quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Contos na Confraria: Fortão, o gato aventureiro de Arton - Capítulo 8

Fortão, o gato aventureiro de Arton


CAPÍTULO 8

A situação era cômica, pelo menos para quem a via de fora. Um grupo de aventureiros comportadamente sentado de um dos lados de uma enorme e retangular mesa de carvalho enquanto um garboso guerreiro, gesticulando seu braço metálico, caminhava de lá para cá à frente deles esbravejando. Todos o olhavam com uma cara de incomodada aceitação. Enquanto isso, em um dos cantos Fortão lambia seu pelo como se aquilo tudo não fosse para ele também.

“- Como assim vocês simplesmente foram salvar o amigo de vocês?” – questionava de forma retórica aos gritos Arkan, Braço de Ferro, entre um gesto e outro, já com o rosto vermelho.

“- Simples” - disse Ally - “nosso amigo fora feito prisioneiro contra a sua vontade, se é que alguém é feito prisioneiro por vontade própria... enfim, fomos até ele o libertar e não tínhamos como esperar a ajuda de quem quer que fosse, muito menos tempo para chamar a milícia da cidade... Por falar nisso, você sabia que precisa ter mais atenção à sua cidade? Como tanta gente suspeita entra aqui e você não fica sabendo de nada?!” - Do canto oposto da mesa o outro elfo concordava com um sério aceno de cabeça enquanto Blander e Gustav olhavam um para o outro com perplexidade, não acreditando que Ally se arriscava a dizer tamanha asneira. Fortão chegou a parar de lamber seu pelo, revirando os olhos, imaginando de que forma o elfo seria empalado pelo colérico guerreiro.


Os olhos do líder do Protetorado faiscaram na direção do elfo enquanto ele se preparava para berrar novamente. Mas algo o fez frear no último instante, muito provavelmente o olhar atento da guerreira que estava encostada com os braços cruzados, em um canto obscuro e mantinha-se em silêncio. Ele baixou a cabeça, perplexo com o elfo, respirou fundo e puxou uma cadeira para se sentar em frente ao grupo, mas ainda em silêncio.

“- Eu sei que Valkaria é a terra dos aventureiros e a própria deusa, que deu seu nome à cidade, é a sua protetora. Mas precisam todos virem fazer bagunça por aqui? Temos leis, regras e o Protetorado. Os malditos aventureiros ficam sempre achando que podem resolver tudo como se estivessem em sua própria casa...” - ele bufou em comedida irritação com um suave ranger de dentes e voltou a falar, em um tom mais ameno - “cada vez que uma coisa dessas acontece, isso que vocês fizeram hoje, tudo vira uma zona e nós é que temos que resolver depois, dar explicações, enterrar corpos, limpar sangue e mais sangue, conversar com o povo e, por fim, explicar ao próprio regente. Não bastassem as tensões com Yuden, a tempestade mortal se espalhando no oriente e o povo de Tapista esperando que cometamos um erro, ainda tenho que ficar faxinando meu próprio quintal!” - as últimas palavras vieram sob a forma de um berro.

Enquanto isso o grupo ficava inerte, olhos baixos e mãos juntas, como se fossem crianças sendo repreendidas após uma travessura. Eles poderiam ser considerados muitas coisas, mas nunca estiveram contra a lei e sempre se vangloriaram de serem aventureiros certinhos, se é que isso era possível. Eles entendiam os argumentos de Arkam, mas ele não entendia a situação deles com o sequestro de Gustav. Enquanto isso Fortão dividia-se entre escutar a conversa com atenção e lamber seu pelo.

“- Não era nossa intenção... sempre procuramos deixar as lutas longe de gente inocente, ainda mais por aqui... cuidaremos para que isso não se repita” - Blander parecia sincero.

“- Blander, vocês precisam de alguma ajuda ou podem dar conta daqui em diante?” - questionou Allieny, se aproximando por trás do grupo.

“- Acho que por hora, pelo menos até sairmos da cidade, estará tudo tranquilo... obrigado.”

Arkam se levantou com um sorriso no rosto e virando-se para os guardas que aguardavam na porta, pelo lado de dentro, começou a dar algumas ordens sobre a arrumação da bagunça criada pelo grupo de Blander.

“- Espero que a estadia de vocês seja breve se for para termos mais confusão...” - ele disse virando novamente para o grupo ente uma ordem e outra. Fortão, que finalmente terminara de alinhar seu pelo, ajeitou-se no seu lugar olhando cuidadosamente para o impressionante guerreiro. Ele estava realmente maravilhado com seu braço verdadeiramente de metal, como os rumores que percorriam as terras artonianas falavam. Arkam olhou o gato com cuidado, fazendo um carinho repetido em sua cabeça.

“- Que vergonha... nem se preocuparam em deixar um animalzinho indefeso como esse em perigo... deviam se envergonhar!” - ele disse, virando as costas para sair.

A cena fez Gustav quase cair cadeira enquanto se engasgava com a própria saliva criando em acesso de tosse sem fim.

“- O que... Mas... Ele.... Ele é uma peste miserável que matou tantos quanto eu!” - tentava dizer o anão entre uma tossida e um engasgo. Mas Arkam já estava quase na porta e não deu a menor atenção para o Gustav. De seu lugar Fortão apenas olhava com aquele típico desdém felino enquanto o anão continuava esbravejando - “esse gato imprestável está do lado de quem?”.

O resto do grupo não conseguiu segurar as gargalhadas enquanto o gato apenas se espreguiçava.

o  O  o

A volta para a taverna foi em silêncio. Pelo menos quase todos estavam em silêncio. Os elfos continuavam a divertidamente conversar entre eles e com Fortão. Gustav tinha certeza, em seu mal humor habitual, que ambos nunca ficaram de boca fechada por mais de alguns instantes nessa vida toda.

Eles atravessaram a porta dupla da Caneco de Bronze já com os primeiros raio de sol despontando no horizonte Nesta hora da manhã o sol criava uma descomunal sombra devido à enorme estátua de Valkaria deixando boa parte da cidade na penumbra. Era uma visão inesquecível para aqueles que visitavam ela.

Os primeiros hóspedes já circulavam pelos ambientes da taverna e muitos sons vinham da cozinha e de onde as refeições eram servidas. Guerta passava com duas enormes bandejas de madeira quando eles chegaram quase atropelando-os com seu enorme corpo de meia-orc. Detrás do balcão Dorten berrava algumas ordens quando os avistou abrindo um largo sorriso.

“- Aha!!! Vivos... e sem faltar nenhum braço ou perna! Isso é bom! Vão para a mesa que logo levarei uma grande refeição para vocês!” – ele disse enquanto corria para dentro da cozinha por sua porta de acesso aos berros.

O grupo foi se sentando ao redor de uma grande mesa perto de uma ensolarada janela. Visivelmente estavam cansados depois de uma noite de ação. Até mesmo os elfos estavam em silêncio agora. Fortão pulara para o parapeito da janela para tomar sol enquanto atentamente olhava o movimento dos amigos. Cuidadosamente Gustav e Truilli sentaram em posições opostas.

“- Realmente o que aconteceu irmão?” – quebrou o silêncio Gustav.

“- O passado insiste em me perseguir. Eu tentei arrumar tudo e não deu certo. Eu tentei reverter os erros e não deu certo. Eu tentei me esconder, por fim, e também não deu certo” – as palavras saiam enquanto ele olhava ora para o chão, ora para o teto – “ontem foi apenas mais um capítulo dessa piada sem graça que sou eu.”

Gustav apenas o olhava de forma fixa. Fortão não sabia se ele estava escutando ou apenas se preparando para saltar sobre seu irmão. A tensão era palpável. O gato deu um salto para a grande mesa e fico sentado olhando o anão alquebrado.

“- Lembra Gustav... meu grupo tinha algumas boas e aguerridas almas. Tyorus. Galhanthar. A belíssima Randyra. Seu primo Phofolly. Todos companheiros por mais de uma década. Conquistamos alguma fama em lugares que ajudamos e uma boa quantidade de moedas de ouro para levarmos uma boa vida. Mas o que desejávamos era mais e mais aventura. E isso foi nossa ruína.”

Nossa última missão foi investigar umas catacumbas abandonadas e até poucos dias antes esquecidas. Ficava à meio caminho entre Yuden e Hongari. Fomos procurados por uma comitiva de moradores liderados pelo administrador da vila que nos contou sobre desaparecimentos, roubos e mortes cujos rastros sempre levavam para uma direção. Um mateiro que seguira os rastros descobriu a entrada da catacumba, mas não se aventurou em sua escuridão. Um caso clássico que qualquer grupo de aventureiros adoraria ter em mãos. Moedas fáceis, um pouco de fama e vinho. Aceitamos na hora.”

Num primeiro momento desconfiávamos que fosse apenas um grupo de goblins ou orcs que haviam recém chego à região ou algo ainda mais simples como um grupo de bandidos apenas se escondendo perto de sua fonte de roubo. Não nos preparamos o suficiente.”

Logo que entramos na catacumba percebemos que aquilo estava longe de ser algo simples. A catacumba em si era simples e pequena, mas não era só isso. Uma entrada nova havia sido escavada como que a interligando à uma ala isolada e muito diferente dela. Os corredores eram muito antigos, mas de um acabamento em pedra bruta que beiravam o lindo e o mórbido. Aqueles eram corredores ancestrais e a aura que emanava deles era inegavelmente maligna. À cada passo dado um calafrio percorria nossas espinhas e mais e mais certeza tínhamos de que não estávamos tendo noção de onde havíamos nos metido.”

Logo descobrimos que os perigos ali não eram simples e muitos desafios foram vencidos quase custando nossas vidas. Enfrentamos monstros que nem sabíamos que existiam e mais de uma vez escapamos por pouco da morte certa. Foram várias horas de perigos até chegarmos ao fundo do terceiro andar daquela estrutura, em sua câmara principal. Aquela sala era maravilhosa. Ainda lembro do teto altíssimo como que feito por titãs. Colunas entalhadas na própria rocha e colocas de pé nem imagino como. Piso tão lustroso que parecia um espelho dos deuses. E mesmo assim, com toda esta beleza, quando olhávamos para ela, ainda antes mesmo de entrarmos, tínhamos a sensação de estar vislumbrando o inferno. Nosso olhar era maravilhado ao mesmo tempo que sentíamos um horror que quase nos obrigava a virar o rosto e esconder os olhos. Era perturbador.”

Fortão estava maravilhado com a descrição de Truilli. Ele conseguia, em sua mente, imaginar cada detalhe. Era o que sempre sonhara para ele como aventureiro – perigos inimagináveis. Ele nem percebeu de pronto a tigela de leite que Guerta e Dorten haviam colocado em sua frente, junto de tantas outras tigelas de pão, mel, pedaços de carne assada e canecos de vinho para os outros. Se perguntava se ele mesmo teria oportunidade de vivenciar aventuras assim e se quando chegasse a hora suas decisões o fariam ser grande, como a própria Deusa disse à ele dias atrás. Por uma fração de segundo ele pensou também sobre o presente que ela lhe havia dado... o que seria? Quando Truilli limpa garganta após engolir um pedaço e pão, Fortão e trazido de volta, prestando atenção novamente no anão.

“- O que aconteceu nesta câmara?” – questionou Ally pegava um naco de pão ainda quente do forno e passando no mel.

“- Logo que chegamos à ela percebemos as portas entreabertas e sem guardas. Não que houvesse uma milícia propriamente dita, mas parecia que todas as criaturas ali estavam tentando nos impedir de prosseguir. Sei que parece loucura, mas essa era a impressão. E como eu queria que os deuses tivessem nos impedido de continuar.”

Pela fresta percebemos que haviam prisioneiras, provavelmente pessoas da comunidade que nos contratara. Ao centro havia um bruto altar de pedra aparentemente mais antigo do que a própria catacumba. Ele destoava do magnífico piso espelhado. Algumas figuras encapuzadas com mantos negros entoavam um cântico em uníssono que eu nunca escutara.”

Decidimos acabar com aquilo de uma vez por todas e ir logo para casa salvando aquelas pessoas. Como de costume avançava eu, Phofolly e Tyorusm, enquanto Galhanthar e Randyra nos davam cobertura e cuidavam da retaguarda. Mas tudo foi muito pior do que já havíamos enfrentado em toda nossa vida. Alguns daqueles encapuzados eram feiticeiros, ou coisa pior, e invocaram coisas, seres enormes que saíram sei lá de onde. Além disso, havia muito mais adversários do que suspeitamos. A luta durou uma eternidade.”

Quando o último feiticeiro caiu, aquele que estava com a faca cerimonial pronto para fazer seu sacrifício, ele disse algumas palavras que apenas mais tarde fizeram sentido. Vocês estão enganados. No momento não demos atenção, mas isso mudou toda a nossa vida dali em diante. Terminamos a luta vivos, extremamente feridos, mas vivos. Galhanthar perdeu um de seus olhos naquele dia, no mesmo dia que Phofolly perdera dois dedos. O resto de nós saiu inteiro, se é que podemos dizer isso.”

Levamos os reféns de volta, vivos, com todos os espólios que pudemos carregar. Um deles foi um velho livro, um tomo mágico, que sabemos sempre valer algumas boas moedas de ouro para os seguidores de Tanna-toh, o deus do conhecimento. A volta foi muito mais tranqüila com apenas um ou dois monstros desgarrados que tinham escapado na nossa vinda. Chegamos à vila e fomos recebidos como heróis. Foi maravilhoso ver tantas famílias sendo reunidas novamente.”

Nossas feridas foram tratadas e um banquete de comemoração servido com tudo do melhor. Ainda hoje me lembro daquela noite. A lua parecia ainda maior e as estrelas mais perto do que jamais havia notado. A cantoria e as canecas de vinho e hidromel entraram noite à dentro. Inevitavelmente, em algum momento caímos bêbados. Pelo menos eu achava isso.

“- Parece uma reação normal depois de tantas dificuldades” – comenta Blander.

“- E seria” – suspira Truilli – “se não tivéssemos acordado amarrados no enorme salão de onde havíamos resgatado as reféns.”

Alguma coisa foi posta no vinho ou na comida. O que sei é que nunca havia caído bêbado e Gustav conhece bem a fama dos anões em serem duros de derrubar com bebidas alcoólicas. Minha cabeça ainda girava mais do que roda de moinho em época de colheita quando comecei a ter noção de onde estava e do que estava acontecendo. Estávamos os cinco amarrados e colocados em uma espécie de mesa inclinada formando um círculo ao redor do altar de pedra. Galhanthar e Randyra estavam amordaçados para que não pudessem lançar nenhuma palavra de poder que pudesse nos ajudar. Ao centro, no altar, uma menina desacordada, provavelmente virgem. Um clichê, mas que na hora dos encantamentos acaba sendo a pura verdade.”

Aos poucos os outros foram acordando e tomando ciência da situação. Por mais que nos esforçássemos não conseguíamos nos livrar das amarras. Ao lado da menina o administrador da cidade estava vestido com um manto negro, semelhante aos dos infelizes que matamos, mas com ornamentos dourados. Em uma das mãos ele tinha uma adaga de cristal negro e na outra mão tinha o tomo mágico aberto. Ele confabulava baixinho com outros asseclas igualmente vestidos com mantos, mas de cores variadas enquanto consultava o livro. Ao redor da sala de teto abobadado toda a vila, incluindo crianças e velhos, estava a nos observar, vestindo suas túnicas brancas e negras.”

Os olhares de Gustav e dos outros estavam fixos em Truilli. Mesmo Dorten havia puxado uma cadeira para perto e sentado com seu longo cachimbo aceso. Fortão estava imóvel e de olhos arregalados.

“- Quando o administrador percebeu que havíamos desperto ele se aproximou” – continuou a relatar o anão.

“Com um sorriso sarcástico nos lábios ele nos pediu desculpas pelo infortúnio, mas eles não tinham como recuperar o tomo sagrado enquanto estivesse nas mãos daquele grupo de benfeitores, como ele mesmo os denominou. Precisava de alguém de coração puro e sem interesses reais no tomo para que pudesse entrar, matá-los e recuperar aquilo que lhes pertencia à eras e que por tanto tempo ficou perdido. Ou seja, nós. Tudo fora um engodo, uma armação. Ele nos fez acreditar que seria um trabalho simples como tantos outros que estávamos acostumados e acabamos fazendo todo o trabalho sujo sem imaginar que éramos apenas peças em um tabuleiro.”

“Ele nos contou que depois que o tomo havia sido retirado daquelas cavernas por nós o poderoso feitiço de proteção havia sido quebrado. Assim eles poderiam finalmente chegar até o templo e realizar o ritual de passagem para um outro mundo e trazer aquele que deveria guiá-los em Arton. Ele disse um nome impronunciável que nem imagino de qual idioma antigo fora tirado. Ele ainda nos agradeceu por resgatar as jovens que seriam mortas pelos sacerdotes que protegiam o tomo já que elas , na verdade, eram peça chave para que a abertura do portal acontecesse. Quando ele disso isso, as cinco jovens se aproximaram de cada um de nós com adaga em mãos. Em resumo nós fizemos tudo errado. Matamos os mocinhos, quebramos o feitiço de proteção, libertamos aquelas que deveriam realizar o ritual do mal e ainda por cima seriamos sacrificados.”

“- Dá para se dizer que não foi uma noite boa” – disse Ehllinthel deixando Fortão na dúvida se o elfo realmente estava falando sério ou se era mais uma piada fora de hora. Fortão o encara de forma severa – “o que foi ... realmente não fora uma noite boa!”

Truilli suspirou e após outro gole continuou a narrativa. Mais algumas cadeiras já tinham se virado para a mesa do grupo de Fortão e o silêncio denunciava que todos estavam prestando atenção na aventura do irmão de Gustav. Além da voz do anão só se escutavam os passos apressados das meninas de Gherta trazendo canecos e tigelas cheias para todos os que estavam ali.

“- Aquele sacerdote continuou falando coisas que realmente eu não entendia, e nem fazia questão de compreender. Eu só pensava em como sair dali. As amarras eram realmente fortes e nosso estado depois de toda aquela luta nas masmorras, e ainda por cima o efeito da droga, não me permitia qualquer sucesso. Tyorus igualmente forçava as amarras enquanto Phofilly parecia enfraquecido depois de perder tanto sangue com os dois dedos decepados. Mas tudo só piorou.”

O infeliz declarou que iria começar o ritual. Todos os que estavam ao nosso redor, em um grande círculo, todo o povo daquela vila, começou a entoar uma música estranha. Então ele começou a ler palavras estranhas daquele tomo maldito e logo depois fez um talho na palma de sua mão com a adaga negra. O sangue logo se espalhou e ele o esfregou em seu rosto. As pessoas começaram a cantar mais e mais alto. Eu fazia força mas não conseguia arrebentar aquelas cordas.”

Bem à minha frente, do outro lado do círculo, estava Randyra, amarrada e amordaçada. Ele olhava freneticamente para cada um de nós e para aquele monstro. Eu vi o pavor em seus lindos olhos verdes. Nunca a havia visto assim.”

O infeliz começou a caminhar lentamente olhando para cada um de nós como se estivesse escolhendo carne em um matadouro para a próxima ceia. O canto estava ensurdecedor... tão alto que não consegui escutar o que ele dizia. Ele continuou caminhando até parar ao lado Galhanthar. Seu olho sangrava e já tinha ensopado sua mordaça. O sacerdote pegou sua mão ensangüentada e fez uma linha bem no meio do pescoço de meu amigo de tantas aventuras. O meio elfo me olhou como que se despedindo...”

Fortão nunca vira um anão chorar. Ele sempre achou que os deuses os tivessem feito desprovidos de lágrimas. Mas aquele anão, Truilli, estava chorando sutilmente enquanto falava. Era uma mescla de dor e ódio que culminava com uma fina linha de lágrimas molhando sua barba, vindo de cada um dos olhos.

Ele continuou – “uma das mulheres que nós tínhamos salvo à poucas horas fez um movimento seco e preciso exatamente sobre a linha de sangue no pescoço de Galhanthar. O movimento foi veloz, mas para mim durou uma eternidade. Quando primeiro jorro de sangue esguichou para fora todas as pessoas, mesmo as crianças, entraram em um frenesi impressionante. Randyra berrava mesmo com a mordaça. Phofolly estava petrificado pelo que estava acontecendo. Eu não sabia o que fazer. Mas quem nos salvou foi Tyorus. Ele enlouqueceu com a cena. As veias de seu pescoço e braços pulsavam como se ele tivesse sido possuído por alguma força das profundezas. Em sua raiva ele arrancou o tablado onde estava amarrado e mesmo sem se soltar ele correu para cima do sacerdote que se esquivou por pouco. Em desabalada ele atingiu uma meia dúzia de pessoas que estavam no círculo e atingiu a parede atrás delas, destruindo aquilo que o aprisionava. Ele estava possuído pela raiva e pela dor. Em uma fração de segundos ele já tinha esmagado o pescoço de pelo menos dois daqueles aldeãos e já estava com uma espada em cada mão.

Tyorus estava enlouquecido, mas ainda era um guerreiro experiente. Ele primeiramente cortou as amarras de Randyra, que estava mais perto, arremessando a mesma espada nas costas da mulher que estava à minha frente pronta para cortar meu pescoço. Sua raiva era tanta que a espada a transpassou e quase me atingiu. Randyra passara do pavor à completa ira e tão logo arrancou sua mordaça incinerou aqueles que estavam mais próximos dela, antes de correr até mim e Phofolly para nos soltar.

Aquilo virou um pandemônio. Todos corriam, gritavam e se armavam para nos atacar. Mesmo as crianças. Foi um banho de sangue. Embora eles fossem muitos e estivessem enlouquecidos, nos ainda éramos guerreiros treinados...”

“A raiva tomou conta de nós. Não ficou um vivo... Mesmo as crianças...”

“O último a ser morto foi o sacerdote, aquele que nos enganou e tomou a vida de nosso amigo e colega de aventuras. Ele simplesmente ria freneticamente encolhido em um canto. Ele repetia que nós nunca sairíamos ganhando, que era só uma questão de tempo até que outros como ele achassem o livro e finamente terminassem o ritual. Confesso que adorei enfiar minha espada nele bem lentamente.”

Truilli respirou fundo.

“Depois de queimarmos o corpo de nosso amigo, como ele tanto desejava, decidimos dar cabo daquele livro maldito, mas foi impossível. Nada a destruía... fogo... magia... nada. Não tínhamos ideia do que fazer. Descobrimos que embora ele não pudesse ser destruído, ele poderia ser repartido. Parece idiota, mas o livro pode ser rasgado em partes menores. Em quatro partes, para dizer a verdade. Cada um de nós ficou com uma e decidiu se isolar em algum canto de Arton. Tudo aquilo, a morte de nosso amigo, nossos erros, a matança, tudo aquilo nos abalou. Estávamos nos aposentando, pelo menos de trabalharmos juntos.

Eu voltei para minha terra natal” – disse isso olhando para Gustav – “achava que não teria lugar melhor para passar o resto de meus dias até descobrir o que fazer com parta destruir a minha parte do livro.”

“- Eu lembro quando você voltou” – disse Gustav – “você estava com um aspecto horrível, parecia ter envelhecido uns cem anos desde a última vez tínhamos nos encontrado. Isso foi pouco antes de...”

As palavras de Gustav foram morrendo aos poucos. Todos se viraram para ele. Blander arregalou os olhos como que tendo percebido algo e olhava de Truilli para Gustav e vice versa. Fortão não entendia a tensão que se formava no ar, embora ele tivesse aquele sentido felino para este tipo de coisa ele simplesmente não compreendia.

“- Eu não sei como eles me acharam irmão...” – disse Truilli baixando a cabeça – “eu havia ido lá te encontrar para enchermos a cara, como nos velhos tempos... Sem aviso eles invadiram... Quando dei por mim o pequeno já estava sem vida e sua esposa presa... Eu sabia que eles estavam atrás de mim, não deles.... Por isso fugi, par atraí-los.”

“- Você os deixou para morrer!” – rosnou Gustav.

“- Não! Muito pelo contrário. Eu sabia que permanecer ali seria o fim deles, por isso tentei atraí-los para longe. Fugi para protegê-los” – ele olhou firmemente para o irmão – “você tem que acreditar nisso! Só por isso sua esposa sobreviveu.”

“- Mas perder nosso filho foi como perder a própria vida. Ela definhou até a própria morte... ela desistiu de viver” – disse baixinho Gustav.

“- Eles estavam atrás da tua parte do livro?” – questionou Blander.

“- Exato. Depois daquilo passei um bom tempo perambulando por toda a Arton atrás de um lugar para esquecer de todo o passado, até que acabei por resolver ficar aqui. Nada melhor para me esconder do que a maior cidade do Reino. Tão logo pude mandei um aviso para Gustav dizendo onde eu estava. Sempre ansiei por lhe contar o que acontecera, mas a coragem que tenho para enfrentar monstros é muito maior do que a coragem que preciso para enfrentar a verdade.”

Um silêncio se instalou em todos, mesmo os que estavam apenas escutando aquilo como uma simples história. Gustav e Truilli se encaravam, um com ódio, outro com resignação. Até que Ally se levantou e pigarreou. Todos se viraram para o elfo não imaginando o que ele diria agora, mas temendo. Fortão se levantará na tentativa de fazer qualquer coisa para impedi-lo de abrir a boca. A fama de Ally dizer a coisa errada na hora errada era notória dentro do grupo.

“- Bom... pelo menos uma coisa houve de bom nisso tudo. Nada melhor do que uma boa caçada por vingança e justiça para amenizar os ânimos e apagar velhos equívocos de família, hein!?” – disse o elfo com um caneco na mão.

Blander abriu um sorriso enquanto levantava seu corpanzil erguendo seu caneco – “estávamos precisando de uma boa aventura e nada melhor do que uma que reúna família, busca por justiça e muita luta!”

“- E mulheres, espero” – gritou o bardo Ehllinthel com seu caneco ao ar.

“- E mais bebida...” – completou Allyohnas abraçando-o

“- O que acha Fortão?” – disse Gustav virando-se para o gato que estava sentado novamente olhando o discurso de todos – “vamos varrer esses infelizes do mapa e mandá-los diretamente para o inferno de onde nunca deveriam ter saído?”

Fortão olhou profundamente para Gustav, levantou-se e caminhou até a frente de Truilli, analisando-o sério. Então ele se virou novamente para o anão amigo, se espreguiuçou e acenou positivamente com a cabeça.

Urros de felicidade e jubilo ecoaram por toda a taverna que foi lotando enquanto a aventura era contada. Parecia uma comemoração de alguma vitória em um torneio. Todos gritavam, agitavam seus canecos, brindavam e se felicitavam. Valkaria era uma cidade velada e protegida pela deusa que recebia o mesmo nome, uma deusa de aventureiros. Não haveria melhor agouro do que iniciar uma aventura naquela cidade. Dorten surgiu sabe-se lá de onde com as atendentes e suas bandejas repletas com mais canecos de vinho, cerveja e hidromel gritando que aquela rodada seria por sua conta.

“- Vamos caçar esses desgraçados e trazer paz para nossos amigos... Podem contar com minha espada!” – gritou Blander.

“- Meu machado!” – gritou Gustav.

“- Nossos arcos e espadas” – gritaram os elfos abraçados.

“- Fssssssss!” – assoprou Fortão mostrando suas garras e deixando claro que estava pronto para a luta.

“- Mas por onde começaremos nossa jornada?” – questionou Blander.

“- Podemos começar por isto” – Truilli cravou uma adaga de lâmina negra na mesa, a mesma adaga que fora do sacerdote e que ele guardara como lembrança de tudo o que aconteceu naquela fatídica noite. Todos a olharam com uma mescla de admiração, por sua incontestável beleza, e repulsa, por tudo o que ela representava.

“- Acho que sei exatamente por onde podem começar, amigos!” – disse Guerta, que estava passando pela mesa naquele momento.

o  O  o


Perdeu o início da aventura, veja os capítulos:
Capítulo 1 - AQUI
Capítulo 2 - AQUI
Capítulo 3 - AQUI
Capítulo 4 - AQUI
Capítulo 5 - AQUI
Capítulo 6 - AQUI
Capítulo 7 - AQUI


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2 comentários:

Deran Son disse...

Valeu por voltar com esta historia, adoro ela.

João Brasil disse...

Que bom que está gostando...tentarei manter uma maior regularidade!