segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Zumbis em Porto Alegre - Parte 2 - Anotação 3


Anotação 3
Os preparativos foram longos e os primeiros resultados até que foram satisfatórios. Já faz um dia que saímos do nosso refúgio para tentar achar uma rota para que nossos carros consigam chegar às estradas para fora de Porto Alegre.

Os preparativos levaram alguns dias, pois nada do que se planejasse fazer nestes tempos poderia ser fácil ou passível de erro. Tínhamos um considerável percurso para fazer e muito perigo para correr. Mas nós também tínhamos alguns trunfos. Desde a nossa ída aos quartéis havíamos percebido que mesmo tendo quase dois milhões de moradores em Porto Alegre, os zumbis não condiziam à um número nem perto disso. Lógico que muitas pessoas evacuaram a cidade antes de tudo ruir definitivamente. Além disso, sabíamos que eles se moviam conforme estímulos sonoros, o que significava que poderiam estar em qualquer lugar. Eu esperava que isso se tornasse um trunfo.

Passamos alguns dias planejando o que faríamos e como faríamos. Já estava decidido que iríamos em quatro pessoas, duas duplas, divididos por duas rotas possíveis. Não sairíamos de veículos diretamente de nosso refúgio para não alertar os zumbis, além de que sabíamos que os caminhos estavam bloqueados aqui e ali e também teríamos de resolver isso à seu tempo.

Nossas prioridades eram, além de descobrir uma rota de fuga da cidade, qual ou quais as pontes sobre o arroio Ipiranga, que corta a cidade de leste à oeste, ainda estavam de pé. Os mapas que encontramos nos quartéis davam conta de que havia intenção de destruí-las para isolar pontos mais comprometidos durante os primeiros dias do horror. As únicas que não estavam na lista das que seria destruídas eram as pontes no ponto da avenida Antônio de Carvalho e na avenida Praia de Belas, nos dois extremos. Com isso nossas duplas se separariam na esquina da Albion com a Ipiranga. Minha dupla iria para a direção do centro até chegar à avenida Praia de Belas e depois rumaria para o centro pela avenida Borges de Medeiros. A outra dupla iria até a Antônio de Carvalho, para verificar sua integridade, e depois rumariam para a direção do centro pela Ipiranga até a Terceira Perimetral, passando a percorrê-la rumo ao norte.

Em condições normais, numa caminhada rápida, de nosso esconderijo até nossos pontos de chegada, levaríamos cerca de uma hora e meia. Mas com esse mundo de pernas para o ar eu esperava que levássemos dois ou três dias. Nossos recursos deveriam durar esse tempo, mas também não poderíamos exagerar por uma questão de peso. Nossa sorte nos deixou com recursos de sobra, até mais do que tínhamos condição de usar, mas mesmo assim não daria para levar em demasia. Resolvemos levar alguns macarrões instantâneos, barrinhas de cereal e dois ou três enlatados, além de água, e isso teria de durar.

Na manhã de nossa partida, ontem, era um dia perfeito. Estávamos em um típico dia de inverno aqui do sul, muito frio e com muito vento. O barulho do vento só não era melhor que o som da chuva. Este tipo de barulho naturalmente mascarava nossos passeios, deixando-nos quase invisíveis aos ouvidos dos mortos-vivos. Nos agasalhamos como deu e acrescentamos apenas mais um fino cobertor na mochila. Isso teria de bastar junto com os mantimentos.

Já faziam alguns dias que a quantidade de zumbis havia diminuído ao nosso redor, desde que uma explosão aconteceu em algum lugar em direção à cidade de Viamão. Tenho quase certeza que havia sido um posto de gasolina que existia para aqueles lados. Isso os deixariam espalhados naquela zona por algum tempo e eu queria aproveitar isso à nosso favor.

Saímos rapidamente matando os poucos zumbis que estavam perto da saída do prédio, não mais do que uns dez. Corremos rapidamente até a esquina com a Ipiranga e depois de algumas recomendações de cuidado, e de verificar se o walk-talks estavam com as baterias carregadas, partimos, cada dupla para seu lado.

Eu e o Michel avançamos rápido e surpresos por não encontrarmos nenhum zumbi pelo caminho até o cruzamento com a Cristiano Fisher. Já sabíamos que aquela ponte estava destruída desde nossa volta dos quartéis. Alguns zumbis circulavam pelo posto em ruínas. Da primeira vez que passei por aqui não havia percebido, mas ele deve ter sofrido alguma forte explosão em algum de seus reservatórios. Uma grande cratera enegrecida tinha muitas carcaças inertes dentro, possivelmente de zumbis.

De onde estávamos conseguíamos ver até bem próximo da entrada da PUC. Muitos carros abandonados e alguns queimados estavam espalhados por uma boa parte da avenida. Seria um desafio atravessar por aqui quando partíssemos. Entre esses carros, circulando em passos cambaleantes, um mar de zumbis. Tivemos que mudar de rota. Até agora vínhamos pela lado da avenida que fazia a direção centro-bairro. Resolvemos não arriscar e atravessamos o arroio Ipiranga por sobre os destroços da ponte da rua Cristiano Fisher, que formava uma passarela fácil de ser usada. Continuamos pelo outro lado. O outro posto de gasolina, no lado oposto ao anterior, estava intacto, mas abandonado. Depois de pegarmos algumas latas de refrigerante e chocolates, que por milagre ainda estava ali na loja de conveniências do posto, corremos cuidadosamente e em silêncio para tentar costear toda a cerca da unidade da PUC que ficava ali, próximo do Hospital São Lucas, de uma vez só. Na passarela entre os dois lados do arroio, que também estava destruída, ficava nosso ponto de encontro. Iríamos nos encontrar ali e percorrer junto até nos separarmos na esquina com a terceira perimetral.

Raul e Renan não demoraram muito em chegar. Segundo eles, para os lados da avenida Antônio de Carvalho, existiam pouquíssimos zumbis, mas a ponte também estava destruída. Nossas esperanças estavam depositadas em encontrar uma passagem indo mais e mais em direção oeste.

Por incrível que pareça esse curto percurso havia demorado quase duas horas para percorrermos e tínhamos de avançar para não corrermos o risco de levar muito mais tempo do que imaginávamos.

Depois de dividir o espólio da loja de conveniência corremos sem maiores problemas até o local onde nos separaríamos novamente. Eram muito poucos zumbis para todos os lados que olhássemos, o que eram ótimas notícias.

Nossa próxima parada foi em frente ao Shopping Bourbon Ipiranga. Ele estava semi-destruído muito provavelmente por algum incêndio. Ainda me lembrava das tardes intermináveis e agradáveis que passei ali. Mas agora aquilo estava literalmente morto. Nem perdemos tempo em tentar entrar, pois seria um risco desnecessário.

Depois de atravessarmos a avenida Barão do Amazonas uma coisa começou a me incomodar – tínhamos visto pouquíssimos zumbis até agora. E se eles não estavam aqui, teriam de estar em algum lugar mais a frente. Era muito estranho. Em alguns momentos caminhávamos tão despreocupadamente que parecia um passeio daqueles que eu fazia durante o inverno. Algumas ruas estavam com uma aparência tão tranqüila que um desavisado chegaria a duvidar que aquele horror de zumbis estava acontecendo.

O tempo começou a mudar e uma fina chuva começou a cair e junto com aquele vento de inverno estava baixando muito a temperatura, além de que isso faria a noite cair mais rápido. Resolvemos dar uma parada e procurar um abrigo para não sermos pegos de surpresa. Nossa escolha foi um prédio baixo que deveria ser algum tipo de escritório. O importante era que possuía dois andares, tinha como ser barricada para nossa segurança e serviria muito bem para nos proteger da chuva e do frio.

Conseguimos improvisar uma fogueira para nos aquecer e preparar uma refeição. Acabamos tendo que nos refugiar aqui muito cedo, mas com esse tempo fechado a escuridão é um inimigo tão perigoso quanto os zumbis. Mas ainda assim conseguimos relaxar um pouco. Mesmo estando tanto tempo com o Michel, convivendo com ele no refúgio, nunca tive tanto tempo assim para conversarmos. Foi agradável.

Nossa última tarefa antes de encerrarmos nossas atividades de hoje foi o contato pelo rádio com o refúgio e com a nossa outra dupla, que teve um caminho tão tranqüilo quanto o nosso.

Amanhã teremos que recuperar o tempo perdido, com ou sem chuva.

2 comentários:

Matheus luz disse...

Cara muito bom,gostei muito das anotações acabei de ler tudo. Espero que logo você continue.

João Brasil disse...

Está na pauta para que eu volte a escrever neste mesmo mesmo!!!! Rezemos!!!!