, quase um curandeiro, para auxílio de todos dentro do ‘castelo’.

Poucas pessoas, fora destas funções, habitavam dentro deste tipo de ‘castelo’. As comunidades acabavam se formando ao redor dele e criando verdadeiras vilas com seus casebres espalhados por uma considerável área. Em caso de ataques, as pessoas corriam para dentro dos muros, se os senhores assim permitissem.

Em RPG
De que forma este elemento – o motte and bailey – pode ser usado nas suas aventuras de RPG? Elementos como este servem muito bem para os mestres terem ideias de ambientes dos mais variados. Um “castelo” como este é muito mais complicado de ser invadido do que um daqueles enormes castelos de pedra.

Pensem em usá-lo como um acampamento remoto em alguma região erma que o grupo esteja avançando. Ele também pode muito bem ser usado para bárbaros ou globinóides protegendo suas fronteiras ou em ataques contra sua região.

Outra alternativa é colocá-lo no lugar de uma vila. Muitas vezes temos que enfiar uma vila em um lugar dos mais inusitados para que o grupo possa ter onde descansar, se curar ou arrumar seu equipamento. Nada mais lógico que em lugares distantes e inóspitos eles encontrem este tipo de aglomerado ao invés de uma vila.

2 comentários:

Henrique Ranieri disse...

Uma palavra para esta postagem: Sensacional!

João Brasil disse...

Obrigadão....